Enquanto isso, a usina inacabada continua gerando despesas. Os R$ 3,5 bilhões aportados pela ENBPar em 2022 para custear Angra 3 se esgotaram em setembro de 2024. A partir daí, a Eletronuclear passou a usar receitas das usinas que funcionam, Angra 1 e 2, para arcar com as obrigações do empreendimento, segundo a própria companhia.
A Axia vinha trabalhando para sair desse intrincado negócio. A busca por um comprador começou em 2023. Em julho de 2024, a então Eletrobras já informava ao mercado que negociava com a União sua saída da Eletronuclear e a liberação dos compromissos com a construção de Angra 3.
O acordo de venda levou ao reconhecimento de uma redução de aproximadamente R$ 7 bilhões no valor contábil do investimento. Ao anunciar o negócio, a elétrica destacou que a transferência das ações e das obrigações remanescentes permitiria reduzir riscos e liberar capital para outros investimentos. O benefício esperado ia, portanto, além dos R$ 535 milhões a receber pelas ações.
Sócio de peso
Para o governo, a saída da Axia trazia a necessidade de encontrar outro parceiro para dividir as responsabilidades financeiras da Eletronuclear. Nas condições da conciliação divulgadas em fevereiro de 2025, a União se comprometeu a apoiar a busca de um novo acionista que pudesse assumir obrigações do acordo de investimentos.
A entrada de um grupo em expansão no setor elétrico e com interlocução no governo, como a J&F, atendia a esse interesse. A expectativa era que o novo sócio ajudasse a viabilizar uma solução para Angra 3.
Segundo reportagem do Valor Econômico publicada em agosto, fontes envolvidas nas discussões afirmavam que a entrada da J&F havia sido estimulada pelo próprio governo com esse objetivo. Para os Batista, a aquisição também abre espaço em um segmento que o grupo considera promissor.

No anúncio da operação, a Âmbar, empresa de energia da J&F, destacou a capacidade da energia nuclear de fornecer eletricidade de maneira estável e com baixas emissões, diante da perspectiva de aumento da demanda puxado pela inteligência artificial e pela digitalização da economia.
A divisão das responsabilidades pelos novos investimentos, contudo, era uma das pendências apontadas pelo Valor em agosto. Segundo o jornal, a ENBPar havia solicitado à J&F adesão ao acordo que disciplina os compromissos para concluir Angra 3 e, naquele momento, ainda aguardava resposta.
Esse acordo teve seus efeitos suspensos pela conciliação homologada no STF. Mas o acerto preservou uma possibilidade: se a participação na Eletronuclear for vendida antes da rescisão do acordo de investimentos, a ENBPar poderá restabelecê-lo e exigir que o comprador assuma os direitos e as obrigações da vendedora.
Garantias
A saída da Axia exige também que a compradora a substitua como garantidora de financiamentos da Eletronuclear. No fim de 2025, essas garantias somavam R$ 5,8 bilhões, quase integralmente vinculados a Angra 3, segundo as demonstrações financeiras da elétrica. A J&F passará a responder por esses empréstimos em caso de inadimplência da companhia nuclear.
A entrada dos Batista preservará o controle federal da Eletronuclear. A participação negociada corresponde a 67,95% do capital total, mas a 35,9% das ações com direito a voto. A ENBPar continuará com os outros 64,1% dos votos. Assim, a J&F terá a maior fatia do capital, enquanto o governo manterá o comando da companhia.
A espera pela conclusão tem precedente em outro negócio entre a Axia e os irmãos Batista. Em junho de 2024, a Âmbar acertou a compra do portfólio de termelétricas da então Eletrobras.
A maior parte do pacote, formada por ativos no Amazonas, foi transferida em maio de 2025, cerca de 11 meses depois. A última usina, Santa Cruz, no Rio de Janeiro, mudou de mãos em 9 de outubro de 2025, aproximadamente 16 meses após o anúncio.
Procuradas pelo InvestNews, J&F e Axia não comentaram.

