O Eurogrupo agirá rapidamente para preparar a recomendação do próximo presidente do BCE, afirmou seu presidente, Kyriakos Pierrakakis, em comunicado. Uma decisão será tomada em breve, disse o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil.
A decisão ocorre em um momento delicado para o BCE, com sede em Frankfurt. A instituição enfrenta uma inflação elevada provocada pela guerra no Irã, em meio à instabilidade geopolítica, à tensão nos mercados de títulos públicos e aos grandes gastos europeus com defesa e infraestrutura.
O espanhol Pablo Hernández de Cos e o holandês Klaas Knot disputam a sucessão de Lagarde. Economistas consultados pela Bloomberg em outubro consideram De Cos, ex-presidente do Banco da Espanha e atual chefe do Banco de Compensações Internacionais (BIS), o favorito.
Os rumores sobre a saída de Lagarde vinham se intensificando. Ela se recusou repetidamente a se comprometer a cumprir os oito anos de mandato. Ao mesmo tempo, especulações indicam que ela deseja assumir a liderança do Fórum Econômico Mundial, organizador do encontro anual de Davos.
Lagarde também deu sinais de que gostaria de participar da campanha para as eleições presidenciais francesas na próxima primavera europeia, mas descartou concorrer ao cargo de presidente da França. As declarações enigmáticas frustraram colegas no BCE, e alguns temem que a situação prejudique a imagem de uma das instituições econômicas mais importantes da região.
“Ao longo de sua história, o BCE administrou com sucesso as transições de liderança, mantendo o cumprimento de seu mandato”, escreveu Lagarde em um memorando aos funcionários. “Esta situação não é diferente. Sei que o BCE continuará a servir à Europa com a mesma dedicação no período que vem pela frente.”
O anúncio ocorre enquanto Estados Unidos e Irã ainda não conseguiram chegar a um acordo de paz duradouro. O BCE elevou os custos dos empréstimos em junho e setembro, e os mercados esperam um novo aperto da política monetária.
Os rendimentos dos títulos públicos também subiram em várias partes do mundo, enquanto investidores demonstram preocupação especialmente com as contas públicas da França, país de origem de Lagarde. O prêmio exigido pelos investidores para comprar títulos franceses de dez anos em vez de papéis alemães com o mesmo prazo atingiu recentemente o maior nível desde 2011, alimentando especulações sobre uma possível intervenção do BCE.
Embora Lagarde tenha argumentado que as projeções indicam uma convergência da inflação para a meta por volta do fim de 2027, críticos poderão acusá-la de descumprir o compromisso de não abandonar o cargo quando “há nuvens no horizonte”.
Antes de Lagarde, o holandês Wim Duisenberg foi o único presidente do BCE a não cumprir um mandato completo. Sua saída antecipada, porém, havia sido acertada previamente para resolver um impasse entre França e Alemanha antes da criação do banco, em 1998.
Os líderes europeus têm reuniões de cúpula previstas para novembro e dezembro, nas quais tentarão escolher um sucessor. Além dos favoritos, não está descartada a escolha de um candidato menos cotado. A própria Lagarde só entrou na disputa pela presidência do BCE na última hora.
O que diz a Bloomberg Economics
“Lagarde provavelmente encerrará o atual ciclo de alta dos juros em dezembro. Isso poderá dar algum espaço para seu sucessor antes que seja necessário alterar novamente as taxas de juros”, dizem David Powell e Simona Delle Chiaie.
Os governos também precisam escolher um sucessor para Isabel Schnabel, que antecipará em um ano o fim de seu mandato e deixará o cargo no início de 2027 para trabalhar no Fundo Monetário Internacional (FMI). Como o mandato do economista-chefe do BCE, Philip Lane, também termina em maio, os governos provavelmente tentarão chegar a um acordo sobre os três cargos.
A saída antecipada de Lagarde pode gerar acusações de interferência política na independência do BCE, já que o calendário permite que o presidente francês, Emmanuel Macron, participe da escolha de sua substituta antes de encerrar seu último mandato. Pesquisas indicam que a candidata de extrema direita Marine Le Pen pode vencer o primeiro turno das eleições presidenciais francesas.
O presidente do banco central francês também renunciou antecipadamente, e Macron nomeou Emmanuel Moulin, seu chefe de gabinete, para o cargo.
