Economia

Recompra de títulos dos EUA decepciona mercado e juros futuros voltam a subir

O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, ampliou o programa de recompra de dívida pública nesta quarta-feira, mas a medida não foi suficiente para conter a alta dos juros nos Treasuries, os títulos públicos americanos. O Tesouro anunciou a compra de até US$ 6 bilhões em títulos de prazo mais longo, três vezes o valor...

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O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, ampliou o programa de recompra de dívida pública nesta quarta-feira, mas a medida não foi suficiente para conter a alta dos juros nos Treasuries, os títulos públicos americanos.

O Tesouro anunciou a compra de até US$ 6 bilhões em títulos de prazo mais longo, três vezes o valor definido no mês anterior. Ainda assim, o mercado de US$ 32 trilhões em dívida do governo americano seguiu pressionado, em um dia marcado também pela disparada do petróleo, que reacendeu temores de inflação persistente.

Os preços dos títulos de 10 anos, que já vinham em queda desde o início do pregão, recuaram ainda mais após o anúncio — movimento que levou o rendimento a subir até 4,85%. A taxa está no maior patamar desde 2023, mesmo com Bessent tentando reduzi-la desde que assumiu o cargo no ano passado.

Mercado queria mais

Operadores esperavam um valor ainda maior para a operação de recompra, depois que Bessent sinalizou publicamente a possibilidade de pagar acima de US$ 4 bilhões por emissão — bem acima do teto original de US$ 2 bilhões. Por isso, o anúncio de US$ 6 bilhões decepcionou.

Segundo Steven Zeng, estrategista do Deutsche Bank, faltou o “choque” que os investidores esperavam. “É como se o Tesouro tivesse criado um monstro que agora precisa alimentar”, disse Zeng.

Ontem, Bessent já havia reconhecido publicamente que não tem como alterar o preço de “equilíbrio” dos títulos americanos — o nível que reflete os fundamentos econômicos reais, e não uma intervenção pontual do governo. Seu objetivo, segundo ele, é desacelerar os movimentos bruscos e evitar que narrativas negativas ganhem força. O problema é que ele busca juros mais baixos justamente em um momento de inflação em alta, expectativa de novos aumentos de juros pelo Federal Reserve e déficits orçamentários historicamente elevados.

Por ora, o Tesouro não deu sinais de que vá aumentar ainda mais as recompras. O órgão informou que as outras seis operações programadas para o trimestre fiscal atual terão valor máximo igual ou superior a US$ 4 bilhões — o mesmo patamar anunciado de forma surpresa em 19 de agosto, quando o Tesouro prometeu “pelo menos dobrar” o tamanho das operações, que antes eram de US$ 2 bilhões cada.

Para Elias Haddad, do Brown Brothers Harriman, o gesto ficou aquém do necessário: “o Tesouro levou um estilingue para uma batalha de tanques”, resumiu.

Depois do anúncio de 19 de agosto, os juros haviam recuado, mas voltaram a subir rapidamente. Bessent decidiu reforçar o programa depois que os títulos de 30 anos atingiram a maior taxa desde 2007. Em evento no Texas na terça-feira, ele atribuiu o movimento a uma preocupação que considera infundada, a de que os Estados Unidos não conseguiriam honrar sua dívida — algo que, segundo ele, “virou meio que a narrativa dominante”, apesar de “absurdo”.

Bessent também tem defendido as recompras como forma de melhorar a liquidez do mercado, permitindo que bancos e outras instituições se desfaçam de títulos mais difíceis de negociar e, com isso, participem mais ativamente dos leilões de nova dívida.

O tamanho do desafio ficou ainda mais evidente horas depois, quando o Tesouro vendeu US$ 39 bilhões em títulos de 10 anos a uma taxa de 4,834% em leilão — a maior desde 2007.

Vale um esclarecimento técnico: o teto de US$ 6 bilhões não significa que o Tesouro vá necessariamente comprar esse valor total. Mas, historicamente, quando o programa mira dívida nominal de prazo mais longo, o órgão costuma comprar o valor máximo anunciado — só não o fez em duas das 52 operações realizadas desde que o programa foi retomado em 2024. Também é possível que o volume final seja maior: segundo o próprio site do Tesouro, um “anúncio final de recompra” costuma ser divulgado às 11h do dia da operação, e esse anúncio final “substitui o preliminar”.

Investidores e analistas veem a intensificação das recompras como reflexo do desconforto do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, com a alta dos custos de financiamento de longo prazo, a poucas semanas das eleições legislativas de novembro. A alta dos rendimentos levou as taxas de hipotecas nos EUA ao maior nível em mais de um ano.

Bessent ‘intervencionista’

“Scott adotou, sem dúvida, um modelo muito intervencionista como secretário do Tesouro”, afirmou Krishna Guha, chefe de economia da Evercore ISI, antes do anúncio de hoje. “Ele é taticamente muito habilidoso para escolher quando e como surpreender e movimentar os mercados e teve algum sucesso no curto prazo.”

Bessent descreveu a iniciativa como um “Treasury twist” — referência às Operações Twist do Fed, que tinham como objetivo reduzir os custos de financiamento de prazo mais longo.

O que a recompra de títulos dos EUA significa para o Brasil

Os juros altos estão também do outro lado do Atlântico. Na França, mesmo cenário: 5% e patamar mais alto desde 2008. Do outro lado do Canal da Mancha, mais ainda. Os títulos de 30 anos do Reino Unido não pagavam tanto desde 1998: 5,9%.

E o que tudo isso tem a ver com quem investe em reais, aqui no Brasil? Tem tudo a ver. Com os títulos em dólar, libra e euro pagando taxas recordes, a concorrência para os daqui, em real, pesa.

O capital flui para onde o retorno é mais atraente e a moeda, mais segura. Isso obriga o Brasil a pagar mais juros para continuar competitivo — juros que já estão num patamar que não era visitado desde 2016. Uma análise do BTG Pactual mostra que 40% da força que mantém os juros longos brasileiros lá em cima vem do exterior, principalmente dos títulos americanos, concorrentes diretos dos papéis daqui.

A dinâmica que sustenta esses juros lá fora tem duas frentes: o crescimento acelerado da dívida pública e privada nos países desenvolvidos, e a corrida das big techs para financiar infraestrutura de inteligência artificial — soma que pode chegar a US$ 1,7 trilhão entre 2026 e 2027. Some a isso os sinais do Federal Reserve de que uma alta de juros ainda neste ano está sobre a mesa, e o quadro que pressiona os títulos brasileiros fica mais claro.



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Redação A Notícia 24H.