Economia

Como fabricantes chinesas de chips criam bilionários mesmo sem dar lucro

A Shanghai Enflame Technology tem menos de 900 funcionários, um único grande cliente e nunca registrou lucro desde que a fabricante chinesa de chips foi fundada, em 2018. Isso não impediu que os fundadores Zhao Lidong e Zhang Yalin se tornassem bilionários. Investidores interessados em empresas ligadas à inteligência artificial vêm despejando dinheiro na companhia...

Por · 09:42 3 min de leitura
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A Shanghai Enflame Technology tem menos de 900 funcionários, um único grande cliente e nunca registrou lucro desde que a fabricante chinesa de chips foi fundada, em 2018.

Isso não impediu que os fundadores Zhao Lidong e Zhang Yalin se tornassem bilionários. Investidores interessados em empresas ligadas à inteligência artificial vêm despejando dinheiro na companhia e deixando em segundo plano os diversos obstáculos ao seu crescimento. Além dos dois fundadores, a Tencent Holdings é a maior acionista da Enflame e também sua maior cliente.

As ações da Enflame dispararam até 234% em seu primeiro dia de negociação, nesta sexta-feira (11), na Bolsa de Xangai, elevando a fortuna de Zhao e Zhang para US$ 2,5 bilhões cada.

Os dois fundadores estão sujeitos a longos períodos de restrição à venda de ações e precisam cumprir determinadas metas antes de poder transformar sua participação em dinheiro.

A Enflame não respondeu aos pedidos de comentário.

A disparada da fortuna é mais um exemplo de como ofertas públicas iniciais (IPOs) vêm criando grandes fortunas para um grupo de executivos chineses ligados à inteligência artificial.

Os fundadores da Moore Threads Technology e da MetaX Integrated Circuits, duas concorrentes domésticas da Enflame, também viram seus patrimônios dispararem após as empresas abrirem capital, embora ambas ainda registrassem prejuízo.

A oferta de ações da Enflame também teve demanda muito superior ao número de papéis disponíveis, apesar de a empresa enfrentar gargalos na cadeia de suprimentos, concorrência de empresas globais como a Nvidia e incertezas geopolíticas que contribuíram para vários trimestres de prejuízo.

Zhao e Zhang trabalharam na Advanced Micro Devices (AMD) antes de fundar a Enflame, nome inspirado em uma figura da mitologia chinesa associada à invenção do fogo.

Zhao passou duas décadas no Vale do Silício e foi vice-presidente da estatal chinesa Tsinghua Unigroup, em Pequim. Zhang, por sua vez, cresceu profissionalmente no centro de pesquisa da AMD em Xangai e chegou a comandar o desenvolvimento dos principais chips da empresa.

Desde o início, os fundadores buscaram evitar uma concorrência direta com as unidades de processamento gráfico (GPUs) de uso geral da Nvidia. Em vez de seguir o caminho de outras empresas chinesas, optaram pelo desenvolvimento de um tipo alternativo de chip, projetado para operar fora do ecossistema da Nvidia.

Fabricantes chinesas de chips para inteligência artificial, como a Enflame, se beneficiam do rápido crescimento dos data centers no país. Menor que concorrentes como Huawei Technologies e Moore Threads, a trajetória da Enflame está fortemente ligada à Tencent, que amplia sua capacidade de processamento para IA e continua precisando de grandes volumes de computação para sustentar o WeChat e outros serviços.

A gigante de tecnologia detém uma participação de 20% na Enflame e foi responsável por quase 84% da receita da fabricante em 2025. A Enflame faturou 990 milhões de yuans (US$ 138 milhões) no ano passado.

A empresa registrou prejuízo líquido de 1,16 bilhão de yuans (US$ 160 milhões) em 2025, enquanto aumentava os gastos com pesquisa e desenvolvimento.

No fim de 2023, as tensões geopolíticas obrigaram a companhia a reduzir as especificações de alguns projetos de chips para manter o acesso às operações da Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC).

Para gerar receita, a Enflame também passou a depender fortemente de projetos de computação apoiados pelo governo chinês em cidades como Wuxi e Qingyang.

A decisão da Enflame de se concentrar em chips alternativos representa uma forma de “independência estratégica de alto risco”, segundo Paul Triolo, sócio e chefe da área de tecnologia da DGA.

“O desafio é avaliar como a estratégia da Enflame funciona com diferentes clientes”, disse Triolo. “Ela pode ser adequada para a Tencent e para data centers municipais, que têm recursos para adaptar e atualizar os softwares, mas é menos atraente no mercado aberto de desenvolvedores.”



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