As grandes empresas de tecnologia (hyperscalers) passaram a ter de explorar formatos alternativos de retenção de risco.
Charles-Marie Delpuech, diretor da S&P Global Ratings, cita o exemplo da Meta Platforms, que no ano passado buscou alternativas para dar suporte aos riscos do complexo de data centers Hyperion.
A instalação da Meta superava a capacidade do mercado segurador tradicional. “Eles precisavam de outra solução para mitigar o risco por completo”, diz Delpuech, classificando a estrutura adotada como inovadora.
A Meta acabou recorrendo a uma garantia especial para os detentores de títulos que financiaram parte do projeto. A S&P atribuiu nota A+ às debêntures seniores emitidas pela Beignet Investor LLC, empresa de propósito específico criada pela Blue Owl Capital para viabilizar sua participação no negócio. Procurada, a Meta não respondeu aos pedidos de comentário.
De acordo com a S&P, certas especificidades dos data centers são difíceis de cobrir. Não há no mercado um produto claro para proteger as valiosas unidades de processamento gráfico (GPUs) presentes em cada unidade. Da mesma forma, apólices contra interrupção de negócios por falha de energia costumam impor carências de 12 a 24 horas antes de indenizarem as perdas.
“Existe uma lacuna de cobertura que precisa ser preenchida. É aí que entra o autosseguro”, afirma Delpuech.
O avanço desse modelo promete redesenhar a geografia financeira global de seguros.
A França aprovou uma legislação em 2023 para incentivar a criação de cativas locais, enquanto o Reino Unido discute um arcabouço regulatório competitivo para atrair esse mercado. O movimento tende a deslocar negócios de polos tradicionais como Estados Unidos, Bermudas e Ilhas Cayman.
Para Adriana Scherzinger, chefe global desse segmento da Zurich Insurance, o autosseguro deixou de ser uma alternativa marginal e passou a desempenhar um papel central na alocação de capital e gestão de volatilidade.
“Nos data centers, a escala é inédita, com projeção de aportes na casa dos trilhões de dólares nos próximos anos”, afirma Scherzinger. “Com a capacidade do mercado tradicional já no limite, resseguradoras, cativas, títulos de catástrofe (cat bonds) e veículos de investimento terão que atuar em conjunto para suprir essa demanda e sustentar esse ciclo de expansão pelos próximos anos.”
Uma seguradora para chamar de minha
Os mega data centers estão recorrendo, principalmente, a uma modalidade de autosseguro historicamente ligada a setores de alto risco ambiental, como mineração e petroquímica.
Tratam-se das chamadas seguradoras cativas — estruturas em que as próprias companhias criam suas seguradoras internas para contornar o mercado tradicional.
As cativas estão se tornando o modelo padrão para proteger a infraestrutura de IA, segundo Michael Serricchio, líder da divisão desse segmento para EUA e Canadá na Marsh, uma das maiores corretoras de seguros do mundo.
“O que veremos é um crescimento explosivo no uso de estruturas específicas para absorver a carteira de riscos dos data centers”, afirmou Serricchio. “De forma indireta, parte dos riscos de implantação, construção, garantias, danos patrimoniais e responsabilidade civil acabará dentro dessas estruturas.”
O movimento representa uma reconfiguração discreta, porém profunda, no ecossistema global de gestão de riscos.
Pioneiras no modelo há cinco décadas, as companhias de petróleo e gás usavam seguradoras cativas para cobrir desastres ambientais de difícil aceitação pelo mercado, como vazamentos de petróleo. Hoje, essas estruturas são desenhadas para cobrir desde catástrofes naturais até responsabilidade civil e acidentes de trabalho.
Para as corporações, parte do atrativo dessas estruturas está na possibilidade de reinvestir os prêmios pagos, em vez de tratar repasses a terceiros como fundo perdido.
Dados da agência de classificação de risco AM Best apontam que cerca de 150 cativas americanas avaliadas pela empresa geraram uma economia superior a US$ 8 bilhões nos últimos cinco anos. Já a corretora Cottingham & Butler define a capacidade de transformar o seguro de “um centro de custo em um potencial centro de lucro” como o segredo financeiro mais bem guardado do mundo corporativo.
Segundo a publicação especializada Captive Review, existem atualmente mais de 6.000 captivas no mundo, movimentando cerca de US$ 240 bilhões em prêmios — alta de quase 20% em comparação com dois anos atrás.
Joe Peiser, diretor executivo de capital de risco da corretora Aon, destaca que o avanço tem sido constante. “O grande motor é a gravidade dos sinistros. Quando os prêmios sobem, os clientes buscam formas de gerir perdas assumindo a camada primária do risco”, explica.
Na Marsh, que administra 1.900 estruturas cativas com um volume de US$ 79 bilhões em prêmios, apenas US$ 11,5 bilhões foram repassados para a contratação de resseguro contra grandes riscos.
