Economia

O Brasil não está sozinho: problemas fiscais abalam mercado de títulos na Europa

A classe política da Europa começa a dar os primeiros sinais de recuo diante de um implacável mercado de títulos públicos. Nas últimas semanas, as diretrizes orçamentárias e o discurso político de Londres, Paris e Roma deram passos tímidos rumo à prudência fiscal. Essa sinalização aumenta à medida que a disparada dos rendimentos (yields) e...

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A classe política da Europa começa a dar os primeiros sinais de recuo diante de um implacável mercado de títulos públicos. Nas últimas semanas, as diretrizes orçamentárias e o discurso político de Londres, Paris e Roma deram passos tímidos rumo à prudência fiscal.

Essa sinalização aumenta à medida que a disparada dos rendimentos (yields) e a escalada dos custos com juros trazem à tona memórias da crise da dívida da zona do euro no fim da primeira década dos anos 2000.

O orçamento da França, desenhado para enxugar seu déficit inflado, e os sinais de pragmatismo da pré-candidata de extrema-direita Marine Le Pen indicam uma virada contra a gastança.

Na mesma linha caminham a proposta do primeiro-ministro britânico Andy Burnham de encerrar o simbólico regime de “proteção tripla” (triple lock) das aposentadorias no Reino Unido e o recuo da Itália em seu endividamento para a área de defesa.

Recados do mercado

Tais concessões podem não ser suficientes para intimidar o lado mais agressivo do mercado, cujas operações especulativas quase quebraram o euro no passado. Também é cedo para afirmar se essas medidas representam uma virada estrutural no grupo de nações endividadas do G7 ou se são apenas gestos passageiros.

Contudo, a direção adotada mostra que o recado dos investidores — que levaram os rendimentos dos títulos às máximas em décadas — começou a surtir efeito.

A mudança é ainda mais marcante quando comparada a Washington, onde a classe política parece consideravelmente menos preocupada com a necessidade de deter o avanço acelerado da dívida pública.

“Acho que a gravidade dos problemas fiscais já está bem compreendida pelos formuladores de políticas na Europa, pelos agentes econômicos e, cada vez mais, também pela própria população”, avalia Federico Barriga-Salazar, chefe da equipe de risco soberano da Europa Ocidental na Fitch Ratings.

Nas últimas semanas, os preços dos títulos públicos despencaram nas economias avançadas, acompanhando a apreensão dos mercados financeiros com as pressões inflacionárias decorrentes da crise energética no Oriente Médio.

A França esteve no centro dos refletores: o prêmio de risco exigido pelos investidores para carregar os títulos franceses de 10 anos em relação aos papéis alemães atingiu o maior patamar desde 2011.

O spread da Itália também deu um salto — um efeito contágio que deixa claro como um déficit mais moderado do que o do vizinho do norte não apaga uma montanha de dívida que, em breve, será a maior da Europa.

No Reino Unido, as taxas dos títulos da dívida alcançaram os patamares mais altos em décadas. A precificação atual embute, segundo cálculos da Bloomberg Economics, um prêmio de risco de 30 pontos-base, reflexo direto dos erros de política econômica da ex-primeira-ministra Liz Truss.

Sinal amarelo

Essa turbulência acendeu o sinal de alerta nos corredores do poder europeu.

“O que estou enfatizando é a necessidade de prudência fiscal, especialmente diante dos desdobramentos recentes no mercado de títulos”, disse o comissário de Finanças da União Europeia, Valdis Dombrovskis, na quinta-feira, rejeitando propostas da Itália e da Grécia por maior flexibilidade orçamentária.

Ainda assim, os indícios sugerem que, mesmo sob a pressão de seduzir o eleitorado para os próximos testes nas urnas em economias de peso, os políticos estão prestando mais atenção às taxas de juros.

“Esperamos que os partidos de oposição, particularmente na França, Itália, Polônia e Espanha — onde haverá eleições este ano e no próximo —, se esforcem muito mais para tranquilizar os mercados quanto ao compromisso de manter os déficits sob controle”, projeta Carlo Capuano, vice-chefe de risco soberano e setor público da Scope Ratings.

Sob condição de anonimato dada a sensibilidade do tema, uma alta autoridade da zona do euro observou na semana passada que os mercados de títulos estão impondo disciplina.

Já em 24 de setembro, quando a disparada nas taxas dos títulos franceses ganhou força, Le Pen buscou afastar a imagem de pivô de instabilidade. Ela sinalizou na ocasião que pode desistir de tentar derrubar o governo por conta do orçamento de 2027.

“Uma crise no mercado de títulos pode estourar de um dia para o outro”, declarou Le Pen. “Estou pensando no interesse do meu país e do meu povo.”

O orçamento apresentado uma semana depois trouxe € 43 bilhões (US$ 48,3 bilhões) em medidas para reduzir o déficit para 5% do PIB no próximo ano (ante 5,4%) — um plano classificado pelo ministro das Finanças, Roland Lescure, como um “esforço significativo”.

As próprias propostas de Le Pen para cortar o déficit para até 3,7% até 2027, embora careçam de detalhes, representam uma concessão ostensiva à responsabilidade fiscal.

“É preciso reconhecer que a pressão dos mercados financeiros nos ajuda um pouco. Hoje, não ouço nenhum partido pedindo afrouxamento fiscal”, disse Lescure à associação de jornalistas AJEF em Paris nesta semana. “Tenho a impressão de que até Le Pen se converteu à disciplina fiscal.”

Enquanto isso, na Itália, o alargamento do spread na semana passada parece ter preocupado a primeira-ministra Giorgia Meloni a ponto de motivar um corte de última hora no endividamento voltado à defesa, somando até € 8 bilhões. Roma planeja agora destinar 0,6% do PIB para gastos militares ao longo de dois anos, ante os 0,9% previstos inicialmente.

Impactos no Reino Unido

Embora os desdobramentos fiscais do discurso de Burnham na conferência do partido em 29 de setembro ainda sejam incertos, sua promessa de reformar o sistema e evitar aumentos drásticos e sucessivos nas aposentadorias — após anos de hesitação política — carrega um forte peso simbólico. Ele prometeu “transmitir aos mercados e ao mundo uma mensagem de confiança e estabilidade”.

Vale destacar que o próprio Burnham já havia declarado que o Reino Unido deveria ser menos “refém” dos mercados de títulos, e vários políticos europeus compartilham de sentimento semelhante.

A mensagem de contenção de Le Pen veio acompanhada de um apelo desafiador ao Banco Central Europeu por socorro, enquanto seu rival de esquerda na corrida presidencial francesa, Jean-Luc Mélenchon, defende o cancelamento da dívida pública. A Bélgica, por sua vez, atolada em um endividamento elevado, ainda luta para selar um acordo orçamentário.

Diante disso, cabe aos presidentes dos bancos centrais assumir o papel de principais pregadores da prudência, tanto em público quanto em privado.

Na quinta-feira, o economista-chefe do BCE, Philip Lane, pontuou que “os governos precisam encarar a realidade de que o cenário de taxas de juros mudou”, enquanto o governador do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, alertou que a política fiscal deve “focar na estabilidade e demonstrar credibilidade perante os mercados”.

O exemplo mais emblemático para os governos, contudo, permanece sendo a humilhação sofrida pelo Reino Unido durante a “minicrise” na gestão de Liz Truss, que resultou na sua renúncia após apenas 44 dias no cargo, tornando-se a primeira-ministra com o mandato mais curto da história britânica.

Meloni assumiu o cargo na época daquele episódio e já havia atuado como ministra quando o governo de Silvio Berlusconi caiu em meio ao turbilhão dos mercados em 2011. Para Barriga-Salazar, da Fitch, o caso Truss funciona como uma parábola para os formuladores de políticas na Europa.

“É o que acontece quando um político diz: ‘bem, não nos importamos com o mercado’”, afirma o analista. “Acredito que essas lições foram aprendidas.”



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