Economia

J&F, Eneva e Alvorada: as brasileiras que apostam no petróleo da Venezuela

A Venezuela é um paradoxo estendido num colchão de petróleo. O país tem 300 bilhões de barris em reservas – 13% mais que a Arábia Saudita; quatro vezes mais que a Rússia; 17 vezes mais que o Brasil. As maiores do mundo. Mas a produção joga em outra liga. O auge deles está num passado...

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A Venezuela é um paradoxo estendido num colchão de petróleo. O país tem 300 bilhões de barris em reservas – 13% mais que a Arábia Saudita; quatro vezes mais que a Rússia; 17 vezes mais que o Brasil. As maiores do mundo.

Mas a produção joga em outra liga. O auge deles está num passado distante. Foi em 1997, quando o país tirava 3,4 milhões de barris por dia (bpd).

Com a ascensão do chavismo, a partir de 1999, os investimentos caíram, os equipamentos de extração envelheceram, e a produção hoje é 70% menor do que há três décadas – 1 milhão de bpd; bem atrás do Brasil mesmo, que tira 4,5 milhões de barris por dia.

Bomba de petróleo em campo aberto na venezuela
Bomba de petróleo da PDVSA, com as cores do país. Foto: Bloomberg

Com a deposição de Maduro, em janeiro deste ano, passou a ser natural que qualquer empresa de óleo e gás da Terra estude operar ali. Mais ainda as do Brasil, país vizinho que se tornou, nos últimos anos, o sexto maior exportador de petróleo do mundo.

Por enquanto, três empresas daqui estão de olho lá. Três bem diferentes. Uma é parte do conglomerado dos irmãos Batista, que dispensa apresentações – trata-se da Fluxus, o braço da J&F na exploração de petróleo.

Outra é a Eneva, maior produtora privada de gás natural do Brasil – e que estuda produzir o insumo por lá. Por último, a que chegou primeiro: uma junior oil brasileira formada justamente para produzir na Venezuela: a Alvorada.

Vamos começar por ela.

A operação da Alvorada

A Alvorada chegou lá quando “tudo era mato”. Mais precisamente, em 2024, antes da queda de Maduro. “Entendemos [na época] que poderia haver uma abertura similar à que aconteceu após a queda da União Soviética,” disse Paulo Buzanelli, fundador e CEO da Alvorada, à Bloomberg, em abril. “O que estamos vendo hoje é a realização dessa tese.”

A petroleira é a primeira empreitada de Buzanelli na área. Ele vem da Concordia, uma venture capital de Brasília – entre as investidas dela está a Acqua Casa, uma fabricante de louças e metais sanitários.

Na Venezuela, eles assumiram três blocos da PDVSA que estavam inativos. Investiram US$ 30 milhões na reativação. O contrato com a estatal venezuelana de petróleo é de “participação produtiva”. Eles extraem o óleo e pagam royalties para o Estado em barris – não divulgaram quanto, mas pela lei venezuelana, fica entre 20% e 30%.

São 844 poços ali – em terra, como quase todos da Venezuela –, e que ocupam uma área de 580 km² (um terço da cidade de São Paulo, para dar uma ideia). A produção é pequena pelos padrões da indústria: 4 mil barris por dia. Dá metade de um dos menores campos da Prio, o de Polvo.

Mas na indústria do petróleo as cifras sempre são superlativas. Com o barril a US$ 100, essa produção significa um bruto, antes de royalties, de US$ 146 milhões por ano – quase R$ 800 milhões.

Ajuda o fato de o óleo desses blocos ser majoritariamente leve – algo raro na Venezuela. O óleo “leve” é aquele mais parecido com gasolina do que com asfalto. É mais fácil de refinar. Logo, vale mais no mercado que o pesado. E a companhia pretende aumentar a produção para 22 mil barris por dia.

Bom, após a deposição de Maduro, em janeiro deste ano, a Alvorada ganhou um investidor de peso: a Galapagos Capital. Outro passo que eles deram desde o fim do regime foi a compra de uma pequena empresa americana de petróleo, a Calistoga.

É uma empresa de produção artesanal. Tira três barris por dia. Não “três mil”. Três mesmo. A ideia é usar o CNPJ texano para operar na Venezuela – já que o governo americano tem o virtual controle do país agora, e tende a dar preferência a empresas americanas.

Fluxus: o braço da J&F

O conglomerado dos irmãos Batista atua em mais áreas que o Tio Patinhas: frigorífico, mineração, celulose, banco, mídia, higiene pessoal, energia elétrica. E em 2023 entrou para o setor de óleo e gás, com a compra da Fluxus.

Trata-se de uma junior oil fundada por Ricardo Savini, ex-CEO da 3R Petroleum (que hoje é parte da Brava Energia). A Fluxus tem uma pequena operação de petróleo e gás natural na Argentina e, em julho deste ano, colocou suas brocas na Venezuela.

Ela comprou a A&B Oil and Gas, uma petroleira privada de lá. A A&B era sócia da PDVSA num projeto de extração – uma joint venture chamada Petrolera Roraima (não em “homenagem” ao Estado brasileiro, mas ao Monte Roraima, que é mais venezuelano – 85% dele fica na Venezuela).

Com a compra, a J&F ficou com 49% da Roraima. A PDVSA segue com 51%. A operação ali consiste em tirar óleo extrapesado (9° API, que só serve para fazer asfalto), misturar com petróleo leve, e obter um óleo mais fácil de vender (25° API, bom para gasolina e diesel).

Ela opera três blocos de extração. Somados, eles têm uma área de 1.825 km², um pouco maior que a cidade de São Paulo. A produção está em 30 mil barris por dia. E o objetivo ali é elevar a produção do campo para 120 mil bpd.

Trata-se de uma meta ambiciosa: isso é o equivalente ao campo de Itapu, na Bacia de Santos – o 9º mais produtivo entre os 21 do pré-sal.

A J&F, enfim, entrou de cabeça no petróleo Venezuelano. Na Eneva, que além de produzir gás é a maior operadora de termelétricas do país, a história é um pouco diferente.

A ideia ali não é tirar petróleo. É fornecer as “pás e picaretas” para que os outros tirem. No caso, produzir eletricidade a partir do gás venezuelano.

Eneva: foco na infraestrutura

Porque a Venezuela vai precisar de muita eletricidade se quiser aumentar a aumentar a produção. E a retomada prevê, para o médio prazo, uma volta ao auge histórico – os 3 milhões de bpd do final dos anos 1990.

“Não se aumenta a produção nesse nível sem energia elétrica”, disse Lino Cançado, CEO da Eneva, numa entrevista ao Valor em junho. “É um país que precisa de tudo o que a Eneva pode fazer. Seja no ‘upstream’ [extração de gás], seja no ‘downstream’ [transporte], seja na geração [de eletricidade].”

Vista aérea de uma usina termelétrica, com turbinas e chaminés industriais de grande porte, tanques de armazenamento e uma subestação elétrica ao lado
Complexo Parnaíba, da Eneva, no Maranhão: usina plugada nos poços de gás. Foto: divulgação

A intenção virou algo mais concreto agora, no dia 21 de setembro. A Eneva assinou um acordo com a americana Halliburton, fornecedora tradicional de serviços para a indústria de óleo e gás. Tão tradicional que está há 90 anos na Venezuela.

Não é um contrato propriamente dito. Trata-se de um memorando de entendimento, um documento em que duas partes registram a intenção de cooperar num projeto. A Halliburton, que divulgou o acordo, foi lacônica. Só disse que vai ajudar a Eneva a “identificar e buscar oportunidades na Venezuela”.

A Eneva é especialista num tipo específico de fornecimento de gás para termelétricas: o reservoir to wire. Significa plugar um poço de gás natural direto na usina. O combustível que sai vira energia ali mesmo, sem gasoduto.

Ao colocar no mesmo espaço a fonte do gás e a usina, a Eneva opera com custos baixos e previsíveis. Num país como a Venezuela, com muitos reservatórios, pouca infraestrutura e uma demanda por eletricidade que promete crescer, “identificar e buscar oportunidades” nessa linha é um no brainer. Não é improvável, afinal, que elas apareçam.



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