Philipp Schindler, diretor de negócios do Google, afirmou em teleconferência com analistas que as consultas feitas pelo chamado AI Mode (modo IA), uma nova opção de busca que oferece respostas em formato de conversa em vez de apenas uma lista de links, têm prejudicado a monetização por anúncios.
Segundo Schindler, essas consultas geram menos receita com publicidade. A empresa, porém, avalia ampliar a presença de anúncios nesse formato.
O reconhecimento reforça uma preocupação dos investidores: as respostas geradas por inteligência artificial podem reduzir o espaço da busca tradicional e, consequentemente, afetar uma das principais fontes de receita do Google.
Receita fica abaixo das projeções
A Alphabet registrou receita de US$ 127,6 bilhões no terceiro trimestre, alta de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas ligeiramente abaixo das estimativas dos analistas. Excluindo os repasses a parceiros, a receita somou US$ 111,2 bilhões, também abaixo das projeções.
A receita com buscas e outras formas de publicidade digital, que representa uma parcela importante do faturamento e ajuda a financiar os investimentos em IA, ficou aquém das expectativas. O crescimento anual da divisão de buscas desacelerou para 12%, com receita de US$ 63,4 bilhões, ante estimativa de US$ 64,9 bilhões.
A receita com anúncios no YouTube também decepcionou, ao alcançar US$ 11,2 bilhões. Já a receita da divisão Google Services, que reúne serviços como busca, YouTube e Gmail, ficou em US$ 96,3 bilhões, abaixo dos US$ 98,4 bilhões projetados pelo mercado.
O lucro líquido caiu 25%, para US$ 26,2 bilhões, enquanto o lucro operacional — que desconsidera perdas com investimentos — subiu 30%, para US$ 40,6 bilhões, mas também ficou abaixo das expectativas.
Parte da queda no lucro líquido foi provocada por perdas de US$ 8,7 bilhões em investimentos acionários, incluindo a participação da Alphabet na SpaceX, empresa de foguetes de Elon Musk. O lucro por ação foi de US$ 2,12, abaixo dos US$ 2,99 esperados pelos analistas.
Gastos com IA pressionam geração de caixa
A Alphabet registrou fluxo de caixa livre negativo pelo segundo trimestre consecutivo, algo incomum para a companhia desde sua abertura de capital, em 2004. Entre julho e setembro, o indicador chegou a menos US$ 9,1 bilhões, pressionado pelo aumento dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial.
As despesas de capital, que incluem a construção de centros de dados e a compra de equipamentos, somaram US$ 51,3 bilhões no trimestre, acima dos US$ 44,9 bilhões registrados nos três meses anteriores.
A diretora financeira da Alphabet, Anat Ashkenazi, reiterou que os investimentos podem chegar a US$ 205 bilhões em 2026, mais que o dobro do valor gasto no ano passado. Isso significa que as despesas de capital no quarto trimestre podem alcançar US$ 73,1 bilhões.
A empresa também informou ter compromissos futuros superiores a US$ 1 trilhão relacionados a recursos como capacidade computacional, energia, equipamentos e contratos de locação de centros de dados.
O volume de gastos aumenta a pressão sobre o presidente-executivo do Google, Sundar Pichai, para demonstrar que os investimentos em IA serão capazes de sustentar o crescimento da companhia e gerar receitas compatíveis com os custos.
Google Cloud é destaque positivo
O principal resultado positivo do balanço veio do Google Cloud, divisão de computação em nuvem que oferece infraestrutura e serviços de inteligência artificial para empresas. A receita do negócio dobrou em relação ao mesmo período do ano anterior, para US$ 30,7 bilhões, superando a estimativa de US$ 29,1 bilhões.
O lucro da divisão alcançou US$ 11,1 bilhões, acima dos US$ 9,8 bilhões projetados pelos analistas. O desempenho reflete a demanda por serviços de IA e pela capacidade computacional oferecida pela empresa, inclusive a clientes que também desenvolvem modelos concorrentes, como a startup Anthropic.
O resultado contrasta com o da Microsoft, que divulgou crescimento acima das expectativas em sua divisão de computação em nuvem Azure. As ações da concorrente tiveram queda mais moderada nesta quinta-feira, de cerca de 1,2%.
A diferença entre os resultados reforçou a atenção dos investidores à capacidade das grandes empresas de tecnologia de financiar a expansão da IA sem comprometer a geração de caixa.
A Alphabet vem reformulando produtos como o buscador, o YouTube e o Gmail para incorporar recursos de inteligência artificial. A empresa também lançou novos modelos da família Gemini, que, segundo Pichai, apresentam avanços em áreas como programação, finanças e segurança cibernética.
A companhia tenta, assim, ampliar a competitividade de seus produtos diante de rivais como OpenAI e Anthropic, enquanto enfrenta dúvidas sobre o impacto das respostas geradas por IA sobre seu negócio tradicional de publicidade.
