Uma parte do diesel brasileiro vem dos EUA. E as preocupações com a autossuficiência em refino se intensificaram nas últimas semanas, à medida que aumentavam as especulações de que Donald Trump poderia suspender as vendas de diesel americano para o exterior a fim de controlar a escalada dos preços no varejo no país.
Tal medida seria desastrosa para países como o Brasil, que se tornaram mais dependentes dos carregamentos dos EUA após o colapso de parte da produção do Golfo Pérsico em meio ao conflito com o Irã.
Mas o que seria uma simples decisão empresarial para muitas empresas petrolíferas internacionais não é tão direto para uma entidade como a Petrobras, que, em última instância, responde aos políticos que governam o país. A decisão depende, em grande parte, de quem conquistar o controle do Palácio do Planalto após as eleições.
Lula prometeu ampliar a capacidade de refino da Petrobras. Já Flávio Bolsonaro inclina-se para o investimento privado. O assessor de campanha de Flávio, Adriano Pires, criticou no passado a ideia de a Petrobras construir mais refinarias.
“Acho que tem partes da Petrobras que podem sim ser privatizadas ou então ter algum outro modelo de parceria público-privada, ou então de desestatização, redução de quantidade de ações que a União tem, mas isso é uma coisa que não dá para cravar agora”, disse Flávio em um evento em junho.
“Depois da guerra EUA e Irã, passamos a estudar as possibilidades, que provavelmente serão confirmadas no nosso plano de negócios 2027-2031, de atingir a autossuficiência na produção de diesel no Brasil,” disse a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, no mês passado. Ela tem reiterado esse ponto repetidamente para investidores, clientes e pares do setor.
A Petrobras não respondeu a um pedido de comentário.
Os EUA forneceram o equivalente a 80.400 barris de diesel por dia ao Brasil nos primeiros oito meses deste ano, um aumento de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Ao mesmo tempo, os fornecedores norte-americanos ampliaram sua participação no mercado brasileiro de diesel – de 26% para 33%.
A virada ocorreu à medida que os suprimentos da Rússia diminuíram, enquanto uma onda de ataques ucranianos danificou refinarias e reduziu as taxas de processamento de petróleo para os níveis mais baixos em vários anos.
Trump afirmou que estava considerando “muito seriamente” a implementação de uma proibição de exportações de diesel no início desta semana, mas na sexta-feira disse que nunca teve a intenção de realmente fazê-lo.
Essas declarações foram feitas poucas horas depois que o G7 concordou em participar de uma liberação de 100 milhões de barris de reservas emergenciais de petróleo e diesel para amenizar a crise global.
Apesar das ambições de refino da Petrobras, a previsão para 2035 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) aponta que o país continuará sendo um importador líquido de combustíveis, mesmo com as expansões planejadas das unidades Rnest e do Complexo Boaventura da empresa.
Há muito em jogo. Os compradores brasileiros já firmaram contratos para importar quase 170 mil barris de diesel por dia neste mês, de acordo com a Abicom, associação do setor de importadores. Dois terços devem vir dos EUA.
Por Mariana Durao, Dayanne Sousa e Redação InvestNews
