“Ele não merece nada além de elogios”, afirma Cathy Seifert, analista da CFRA. “Ele deixou a empresa em uma posição muito sólida para Greg Abel. Buffett e Abel têm habilidades bastante complementares.”
Mas há uma mancha em seu histórico neste ano: o desempenho inferior das ações da Berkshire. Os papéis do conglomerado estão praticamente estáveis em 2026, enquanto o S&P 500 acumula alta de 13%.
Quando Buffett deixou o cargo de CEO, após comandar a Berkshire por 60 anos, não estava claro quão ativo ele seria apenas como presidente do conselho. Após oito meses, porém, a resposta não surpreende. Ele continua muito envolvido, vai diariamente aos escritórios da empresa em Omaha e acompanha os mercados de perto.
Como presidente do conselho, pode se concentrar naquilo de que mais gosta: investimentos e alocação de capital. Abel, por sua vez, supervisiona as dezenas de divisões operacionais da Berkshire, incluindo a ferrovia BNSF e uma das maiores concessionárias de energia elétrica dos Estados Unidos.
Últimos retoques
Buffett já comparou a Berkshire a uma pintura. Suas atividades neste ano mostram que ele ainda quer dar os últimos retoques à sua Mona Lisa.
Buffett conduziu o investimento da Berkshire na Alphabet, iniciado no terceiro trimestre de 2025 e que chegou a US$ 35 bilhões, incluindo uma compra de US$ 10 bilhões em ações diretamente da dona do Google em junho. A Alphabet agora divide com a Coca-Cola o posto de terceiro maior investimento em ações da Berkshire, atrás apenas de Apple e American Express.
Buffett também participou do aumento do programa de recompra de ações da Berkshire, que incluiu quase US$ 8 bilhões em recompras entre 1º de abril e o fim de julho — um dos períodos mais ativos da história da companhia nesse quesito. No primeiro trimestre, haviam sido recomprados apenas cerca de US$ 200 milhões em ações. Buffett e Abel decidem sobre as recompras.
A Berkshire tem capacidade para recomprar US$ 50 bilhões ou mais em ações por ano — cerca de 5% de seu valor de mercado, de US$ 1,1 trilhão — dada a liquidez dos papéis. Será interessante observar se as recompras continuaram em ritmo mais acelerado durante todo o terceiro trimestre.
As ações da Berkshire, porém, estão estáveis no ano, com os papéis classe A negociados em torno de US$ 753 mil e os classe B a cerca de US$ 502.
É difícil dizer por que a ação está ficando para trás do S&P 500 — e também de muitas empresas dos setores de seguros, indústria, ferrovias e serviços públicos, todos segmentos em que a Berkshire atua.
Uma possibilidade é que os investidores estejam adotando uma postura de espera em relação a Abel. Também pode haver decepção porque o novo CEO não tomou medidas mais agressivas para reduzir a enorme posição de caixa da Berkshire, que somava US$ 365 bilhões ao fim do segundo trimestre.
A Berkshire continua sem pagar dividendos — algo que poderia ampliar a base de acionistas da companhia.
Grandes negócios também continuam escapando da empresa. A Berkshire comprou US$ 23 bilhões em ações no segundo trimestre, concluiu em julho a aquisição da construtora residencial Taylor Morrison por US$ 8,5 bilhões e investiu cerca de US$ 2 bilhões na seguradora japonesa Tokio Marine no início deste ano.
Buffett adoraria fechar o que chama de uma aquisição do tamanho de um “elefante”, provavelmente de US$ 100 bilhões ou mais. A empresa, porém, limita sua busca por grandes negócios ao manter uma postura rigorosa em relação aos preços em um mundo de investimentos inundado por liquidez e repleto de compradores menos criteriosos. A Berkshire também se recusa a participar de leilões corporativos — outro obstáculo para fechar uma grande aquisição.
Os investimentos do segundo trimestre e a compra da construtora ajudaram a reduzir o caixa da empresa. Mas a Berkshire ainda tem um longo caminho pela frente para diminuir seu estoque de dinheiro — especialmente porque o lucro operacional após impostos gira em torno de US$ 50 bilhões por ano, aumentando o caixa a cada trimestre.
A Berkshire, por exemplo, decidiu não avançar na compra da CSX, depois que a Union Pacific — principal concorrente da ferrovia BNSF, da Berkshire — fechou um acordo em julho de 2025 para adquirir a Norfolk Southern e criar uma ferrovia transcontinental, operação ainda sujeita à aprovação regulatória.
Buffett e Abel também decidiram não ampliar a equipe de investimentos da Berkshire depois que o gestor de longa data Todd Combs deixou a empresa para assumir um cargo no JPMorgan Chase, em dezembro. Isso provavelmente não ajudará a companhia a fazer mais investimentos, especialmente considerando a abordagem deliberada e orientada por valor da Berkshire para a compra de ações.
O gestor de investimentos da Berkshire, Ted Weschler, administra cerca de 6% da carteira de ações de mais de US$ 350 bilhões, enquanto Abel supervisiona o portfólio como um todo. Abel, porém, não parece ter feito nenhuma compra de ações em 2026 — embora tenha vendido cerca de US$ 15 bilhões em papéis, incluindo Visa e Amazon.com, que haviam sido adquiridos por Combs.
A Barron’s sugeriu que a Berkshire ampliasse sua equipe de investimentos e desse mais autoridade a Weschler. Mas a visão de Abel parece ser a de que a Berkshire não buscará gerar tanto valor por meio de investimentos em ações no futuro quanto fez durante a era Buffett. Wall Street estará atento para saber se Buffett apresentará outras ideias de compra de ações como a Alphabet.
Quando Buffett contratou Weschler e Combs, há cerca de 15 anos, imaginava que os dois — e talvez mais profissionais de investimentos — administrariam toda a carteira de investimentos quando ele deixasse o cargo de CEO. Mas, aparentemente, mudou de ideia.
A Berkshire pode ter chegado tarde à festa da Alphabet com suas compras mais recentes, realizadas depois que a ação havia dobrado de valor nos 16 meses anteriores. Provavelmente existem oportunidades mais baratas no mercado do que a dona do Google, e a compra mais recente de US$ 10 bilhões em ações da Alphabet pela Berkshire está levemente no prejuízo.
No mês passado, Buffett disse que pretende doar todas as suas ações da Berkshire — uma participação de 13%, avaliada em mais de US$ 140 bilhões — até 2034. Antes do anúncio, ele planejava doar as ações ao longo da década seguinte à sua morte. Buffett afirmou que, à medida que seus três filhos envelhecem — o mais velho tem 72 anos —, quer que eles próprios possam doar as ações nos próximos oito anos.
Mas uma coisa é clara: ele ainda ama investir em ações. Buffett fez sua primeira compra de ações ainda criança, em 1942, e cerca de 84 anos depois, pouca coisa mudou.
Feliz aniversário de 96 anos no domingo.
