Economia

União Europeia endurece regra para carne bovina e Brasil corre contra o tempo para manter exportações

O domínio do Brasil no mercado global de carne bovina está esbarrando em regras mais rígidas da União Europeia (UE). As novas exigências sobre o uso de medicamentos para promover o crescimento dos animais ameaçam as exportações brasileiras, enquanto os fornecedores enfrentam dificuldades para comprovar que conseguem atender aos novos padrões. Os exportadores precisam comprovar...

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O domínio do Brasil no mercado global de carne bovina está esbarrando em regras mais rígidas da União Europeia (UE). As novas exigências sobre o uso de medicamentos para promover o crescimento dos animais ameaçam as exportações brasileiras, enquanto os fornecedores enfrentam dificuldades para comprovar que conseguem atender aos novos padrões.

Os exportadores precisam comprovar até quinta-feira que conseguem fornecer carne de animais que não tenham recebido determinados antimicrobianos. Caso contrário, ficarão impedidos de vender para a União Europeia. O gado brasileiro, porém, não estará pronto para cumprir as novas exigências.

Segundo o Rabobank, banco holandês especializado no setor agrícola, cerca de um quarto da carne bovina importada pela UE vem do Brasil. As novas restrições podem alterar o comércio global da proteína, levando países europeus a buscar outros fornecedores, enquanto o Brasil terá de encontrar novos mercados para parte da produção.

A Comissão Europeia está trabalhando com o Brasil para retomar as importações “o mais rápido possível”, afirmou na terça-feira a porta-voz do órgão, Eva Hrncirova, durante uma coletiva de imprensa em Bruxelas.

“Exigimos garantias sobre todo o ciclo de vida dos animais. Isso é importante e, no caso da carne bovina, isso não ocorre neste momento”, disse.

Os impactos vão muito além do Brasil. O país é um dos principais fornecedores de carne do mundo e tem sido importante para atender à forte demanda internacional. Restringir o acesso a mercados de maior valor, como o europeu, pode reduzir os incentivos para que os pecuaristas aumentem a produtividade, limitando o crescimento da oferta de carne bovina.

A perda do mercado europeu também prejudica a credibilidade do Brasil como fornecedor global, justamente quando o país tenta ampliar sua presença em mercados como Japão e Coreia do Sul.

“O que está sendo colocado em xeque no Brasil é a credibilidade do sistema”, disse Maria Eduarda Blaiklock, ex-integrante do governo brasileiro que hoje dirige uma consultoria de comércio agrícola com sede na Europa. “Isso mostra falta de coordenação e corrói a confiança.”

As novas regras da UE entram em vigor em um momento delicado para os exportadores brasileiros, que tentam diversificar seus mercados enquanto também enfrentam restrições aos embarques para a China, maior compradora de carne bovina do mundo.

Os países da UE respondem por uma parcela pequena das exportações brasileiras, mas normalmente pagam um preço médio mais alto do que outros compradores. Com isso, o Brasil pode ter de redirecionar parte da produção para mercados que oferecem preços menores.

Autoridades europeias também iniciaram, no fim de agosto, uma auditoria em frigoríficos brasileiros de frango. As exportações de aves devem ser temporariamente interrompidas antes da conclusão do processo. No caso da carne bovina, porém, não há auditorias previstas nem novos desdobramentos que possam ajudar a evitar uma suspensão das vendas.

Em 2023, quando a UE notificou pela primeira vez o Brasil sobre as novas regras para antimicrobianos, as autoridades brasileiras decidiram que as exigências seriam tratadas por meio de um protocolo do setor privado, afirmou Blaiklock. Na época, ela trabalhava no Ministério da Agricultura e coordenava os assuntos internacionais da pasta.

Em maio, a UE deixou o Brasil fora da lista de países autorizados a fornecer produtos de origem animal ao bloco a partir de 3 de setembro.

O Brasil correu para criar novos protocolos, mas especialistas do setor afirmam que o país agiu tarde demais e não conseguiu coordenar adequadamente as ações entre governo e indústria.

“O Brasil foi o único — o único — que não estava na lista”, disse Blaiklock. “Por quê? Porque não conseguiu fornecer evidências confiáveis que demonstrassem o cumprimento da regulamentação.”

O Ministério da Agricultura não respondeu a um pedido de comentário.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou que as novas exigências da UE “não alteram a qualidade, a segurança ou o status sanitário da carne bovina brasileira”. Em nota divulgada na quarta-feira, a entidade disse ainda que restabelecer o fluxo comercial com o bloco é uma prioridade.

Desde então, o Brasil avançou na criação de um sistema voluntário para fornecedores que estejam de acordo com as novas regras. Ainda não está claro, porém, se a medida será suficiente para convencer as autoridades europeias.

Um dos principais desafios é que o gado brasileiro pode passar por várias propriedades diferentes antes de atingir o peso necessário para o abate.

Os pecuaristas brasileiros que vendem para o mercado europeu já precisam cumprir exigências específicas, como a identificação individual dos animais. Esse sistema, porém, se concentra nas etapas finais do desenvolvimento do gado antes do abate e não permite rastrear toda a trajetória do animal desde o nascimento.

A complexidade e a extensão da cadeia de produção fazem com que a carne bovina enfrente desafios maiores do que outras proteínas.

Embora alguns pecuaristas já estejam se adaptando às exigências europeias, a falta de uma resposta coordenada do Brasil “passa uma mensagem errada ao mercado internacional”, afirmou Mauricio Nogueira, diretor da consultoria Athenagro.

Os pecuaristas afirmam que os tipos de substâncias proibidos pela UE normalmente são utilizados apenas nas etapas finais do crescimento dos animais. A exigência europeia, no entanto, é de rastreabilidade durante todo o ciclo de vida do gado, o que cria desafios adicionais para o Brasil cumprir as novas regras.

Um programa nacional do Ministério da Agricultura prevê estabelecer a rastreabilidade individual dos bovinos até 2032.

“O Brasil quer ser o maior exportador do mundo, mas nem sequer sabemos quantas cabeças de gado temos”, disse Fernando Sampaio, ex-executivo do setor e integrante da Coalizão Brasileira sobre Clima, Florestas e Agricultura.

“O Brasil continuará exportando sua carne bovina, mas os clientes que poderiam pagar um preço mais alto tenderão a evitar os riscos.”



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