Uma negociação desde 2023
A possibilidade de uma volta da Petrobras a Mataripe ganhou corpo em 2023, já no início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Em novembro daquele ano, o então presidente da estatal, Jean Paul Prates, admitiu publicamente que a companhia avaliava recomprar uma fatia da refinaria e que negociava com o Mubadala.
Um mês depois, em dezembro de 2023, a Petrobras confirmou ao mercado ter recebido uma proposta do fundo para uma parceria envolvendo refino e biorrefino na Bahia. A estatal informou que avaliaria a aquisição de participação acionária na Refinaria de Mataripe e em um projeto de biorrefinaria.
Em março de 2024, as conversas avançaram para uma etapa mais concreta. A Petrobras informou que iniciaria a avaliação dos negócios, incluindo uma due diligence – processo de investigação financeira, jurídica, operacional e ambiental que antecede esse tipo de transação.
Em julho de 2024, chegou a circular a informação de que Petrobras e Mubadala estavam próximas de um acordo. Segundo fontes ouvidas pelo InvestNews à época, já havia entendimento sobre preço e prazos, e a expectativa era que o anúncio ocorresse em algumas semanas, com a transferência do ativo prevista para o primeiro trimestre de 2025.
O negócio, porém, não saiu do papel.
Em agosto de 2024, a própria Petrobras esclareceu que a due diligence estava em fase de conclusão, mas ressaltou que não havia feito qualquer oferta, não existia documento vinculante e nenhuma decisão havia sido tomada sobre a aquisição de participação na refinaria.
Naquele momento, a então presidente da Petrobras, Magda Chambriard, também afirmou que a recompra de Mataripe não era uma prioridade da companhia.
O valor da refinaria entra na conta
As tratativas voltaram a esquentar posteriormente, mas diferenças sobre o valor da refinaria passaram a pesar nas negociações. De um lado, está o valor pago pelo Mubadala em 2021: US$ 1,65 bilhão. De outro, a Acelen argumenta que os bilhões de reais investidos na unidade desde a privatização mudaram o valor do ativo.
A discussão voltou ao centro da agenda política em 2026. Em março, Lula declarou que a Petrobras recompraria a refinaria vendida ao Mubadala. Pouco depois, a estatal informou que analisaria a eventual aquisição. Em abril, a Reuters informou que Petrobras e Mubadala mantinham conversas iniciais e diretas sobre uma possível recompra.
As negociações, porém, não resultaram até agora em um acordo definitivo. Em 2026, o tema voltou à pauta depois de Lula afirmar que a Petrobras recompraria a refinaria.
A estatal informou que analisaria a eventual aquisição. Até agora, porém, nenhum acordo definitivo foi anunciado. É nesse contexto que Mendonça coloca em dúvida a possibilidade de uma transação iminente.
A disputa pelo petróleo
Paralelamente à discussão sobre a venda, Petrobras e Acelen travam outra disputa: o fornecimento de petróleo para a refinaria. Mesmo instalada em um dos maiores produtores mundiais de petróleo, Mataripe importa cerca de 40% do óleo que processa, principalmente da África, segundo Mendonça.
“É triste dizer isso, mas a segunda maior refinaria do Brasil tem que importar petróleo, porque o petróleo brasileiro vendido para nós não é tão competitivo assim”, afirmou o CEO da Acelen ao Correio, mesmo discurso de quando Mendonça falou com o InvestNews em fevereiro de 2025.
Para a companhia, o problema está nas condições de compra do petróleo nacional. A Acelen sustenta que a Petrobras vende óleo em condições menos competitivas para Mataripe, enquanto favoreceria suas próprias refinarias.
A Petrobras, por sua vez, afirma que não discrimina clientes e que existem outros fornecedores no mercado. O conflito está no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) desde 2022. Depois de idas e vindas, o órgão aprofundou a investigação sobre o tema, que ainda não chegou a uma conclusão.
A Acelen aderiu recentemente ao programa do governo da Bahia que concede uma subvenção de R$ 0,40 por litro de gasolina ao consumidor. Mendonça afirma, porém, que a adesão ao programa não mudou a política comercial da refinaria.
Segundo ele, a Acelen continua alinhando seus preços aos mercados internacionais, e a redução no preço ao consumidor ocorre por causa da subvenção. “Qualquer artificialismo pode colocar em risco o negócio e até o abastecimento do país”, afirmou.
Enquanto a discussão sobre uma eventual venda continua, a Acelen tenta mostrar que Mataripe não é mais a mesma refinaria que a Petrobras vendeu em 2021.
Segundo Mendonça, mais de R$ 4 bilhões já foram investidos na unidade desde que a Acelen assumiu o controle do ativo. Nesse período, a capacidade de processamento cresceu 4%, para 302 mil barris por dia, enquanto a companhia bateu 83 recordes de produção.
Biorrefinaria
Outra frente da estratégia é a entrada no mercado de biocombustíveis. A Acelen anunciou, em 2023, um plano de investir US$ 3 bilhões em uma biorrefinaria próxima a Mataripe, voltada à produção de combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel verde.
A matéria-prima central do projeto é a macaúba, uma palmeira nativa do Brasil que, segundo a empresa, pode produzir até dez vezes mais óleo que a soja, a um custo 70% menor.
Do total previsto, cerca de US$ 2 bilhões estão destinados ao desenvolvimento agrícola da cadeia produtiva, incluindo um centro de tecnologia em Montes Claros (MG), em parceria com a Embrapa.
O projeto foi estruturado em uma empresa separada, a Acelen Renováveis, que terá capacidade para produzir 20 mil barris por dia de combustível verde, com foco principalmente em mercados que já possuem regulamentação para SAF, como Estados Unidos e União Europeia.
