O valor está próximo do montante previsto para 2027 no novo orçamento apresentado pelas autoridades na semana passada.
É o sinal mais recente de que Putin está preparado para uma escalada prolongada da guerra contra a Ucrânia. Moscou já intensificou os ataques com mísseis e drones mais rápidos e difíceis de interceptar, atingindo instalações de energia, sistemas de transporte, hospitais e outras estruturas civis. Putin também alertou para o que classificou como retórica belicosa de governos europeus, à medida que cresce na região a preocupação com as intenções da Rússia e o risco de um confronto.
A trajetória atual do orçamento representa uma forte reversão em relação a um ano atrás, quando a Rússia planejava reduzir o ritmo de crescimento dos gastos militares enquanto buscava diminuir o déficit fiscal e recompor as reservas consumidas durante a guerra.
Antes da aprovação do orçamento de 2026, Putin se reuniu com o presidente dos EUA, Donald Trump, em Anchorage, no Alasca. Após o encontro, em agosto de 2025, o líder russo esperava que um acordo de paz com a Ucrânia pudesse ser alcançado no ano seguinte, o que reduziria a necessidade de um aumento expressivo dos gastos militares, segundo uma das fontes.
Até janeiro, porém, o Kremlin concluiu que um acordo com a Ucrânia estava fora de alcance e que os esforços liderados pelos EUA não haviam produzido avanços, disse a fonte. O governo então passou a antecipar pagamentos à indústria de defesa e a ampliar outros gastos relacionados à guerra desde o início do ano.
Com isso, a projeção de déficit fiscal para 2026 subiu para mais de 7 trilhões de rublos, ante os 3,8 trilhões de rublos previstos originalmente. O governo financiou os gastos adicionais por meio de um aumento do endividamento doméstico e da venda de ouro.
O Ministério das Finanças não respondeu a um pedido de comentário.
A Rússia intensificou sua ofensiva na Ucrânia desde o verão. Nas últimas semanas, as forças russas atingiram repetidamente alvos civis, inclusive em Kiev, enquanto também tentaram atacar pontes da capital com drones.
Ao mesmo tempo, ataques contra embarcações próximas aos portos do Mar Negro se tornaram quase diários, enquanto a Ucrânia também intensificou seus próprios ataques.
Os gastos militares previstos para 2027 somam 17,1 trilhões de rublos. O valor deve recuar apenas ligeiramente, para 16,6 trilhões de rublos em 2028 e 16,3 trilhões de rublos em 2029, segundo o plano orçamentário.
O que diz a Bloomberg Economics
“O governo finalmente está fazendo um orçamento para uma guerra prolongada na Ucrânia — mas ainda subestima seu custo. Manter os gastos nominais com defesa estáveis parece difícil à medida que a guerra de desgaste se prolonga e os custos da produção militar aumentam.
Por isso, esperamos que os gastos com a guerra voltem a superar o previsto no próximo ano, embora por uma margem menor do que o desvio excepcional registrado neste ano. Isso manteria o déficit fiscal próximo de 3% do PIB — em linha, de modo geral, com 2026 — em vez da meta de 2% estabelecida pelo Ministério das Finanças.”
— Ekaterina Vlasova, economista para Europa Central e Oriental (CEE) e Rússia.
Ainda assim, os gastos efetivos no próximo ano também podem superar essas metas, à medida que Moscou passou a duvidar da capacidade do governo Trump de intermediar um acordo com a Ucrânia em termos aceitáveis para a Rússia, segundo as fontes.
As tensões entre a Europa e a Rússia também ficaram evidentes na semana passada, quando Putin acusou autoridades europeias de se prepararem para um possível conflito ainda nesta década. Ele citou exercícios militares no Mar Báltico e declarações sobre o enclave russo de Kaliningrado.
Putin afirmou que a Rússia não tem planos de atacar a Europa, mas advertiu que qualquer ataque direto ao território russo obrigaria Moscou a considerar o uso de todo o arsenal à sua disposição.
“Sabemos que estaríamos diante de um adversário com o dobro da nossa população, além de grande potencial econômico e militar”, disse Putin. “Não temos tantas forças e recursos para enfrentar essa ameaça. Mas ninguém dispõe hoje dos meios de destruição que a Rússia possui. E essas são nossas vantagens competitivas.”
