A genialidade de Tim Cook foi pegar a empresa construída por Jobs e levá-la a uma escala gigantesca. No ano em que Cook assumiu o comando, a Apple vendeu 72 milhões de iPhones. Neste ano, serão 255 milhões, segundo estimativa da Counterpoint Research.
Triplicar os volumes, cumprir os lançamentos anuais como um relógio, minimizar investimentos de capital arriscados e devolver mais de US$ 1 trilhão aos acionistas por meio de dividendos e recompras de ações ajudaram Cook a multiplicar por 13 o valor de mercado da Apple durante seu mandato.
E não é como se a Apple tivesse parado completamente de inovar. A empresa vende mais relógios por ano do que a Suíça. Os AirPods já movimentam em vendas o equivalente à Major League Baseball. Soma-se a isso o enorme e altamente lucrativo negócio de serviços, que Cook expandiu e que inclui vendas de aplicativos e dezenas de bilhões de dólares em taxas pagas pelo Google.
Mas, no jargão de Wall Street, os aspectos positivos já parecem estar refletidos no preço da ação. Os papéis da Apple são negociados a 33 vezes o lucro esperado para o próximo ano, em comparação com um múltiplo de 20 vezes para o conjunto das empresas do S&P 500. A Apple recebe esse prêmio mesmo com seu lucro crescendo à metade da velocidade do mercado.
Os investidores estão pagando mais pela Apple porque ela parece relativamente segura em um momento de ampla preocupação com os retornos que podem ser obtidos sobre os enormes investimentos em inteligência artificial, argumenta o analista Craig Moffett, da Moffett Nathanson. “Mas, quando a avaliação fica esticada, a segurança deixa de ser segura”, disse Moffett.
E há aspectos negativos que os investidores podem estar deixando de lado. Na era da inteligência artificial, a Apple perdeu o status de empresa que define a maneira como os consumidores interagem com seus dispositivos — um título que manteve por 40 anos, do Apple II ao iPhone. Isso a deixa vulnerável a uma nova geração de dispositivos desenvolvidos especificamente para IA, nos quais empresas como OpenAI e SpaceX estão trabalhando, por exemplo.
O boom da inteligência artificial também trouxe outro problema para a Apple. De repente, a empresa deixou de ser a compradora dominante de componentes essenciais para fabricar seus dispositivos.
As empresas de tecnologia que operam grandes infraestruturas de IA, conhecidas como hyperscalers, estão destinando somas gigantescas aos fabricantes de chips e consumindo a capacidade de produção de que a Apple precisa, principalmente de chips de memória e armazenamento, além de chips lógicos. Isso não apenas está elevando os custos da Apple, que ela está repassando aos consumidores, como também está provocando escassez, à medida que a empresa não consegue atender à demanda dos consumidores.
O outro grande problema da cadeia de suprimentos que paira sobre Ternus é a dependência contínua da Apple em relação à China. Cook conseguiu, em grande parte, evitar as tarifas do presidente Trump graças à sua habilidade política, e o atual CEO de longa data da Apple continuará cuidando de relações políticas importantes em seu cargo de presidente executivo do conselho. Mas o problema fundamental permanece: a grande maioria da cadeia de suprimentos da Apple está em um país envolvido em uma guerra comercial de longo prazo com os Estados Unidos.
Enquanto isso, um determinado juiz da Califórnia parece ter desacelerado a máquina de serviços da Apple com decisões que reduzem as pesadas taxas que a empresa há muito cobra sobre compras dentro de aplicativos. Desenvolvedores de aplicativos que repassam à Apple até 30% de sua receita móvel agora podem evitar esses pagamentos ao cobrar diretamente por meio de seus próprios sites. A Appfigures estima que a receita de comissões da Apple com a App Store nos Estados Unidos caiu 6% no trimestre encerrado em junho.
Mas, quando Ternus subir ao palco pela primeira vez como CEO da Apple, em 9 de setembro, ele poderá estar confiante de que os dispositivos da Apple estão mais populares do que nunca. O que faltou ao iPhone 17 Pro em recursos de inteligência artificial foi compensado por uma câmera melhor, bateria mais potente e, por mais bobo que possa parecer, sua cor laranja chamativa. Os consumidores compraram os aparelhos em volumes recordes.
O Mac também vive um renascimento na era da inteligência artificial. Afinal, os chips desenvolvidos pela própria Apple que equipam os computadores são excelentes para executar grandes modelos de linguagem em um desktop. A Apple não consegue fabricar Macs em quantidade suficiente, levando a uma escassez.
E, pela primeira vez em algum tempo, a Apple terá mais uma novidade na manga para encerrar o primeiro evento de lançamento de iPhone de Ternus: um iPhone dobrável. Ele não será o primeiro celular dobrável, mas analistas esperam que a Apple domine a categoria, capturando 40% de todos os aparelhos dobráveis até o fim de 2027, segundo estimativa da empresa de pesquisa IDC.
A Apple está em uma posição favorável para ampliar sua enorme base de alguns dos usuários mais lucrativos do mundo, muitos dos quais estão prontos para finalmente experimentar um assistente de inteligência artificial mais poderoso. A empresa anunciou uma atualização de software para a Siri, que há muito tempo é considerada pouco inteligente, e afirmou que ela permitirá concluir mais tarefas.
Testes iniciais do Wall Street Journal com a versão beta da Siri com IA mostram que ela pode levar mais tempo do que os concorrentes para concluir solicitações. Mas, com a ajuda do Google nos bastidores, a Apple melhorou drasticamente a Siri, transformando a assistente em um chatbot moderno.
Se Ternus conseguir tornar a Siri mais rápida, se conseguir convencer os desenvolvedores de aplicativos de que precisam abrir seus serviços para a assistente de IA, permitindo que os usuários do iPhone os acessem por meio de comandos simples em vez de entrar e sair de aplicativos, isso poderá preparar o terreno para que a Apple, uma retardatária em IA em muitos aspectos, se torne a empresa que leva as promessas dessa tecnologia revolucionária ao maior número de consumidores.
Escreva para Rolfe Winkler em Rolfe.Winkler@wsj.com.
Traduzido do inglês por InvestNews
