A união entre dois dos novos participantes desse mercado, porém, também representa um movimento de concentração que precisará ser analisado pelas autoridades concorrenciais.
O iFood Benefícios atende atualmente 65 mil empresas e 1,7 milhão de trabalhadores. A Caju tem mais de 70 mil empresas clientes e 1,3 milhão de usuários. Somadas, as operações reúnem aproximadamente 135 mil empresas e 3 milhões de trabalhadores, sem considerar eventuais sobreposições entre as bases.
A compra é a maior já anunciada pela divisão de benefícios do iFood, criada em 2020. A transação foi comunicada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e também depende de aprovação do Banco Central. Até a conclusão do processo regulatório, as empresas continuarão operando de forma independente.
A aquisição ocorre após um período de crescimento do iFood Benefícios. Em entrevista ao InvestNews no fim de setembro, Arthur Freitas, CEO da operação, afirmou que a companhia havia registrado expansão de 80% no ano passado e movimentava cerca de R$ 15 bilhões em transações anualizadas.
O executivo também afirmou que a empresa pretendia disputar a liderança do setor nos próximos anos.
“Nós somos a empresa que mais cresce nesses últimos três anos e estamos muito próximos de virar líderes nos próximos anos”, disse Freitas.
A disputa com as operadoras tradicionais
O mercado brasileiro de vale-refeição e alimentação foi dominado por décadas por empresas que construíram grandes redes de estabelecimentos credenciados e relacionamentos comerciais de longa duração com empregadores.
A entrada de companhias de tecnologia nos últimos anos aumentou a concorrência, principalmente com cartões de bandeira aberta e plataformas que oferecem diferentes modalidades de benefícios em um único produto.
O iFood Benefícios e a Caju surgiram nesse contexto, em 2020. Enquanto o primeiro buscou aproveitar sua presença no mercado de alimentação e delivery, a segunda desenvolveu uma plataforma voltada à gestão de benefícios, despesas corporativas e recursos humanos.
Freitas reconhece as dificuldades que o iFood teve de entrar em um setor já consolidado.
“Nós começamos nossa operação com um QR Code, simplesmente um código em vez de um cartão, porque achávamos que isso era inovação. Fizemos isso dentro de casa, só para nossos colaboradores, e deu muito errado”, contou.
Segundo o executivo, a empresa reformulou o produto e passou a concentrar seus esforços em problemas como a aceitação dos cartões, as dificuldades de administração dos benefícios pelas empresas e as taxas cobradas dos estabelecimentos.
A aquisição da Caju acrescenta ao negócio do iFood uma carteira de clientes corporativos e ferramentas que vão além da alimentação. A startup também oferece soluções de gestão de despesas e de pessoas, áreas nas quais o grupo poderá ampliar sua atuação caso a operação seja aprovada.
Para a Caju, a transação representa a integração a uma empresa que possui uma rede de restaurantes e supermercados vinculados à sua plataforma de delivery.
O iFood Benefícios informa que seu cartão é aceito em mais de 11 milhões de estabelecimentos físicos, enquanto a Caju declara aceitação em mais de 12 milhões. Esses números não podem ser somados diretamente, já que há sobreposição entre as redes.
Em comunicado, Eduardo Del Giglio, CEO e cofundador da Caju, afirmou que a união permitirá ampliar os investimentos em tecnologia e no desenvolvimento de produtos.
“Juntar forças com o iFood Benefícios é a chance de acelerar o que já fazemos, abrindo espaço para a inovação com mais investimento em experiência e produto”, disse em comunicado.
Regulação muda a dinâmica do setor
A compra ocorre em um momento de mudanças no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), que reúne cerca de 470 mil empresas e beneficia mais de 22 milhões de trabalhadores no país.
As novas regras incluem um limite de 3,6% para as taxas cobradas dos estabelecimentos comerciais e medidas de abertura dos arranjos de pagamento. O objetivo é reduzir barreiras à concorrência e facilitar a aceitação dos cartões de alimentação e refeição.
As alterações afetam a estrutura de um mercado historicamente marcado por redes credenciadas e contratos de longo prazo. Também intensificam a disputa entre operadoras tradicionais e empresas que chegaram mais recentemente ao setor.
Para Freitas, a mudança regulatória é apenas uma parte da transformação do mercado. A outra vem das próprias empresas e dos trabalhadores, que passaram a exigir serviços mais flexíveis e plataformas mais simples de administrar.
“O setor de benefícios está passando por uma transformação que tem duas avenidas. Uma é a regulatória, porque entendemos que esse mercado precisa ser mais competitivo. A outra vem das próprias empresas e dos colaboradores, que querem cada vez mais flexibilidade, plataformas tecnológicas e um vale que dure mais”, afirmou ao InvestNews.
Na avaliação do executivo, a concorrência tende a depender mais da qualidade dos serviços e menos dos incentivos comerciais oferecidos às empresas na contratação dos benefícios.
Uma das apostas do iFood é aproveitar sua relação com os restaurantes para oferecer descontos aos trabalhadores que utilizam seu cartão. A companhia combina vantagens do Clube iFood com ofertas em estabelecimentos físicos credenciados.
Segundo Freitas, em testes realizados com grupos específicos de usuários, os descontos aumentaram o período de duração dos saldos dos benefícios.
“Quando somamos esses dois programas, vemos que a média do vale das pessoas, que dura de seis a dez dias, passa a durar 20 dias”, afirmou. A iniciativa ainda estava limitada a determinadas regiões e grupos de trabalhadores.
Para o iFood, os descontos também funcionam como instrumento de diferenciação em um mercado no qual os cartões atendem a uma necessidade semelhante. A compra da Caju acrescenta a esse modelo serviços voltados às empresas que contratam e administram os benefícios.
A integração, porém, não será imediata. Além das aprovações regulatórias, as companhias terão de definir como reunir suas plataformas, produtos e carteiras de clientes.
Do ponto de vista concorrencial, o negócio coloca uma questão adicional. As duas empresas ganharam espaço apresentando-se como alternativas às operadoras tradicionais, em um setor que busca reduzir barreiras à entrada de novos participantes.
Agora, a união entre elas será analisada pelo Cade, que deverá avaliar seus possíveis efeitos sobre a competição.
