Houve uma série de eventos, como os choques de crédito diante da onda de recuperações judiciais e extrajudiciais de companhias, do prolongado período de juros altos e da inadimplência historicamente elevada entre as pessoas jurídicas.
A situação se mostra mais complicada em duas das principais categorias das quais fazem parte os fundos de debêntures incentivadas. As chamadas “Duração Média Crédito Livre” e “Duração Livre Crédito Livre” ainda apresentam retornos de um dígito – respectivamente, 85% e 80% do CDI no acumulado do ano.
Os dois tipos ainda amargam retiradas líquidas no mês, ou seja, quando os saques ultrapassam as aplicações. A Duração Média registra uma saída líquida de R$ 132 milhões, enquanto a Duração Livre de R$ 5,8 bilhões.
Prêmios em alta ampliam perdas
Os retornos recuaram, basicamente, por conta da subida dos spreads. O mercado usa esse termo para indicar o prêmio (a diferença) que os títulos emitidos por empresas pagam a mais comparados aos títulos públicos.
Por exemplo, com o Tesouro IPCA+ 2040 pagando inflação mais 7,2% ao ano, o natural é que o um papel privado de duração semelhante pague algo como IPCA+7,7% – um spread de 0,5 ponto percentual, portanto, dado o risco considerado mais alto.
Exemplo real: uma alta de “apenas” 0,53 ponto percentual no spread representa quase 4% de queda no valor em reais da debênture. Ou seja, quando esse prêmio sobre os títulos públicos sobe, o valor do papel diminui.
Spreads na máxima em três anos
E por que falamos em 0,53 ponto? Porque foi o que ocorreu entre setembro e a metade de outubro. O índice Idex-Infra, que acompanha a evolução de preços, rentabilidade e prêmios de risco de debêntures isentas, mostrou uma subida desse patamar nos spreads.
O spread médio alcança atualmente 0,93 ponto percentual a mais em relação às taxas de títulos públicos de prazos semelhantes, segundo o Idex-Infra. Isso desconsiderando os “outliers”, ou seja, os 2,5% de papéis com os menores spreads e os 2,5% com os maiores.
Se forem considerados todos os papéis, o spread médio sobe para mais de um ponto: mais precisamente 1,08 ponto percentual.
Os prêmios das debêntures isentas estão no maior nível desde dezembro de 2023. A diferenca subiu 0,15 ponto apenas nas duas primeiras semanas de outubro.
Vantagem dos títulos públicos
Os títulos públicos atrelados à inflação apresentam um retorno que é mais que o dobro comparado à média das debêntures incentivadas, isentas de IR sobre os ganhos.
É possível verificar essa diferença ao comparamos dois indicadores calculados pela Anbima.
Há um índice que mede a variação dos retornos de uma carteira de debêntures incentivadas (ele se chama IDA-IPCA Infraestrutura).
E há outro que acompanha uma carteira de títulos Tesouro IPCA+, conhecidos como NTN-B no mercado, com vencimentos variados – esse índice é chamado de IMA-B.
O IDA-IPCA acumula um ganho de 6,54% em 2026 até 19 de outubro. Já o IMA-B traz uma alta de 14,40% no mesmo período.
Comparados ao CDI, que rendeu 11,1% entre janeiro e meados de outubro, os títulos públicos apresentaram boa vantagem e rendem 130% do CDI.
Já as debêntures incentivadas vivem um momento complicado, com um retorno médio equivalente a apenas 59% do CDI no acumulado de 2026.
Fundos na berlinda
Esse resultado traz impactos, sobretudo, aos fundos de crédito privado, a principal porta de entrada dessa classe de ativos para os investidores do varejo.
No geral, os fundos de crédito privado registram uma entrada líquida de R$ 16 bilhões em outubro até dia 14. O resultado reverte o quadro de saídas líquidas de setembro, quando as categorias viram evaporar R$ 16,5 bilhões das carteiras.
Os retornos abaixo do CDI refletem, principalmente, esses resgates vistos até setembro. Nos fundos abertos, a mecânica se retroalimenta: o desempenho ruim gera mais retiradas, que forçam vendas, e isso, por sua vez, pressiona os preços e alimenta novas saídas.
Vários fundos de títulos isentos apresentam retornos bem abaixo do CDI no acumulado de 2026:
