Economia

Em Jackson Hole, presidente do Fed enfrenta novo teste — desta vez, de comunicação

Kevin Warsh fará seu primeiro grande discurso como presidente do Federal Reserve nesta sexta-feira (28), e o evento se tornou um teste inesperado para seu estilo de comunicação mais enxuto. O desafio de Warsh é rebater as críticas de que não tem sido claro sobre suas opiniões a respeito da economia, sem abrir mão de...

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Kevin Warsh fará seu primeiro grande discurso como presidente do Federal Reserve nesta sexta-feira (28), e o evento se tornou um teste inesperado para seu estilo de comunicação mais enxuto.

O desafio de Warsh é rebater as críticas de que não tem sido claro sobre suas opiniões a respeito da economia, sem abrir mão de sua determinação de não entregar aos investidores, de bandeja, pistas sobre futuras decisões de política monetária.

O encontro anual do Federal Reserve em Jackson Hole, região montanhosa do estado americano de Wyoming, será a oportunidade de Warsh, que discursará na sexta-feira, para encontrar esse equilíbrio. O evento é um dos principais do calendário dos bancos centrais.

A pressão de Wall Street é intensa depois que uma coletiva de imprensa vacilante no mês passado provocou uma forte reação no mercado de títulos. Desde então, economistas e analistas têm criticado insistentemente Warsh por, na visão deles, ter ido longe demais na tentativa de limitar a comunicação do Fed.

A tarefa de Warsh ficou ainda mais complicada na semana passada, quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou de surpresa uma recompra de títulos da dívida americana em uma tentativa de reduzir os juros de longo prazo.

“Claramente, Warsh quer falar menos, não mais”, disse Anwiti Bahuguna, co-diretora de investimentos da Northern Trust Asset Management. “Mas alguma transparência e alguma comunicação sobre por que você está onde está, o que vê hoje, é uma pergunta razoável que os mercados podem fazer.”

Isso não significa que o novo presidente do Fed provavelmente vá pedir desculpas. Os defensores de Warsh dizem que a reação do mercado à sua coletiva de imprensa de julho foi exagerada. As expectativas de inflação — que deveriam subir se a confiança no Fed diminuísse — se moveram apenas modestamente e continuam ancoradas em um nível compatível com a meta de inflação de 2% do banco central. Os rendimentos dos títulos, segundo eles, são impulsionados, entre outros fatores, pelo aumento dos empréstimos do governo e das empresas.

Randall Kroszner, professor de economia da Universidade de Chicago e diretor do Fed entre 2006 e 2009, argumentou que Warsh está apenas no início de uma reformulação da comunicação do banco central, cujo objetivo é reduzir as indicações explícitas sobre o rumo da política monetária.

“Os mercados às vezes podem interpretar as coisas de forma errada. Eu estava no Fed quando os mercados erraram muitas vezes”, disse Kroszner. “Sempre haverá uma espécie de período de adaptação quando há uma nova abordagem.”

Colegas de Warsh no Fed, incluindo Mary Daly, presidente do Federal Reserve de San Francisco, e Alberto Musalem, presidente do Federal Reserve de St. Louis, também rebateram as acusações de que a credibilidade do banco central tenha sido prejudicada.

“Não vejo nossa credibilidade em risco”, disse Daly em entrevista à Bloomberg Television.

A presidente do Federal Reserve de Boston, Susan Collins, afirmou na terça-feira que apoia a manutenção dos juros no nível atual por enquanto, mas condicionou essa posição à necessidade de observar mais avanços na redução da inflação em direção à meta de 2% do banco central.

Vacilo na coletiva de imprensa

Não precisava ter sido tão controverso.

Depois de assumir o cargo em maio, Warsh ganhou elogios por reforçar a mensagem de que, sob sua liderança, o Fed devolveria a inflação à meta de 2%. Em depoimento a parlamentares em julho, ele disse que o banco central não toleraria a inflação.

Isso ajudou a aliviar os temores de que Warsh, nomeado pelo presidente Donald Trump, resistiria a elevar os juros caso as condições exigissem. Trump havia atacado duramente o antecessor de Warsh e prometido nomear um presidente que reduzisse as taxas.

Seu primeiro grande tropeço ocorreu logo após a reunião de política monetária do Fed em julho, quando os dirigentes decidiram manter a taxa básica dos Fed Funds inalterada. Embora três autoridades tenham votado contra a decisão, a manutenção dos juros era esperada e já estava precificada nos mercados de títulos. Foi a coletiva de imprensa de Warsh após a reunião que provocou uma forte reação de investidores e economistas.

Analistas que acompanham o Fed apontam três aspectos fundamentais da coletiva. O primeiro foi a ausência de uma explicação sobre por que a política monetária foi mantida inalterada.

O segundo foi a relutância de Warsh em apresentar altas de juros como uma ferramenta de política monetária evidente que ainda poderia ser necessária. O terceiro foi um comentário aparentemente casual sobre a meta de inflação de 2% do Fed, que levou alguns investidores a acreditar que ela poderia ser alterada em janeiro.

O resultado foi a pior liquidação do mercado de títulos em anos e uma enxurrada de críticas ao estilo de comunicação de Warsh. O rendimento dos Treasuries de 30 anos subiu ao maior nível desde 2007 depois de seu discurso.

“Warsh não conseguiu, ou não quis, sequer explicar a decisão de política monetária de julho, mesmo quando perguntado diretamente. Isso é desconcertante”, disse Robert Tetlow, ex-assessor sênior de política monetária do Fed. “Teria sido fácil fazer isso sem entrar em uma orientação sobre o futuro.”

A liquidação continuou nas últimas semanas. É verdade que o movimento não se deve inteiramente ao Fed. Os investidores estão cada vez mais preocupados com o aumento da dívida americana e, à medida que Washington toma mais empréstimos, concorre por recursos com empresas de tecnologia que estão despejando dinheiro em inteligência artificial.

Além disso, o aumento dos rendimentos dos títulos soberanos na Europa e no Japão mostra que as preocupações dos investidores vão além da inflação nos Estados Unidos.

“Há uma confluência de fatores neste momento que, de uma forma ou de outra, contribuem para rendimentos de longo prazo mais altos”, disse Adam Schickling, economista sênior do Vanguard Group.

O plano de Bessent de recomprar títulos de prazo mais longo para tentar conter os rendimentos é outra possível complicação para o Fed, especialmente se as compras previstas forem financiadas por vendas maiores de títulos de prazo mais curto. Isso faria com que o Tesouro avançasse sobre uma área da curva de juros que tradicionalmente é dominada pelo Fed.

Em um possível alívio para Warsh, os dados divulgados desde a decisão de política monetária de julho apontaram, de modo geral, para uma desaceleração da atividade econômica, o que pode reduzir a pressão sobre o Fed para elevar os juros. As vendas no varejo caíram em julho no ritmo mais forte em mais de um ano, enquanto a inflação subjacente ficou contida. Ao mesmo tempo, os empregadores cortaram postos de trabalho de forma inesperada em julho, e os números de contratações dos dois meses anteriores foram revisados para baixo.

Ainda assim, muitos concordam que Warsh precisará responder aos críticos.

O presidente do Fed terá de encontrar um equilíbrio entre seu desejo de reduzir as sinalizações sobre os próximos passos da política monetária e a necessidade de manter a transparência, disse Ellen Meade, professora de economia da Universidade Duke que assessorou autoridades do Fed durante décadas de carreira no conselho do banco central.

“Warsh não está fazendo muitos favores a si mesmo”, disse ela. “Ele se colocou em uma situação difícil.”



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