A cena resume o momento vivido pela indústria. Não basta colocar mais proteína, fibras ou vitaminas em uma receita. É preciso preservar sabor, textura, praticidade, preço e, claro, a disposição do consumidor de comprar o produto novamente.
Durante décadas, essas empresas ajudaram a indústria a tornar os alimentos mais saborosos. Agora, precisam fazê-los também mais funcionais.
E isso virou um negócio ainda maior e que tem garantido o apetite de investidores no setor, enquanto os grandes conglomerados de fabricantes de alimentos industrializados patinam.
Os papéis da IFF, por exemplo, avançam 30% na Bolsa de Nova York em um ano. Na outra ponta, as ações da General Mills, dona dos sorvetes Häagen-Dazs e das massas congeladas Pillsbury, caem 28% no mesmo período.
As mudanças nos pratos dos consumidores têm sido aceleradas pelo avanço dos medicamentos à base de GLP-1, usados para tratamento de diabetes e perda de peso, como Ozempic e Mounjaro.
Analistas do JP Morgan estimam que esses medicamentos possam retirar entre US$ 30 bilhões e US$ 55 bilhões em receita anual da indústria de alimentos e bebidas até 2030.
No Brasil, analistas do UBS estima que o mercado de GLP-1 passe dos atuais R$ 11 bilhões para R$ 22,6 bilhões em 2030, uma expansão anual composta de aproximadamente 16%.
A consultoria Frost & Sullivan identifica uma migração para porções menores, produtos mais densos nutricionalmente e soluções com proteínas, fibras, probióticos e outros ingredientes funcionais.
Menos embalados, mais alimentos frescos
A transformação já aparece nos balanços e nos planos das grandes fabricantes. A gigante americana do molhos Kraft Heinz, por exemplo, reportou queda de 1,4% nas vendas no segundo trimestre, na comparação anual. E não é de hoje: nos últimos 11 trimestres, as vendas da Kraft Heinz caíram em dez.
A suíça Nestlé também está reformulando seu portfólio global, com venda de ativos e maior foco nos segmentos mais ligados à nutrição e saudabilidade.
No Brasil, a empresa anunciou recentemente um investimento de R$ 1,6 bilhão até 2028 para ampliar a área de nutrição e saúde. O plano inclui uma nova fábrica de fórmulas infantis em Minas Gerais, a modernização da unidade de Araçatuba (SP) e a expansão da produção de whey protein.
A companhia prevê aumentar em 15% a fabricação de whey até 2029.
É uma reação, porque a mudança de comportamento também aparece no carrinho de compras. De 2022 a 2025, as vendas de biscoitos caíram mais de 10%, segundo a Scanntech, enquanto as vendas de frutas in natura cresceram 34%, e as de ovos, 24,3%.
Vitor Fagá, CEO do Cencosud, controlador das redes de supermercados Giga Atacadão, Prezunic e Bretas, disse ao InvestNews que o grupo percebeu maior demanda por perecíveis e passou a dar mais destaque a essas categorias.
Belmiro Gomes, CEO do Assaí, também tem relatado menor procura por alimentos industrializados e maior demanda por carne fresca, a tal ponto que o atacarejo vem ampliando a presença de açougues em suas lojas.
Do remédio ao laboratório
O consumidor está disposto a consumir industrializados que prometam entregar mais nutrientes. Uma pesquisa da Innova Market Insights mostra que a proteína lidera a intenção de consumo, com 58% das respostas. Vitaminas aparecem com 53%, e fibras, com 48%.
Além disso, 42% dos consumidores já consumiram alimentos ou bebidas fortificados. Os lançamentos com algum atributo de proteína associado a outro benefício cresceram 32%.
O mercado mundial de aditivos alimentares, segundo a Grand View Research, movimentou US$ 127,2 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 203,4 bilhões em 2033. No Brasil, a consultoria estima um mercado de até US$ 5,23 bilhões em 2030.
E a proteína é apenas uma parte dessa indústria. O mercado inclui adoçantes, sabores, enzimas, emulsificantes, estabilizantes, substitutos de gordura, probióticos, prebióticos e fibras.
“A fibra vai ser a nova queridinha da indústria de alimentos. Com o avanço dos medicamentos GLP-1, a demanda por saciedade e saúde intestinal tende a crescer, e a fibra aparece como um ingrediente importante para atender a esse consumidor”, afirma Adilson Dias, diretor comercial da DR Aromas & Ingredientes.
A empresa, antiga Duas Rodas Industrial, tem fábricas no Brasil, no México e no Chile, escritório nos Estados Unidos e operações em mais de 70 países. Fundada em 1925, desenvolve mais de 5.000 soluções para alimentos, bebidas e suplementos.
Para criar todas essas formulações, a DR tem cerca de 400 profissionais na área técnica, entre engenheiros químicos, engenheiros de alimentos, nutricionistas, farmacêuticos e flavoristas.
E conta cada vez mais com ciência de alta tecnologia. Segundo Dias, projetos que antes levavam de 40 dias a seis meses podem ser desenvolvidos em até dez dias com o apoio de inteligência artificial.
A companhia cresce a taxas superiores a 10% ao ano e tem como meta dobrar o faturamento entre 2025 e 2028. Em 2023, último ano divulgado, a DR acumulou R$ 1,6 bilhão em vendas.
Para dobrar esse montante bilionário, a estratégia da multinacional brasileira passa pelo exterior. Cerca de 20% da receita já vem de outros países, e a empresa pretende ampliar essa participação.
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Mas o mercado brasileiro também ganha relevância na estratégia dos grandes grupos globais, especialmente pela oferta de ingredientes e insumos naturais.
A IFF mantém operações industriais e centros de inovação na América Latina, incluindo um hub de cocriação em Barueri, em São Paulo. A empresa trabalha com enzimas, fermentação, probióticos, culturas e bioingredientes.
Segundo Deia Vilela, vice-presidente da IFF Health & Biosciences para a América Latina, a biotecnologia pode ajudar a reduzir a dependência de insumos importados.
Em uma região sujeita a variações de safra, custos logísticos e oscilações cambiais, enzimas podem ajudar a padronizar farinhas e compensar perdas de rendimento ou textura, por exemplo.
O desafio é transformar essa base em ingredientes e moléculas de maior valor agregado, em vez de exportar apenas commodities.
Apetite para compras
Se as mudanças no consumo têm aumentado a demanda da indústria de alimentos por ingredientes e aromas, quem desenvolve tudo isso também entrou no radar do mercado – aquecendo as operações de fusões e aquisições.
Em maio, a IFF anunciou a venda de sua divisão de Food Ingredients para fundos assessorados pela CVC Capital Partners. A operação avaliou a unidade em aproximadamente US$ 4,3 bilhões, ou cerca de dez vezes o Ebitda (o resultado operacional).
O negócio faturou quase US$ 3,1 bilhões em 2025. A IFF manterá uma participação de 10% na empresa, que fornece texturizantes, emulsificantes, soluções para alimentos à base de plantas e outros ingredientes especiais.
Em junho, a Ingredion anunciou a compra da Tate & Lyle por £ 2,7 bilhões em dinheiro. A operação criará um grupo com receita de US$ 9,9 bilhões.
A combinação reúne tecnologias de redução de açúcar, fibras, fortificação, textura, desenvolvimento de receitas e sistemas com múltiplos ingredientes.
Dados da S&P Global reforçam o interesse dos investidores por essa transformação. As transações envolvendo produtoras de alimentos embalados e carnes somaram US$ 5,92 bilhões até julho de 2026, próximas dos US$ 6,75 bilhões de todo o ano de 2025.
O capital está escolhendo empresas ligadas a alimentos funcionais, proteínas, fibras e produtos considerados mais saudáveis.
No Brasil, algumas gigantes também investiram de olho nessa tendência.
A JBS criou a Genu-in em 2022, com um investimento de R$ 400 milhões, para transformar pele bovina em peptídeos de colágeno e gelatina. A fábrica de Presidente Epitácio, no interior paulista, já opera próxima do limite e exporta para mais de 20 países.
A MBRF, por sua vez, comprou 50% da Gelprime por R$ 312,5 milhões. A companhia anunciou mais R$ 187,5 milhões para ampliar a fábrica de Londrina, em um investimento total de R$ 500 milhões.
A meta é mais que triplicar a capacidade da unidade, para 30 mil toneladas anuais, e alcançar cerca de 5% da produção global de colágeno e gelatina.
Nos dois casos, as empresas aproveitam uma vantagem que já possuíam: acesso à matéria-prima animal e escala industrial. A pele, antes destinada a aplicações de menor valor, passa a ser transformada em ingrediente para alimentos, bebidas, suplementos, cosméticos e medicamentos.
A indústria de alimentos está mudando sua composição, mas tenta preservar a aparência, o sabor e a textura que o consumidor já conhece para que um sorvete “turbinado” continue parecendo sorvete, por exemplo.
O que muda é o que está por trás do produto: uma indústria discreta para o consumidor, mas cada vez mais importante para as fabricantes… e especialmente mais valiosa para investidores.
