Economia

Eldorado, dos irmãos Batista, busca recuperar tempo perdido

J&F e Paper Excellence encerraram uma das maiores disputas societárias do país, pelo controle da Eldorado Brasil Celulose, há quase um ano e meio. Em maio de 2025, o conglomerado dos irmãos Joesley e Wesley Batista pagou R$ 15 bilhões pela participação do então sócio indonésio e se tornou o único dono da companhia. A...

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J&F e Paper Excellence encerraram uma das maiores disputas societárias do país, pelo controle da Eldorado Brasil Celulose, há quase um ano e meio. Em maio de 2025, o conglomerado dos irmãos Joesley e Wesley Batista pagou R$ 15 bilhões pela participação do então sócio indonésio e se tornou o único dono da companhia.

A briga, que se arrastava desde 2018, emperrou um dos principais projetos da fabricante de celulose: uma segunda linha de produção na unidade em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul. 

A expansão deve acrescentar 2,6 milhões de toneladas à capacidade anual da companhia, elevando o total para cerca de 4,4 milhões de toneladas de celulose de fibra curta – matéria-prima utilizada principalmente na fabricação de papéis de higiene, como papel higiênico e papel-toalha.

Planejada há mais de uma década, a expansão integra um pacote de R$ 25 bilhões, anunciado em 2024. O plano contempla a fábrica, a operação florestal e uma ferrovia para escoar a produção. Seria uma mudança de escala para uma companhia cuja produção ficou praticamente estável em 2025, em 1,8 milhão de toneladas.

Mas o fim do litígio ainda não veio acompanhado de um calendário para a tão prometida expansão.

Dezessete meses depois do acordo, a segunda linha permanece sem data de início e conclusão nos anúncios públicos consultados pelo InvestNews. Nesse período, a Eldorado avançou na reorganização societária e financeira e prepara sua incorporação pela J&F. 

A operação faz parte de uma reestruturação do conglomerado para centralizar as finanças e incorporar os negócios integralmente controlados pelos Batista.

A Âmbar Energia já foi incorporada, e o plano também abrange a mineradora LHG Mining e a fabricante de produtos de higiene e limpeza Flora. A JBS e fabricante de armas Avibras permanecem com estrutura e governança próprias.

O que mudou

A compra da participação da Paper Excellence pesou no balanço da produtora de celulose. Em junho de 2025, a Eldorado emitiu R$ 13 bilhões em notas comerciais para financiar a aquisição das ações da ex-sócia pela J&F, segundo a própria companhia.

Até julho, os títulos haviam sido integralmente liquidados e substituídos por outras linhas de financiamento, numa tentativa de reduzir custos e alongar os prazos de pagamento.

Ao final de 2025, a dívida líquida da Eldorado era de R$ 9,7 bilhões, ante R$ 966 milhões um ano antes. O aumento refletiu o financiamento associado à aquisição e a outras captações realizadas no período.

Ao divulgar os resultados, a administração indicou que usaria a geração de caixa livre para reduzir a dívida bruta nos trimestres seguintes.

Em relatório de outubro de 2025, o BTG Pactual avaliava que o Vanguarda 2.0, como é conhecido o projeto de expansão, deveria avançar depois da redução do endividamento. Na leitura dos analistas, a execução também exigiria novos aportes de capital para preservar os limites financeiros previstos nos contratos de dívida.

Unidade industrial da Eldorado Brasil Celulose em Mato Grosso do Sul
Unidade industrial da Eldorado em Mato Grosso do Sul (Divulgação)

A gestão financeira também passou a ser concentrada na J&F, que centralizou o caixa de seus negócios integralmente controlados. Em junho deste ano, o conselho da Eldorado autorizou a preparação de sua incorporação pela controladora.

A operação faz parte da reorganização do conglomerado para reunir as finanças de suas diferentes atividades.

Isso não significa que a Eldorado tenha deixado de investir. Em 2025, o gasto de capital chegou a R$ 1,4 bilhão, cerca de 30% acima do ano anterior.

Foram R$ 802 milhões em manutenção e R$ 589 milhões classificados como expansão e modernização. A companhia não detalha, nessa divisão, quanto foi destinado à segunda linha.

Entre os projetos identificados está uma Central de Resíduos, cuja construção a Eldorado iniciou entre o fim de 2025 e início deste ano. Com operação prevista para este ano, a estrutura é voltada ao aproveitamento dos resíduos da fábrica existente.

Na área florestal, o conselho aprovou em agosto um financiamento de R$ 350 milhões com a Finep para o projeto de inovação “Viveiro EldMax”. Outra frente é a ferrovia de 86,7 quilômetros entre a fábrica de Três Lagoas e o terminal da Eldorado em Aparecida do Taboado, conectado à malha da Rumo. 

Em dezembro de 2025, o BNDES aprovou apoio de R$ 1,05 bilhão para o empreendimento. Em maio deste ano, o projeto também recebeu enquadramento em um regime de incentivos tributários para infraestrutura, o Reidi.

A previsão, apresentada em uma emissão de debêntures de outubro de 2025, era concluir o projeto ferroviário em setembro de 2029. Os documentos consultados mostram avanços no financiamento e na preparação do ramal, mas não trazem um percentual atualizado de execução das obras.

Concorrência avança

Enquanto a Eldorado reorganiza finanças e estrutura de comando, os concorrentes avançam com novas fábricas em Mato Grosso do Sul. Os empreendimentos são voltados ao mesmo produto da companhia: a celulose fibra curta.

Em julho de 2024, a Suzano colocou em operação o Projeto Cerrado, em Ribas do Rio Pardo. Com investimento de R$ 22,2 bilhões em fábrica, florestas e logística, o empreendimento acrescentou capacidade para produzir 2,55 milhões de toneladas anuais – um aumento de mais de 20% na capacidade da companhia.

Essa unidade começou a operar quando os sócios da Eldorado ainda disputavam o controle da empresa.

Projeto Cerrado, da Suzano
Projeto Cerrado, da Suzano: parte da obra feita pela Brasil ao Cubo (Divulgação)

Em Inocência, a chilena Arauco constrói o Projeto Sucuriú, de US$ 4,6 bilhões, com capacidade prevista de 3,5 milhões de toneladas anuais. A operação deve começar no fim de 2027. Em setembro, as obras do ramal ferroviário que atenderá à fábrica haviam atingido 50,8% de execução, segundo a empresa.

O avanço ocorre em um mercado que ensaia uma recuperação de preços. A Suzano anunciou aumentos para outubro de US$ 20 por tonelada na China e de US$ 50 nas Américas e na Europa, após um reajuste que passou a valer em setembro.

A reação, porém, ainda encontra limites. Em análise publicada em 13 de outubro, a consultoria chinesa SunSirs apontou oferta abundante de celulose de fibra curta e compras das papeleiras restritas às necessidades imediatas, sem uma recomposição expressiva dos estoques.

Procurada pelo InvestNews, a J&F não comentou.



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Redação A Notícia 24H.