Economia

Dez ações concentram mais da metade do peso do Ibovespa

O Ibovespa acumula alta de 26,80% neste ano de 2026 até a quarta-feira (7 de outubro). É o equivalente a 248% do CDI no período. Mas o número exuberante esconde uma situação que só foi vista na bolsa 13 anos atrás: mais da metade da alta vem de apenas 9 papéis de sua carteira. O...

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O Ibovespa acumula alta de 26,80% neste ano de 2026 até a quarta-feira (7 de outubro). É o equivalente a 248% do CDI no período. Mas o número exuberante esconde uma situação que só foi vista na bolsa 13 anos atrás: mais da metade da alta vem de apenas 9 papéis de sua carteira.

O principal índice acionário do mercado brasileiro vive uma das maiores taxas de concentrações da história.

As 10 ações de maior peso representam 54% do referencial. Significa que mais da metade da força do Ibovespa depende desse pequeno grupo de papéis, que representa em termos absolutos menos de um sétimo da carteira do índice, que reúne 76 ações.

E tem mais: 55% da alta do Ibovespa neste ano se concentra em apenas 9 ações que fazem parte dos top 10. Isso porque há uma única ação nesse grupo que não acumula subida em 2026, a Vale ON (tem, na verdade, queda de 4,63%).

Veja abaixo as ações mais relevantes no Ibovespa:

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Na outra ponta, a ação Itaú Unibanco PN acumula avanço de 27,62%, como um dos representantes do setor bancário; o outro é o Bradesco PN, com valorização de 23,67%. No mercado, a ação B3 ON sobe 69,10%.

Já as ações Petrobras PN e ON apresentam altas de 80,66% e 91,76%, respectivamente, na esteira da escalada do preço do petróleo com a Guerra do Irã a partir de fevereiro.

Há também ganhos destacados para empresas de serviços públicos, as utilities: o papel Axia ON tem subida de 19,40% no ano, enquanto Sabesp ON apresenta ganhos de 22,21%.

Pesos-pesados cada vez mais pesados

Concentração representa, por um lado, riscos de desequilíbrio e falta de diversificação na carteira. Isso porque há um “sobrepeso” de alguns setores na composição do índice.

Empresas de commodities, por exemplo, já superam 24% de todo o Ibovespa apenas com Vale e Petrobras. O setor financeiro vem logo depois com 18,7%, enquanto infraestrutura alcança quase 8,5%.

Isso afeta o indicador de várias maneiras. Por exemplo, como Vale e Petrobras têm pesos massivos, o Ibovespa fica excessivamente dependente da demanda chinesa por minério e da cotação internacional do petróleo.

A forte presença de estatais e grandes bancos expõe o índice ao noticiário político, a mudanças regulatórias e ao cenário de juros.

Com tão poucas empresas afetando tanto o sobe-e-desce do índice, a volatilidade pode ser amplificada em momentos de estresse nos mercados.

Há ainda um risco técnico: com robôs de negociação assumindo cada vez mais decisões de alocação, uma oscilação em apenas um papel pode deflagrar ordens de liquidações no mercado de futuros. Nesse cenário, a volatilidade pode ser amplificada artificialmente.

Aqui no Brasil, o aumento de peso desse grupo seleto de papéis no índice está diretamente ligado aos juros altos por muito tempo e à redução do volume de negociação que tem assolado o mercado acionário brasileiro nos últimos anos.

Sem novas empresas listadas por falta de IPOs e, ao mesmo tempo, diante de nomes de peso que saem da bolsa e investidores estrangeiros mais relevantes nas negociações, o Ibovespa passou a depender cada vez mais de ações mais líquidas e de companhias vistas como mais sólidas.

A concentração só tem aumentado: do fim de 2025 para cá, a taxa das 10 mais saiu de 51% para 54%. Em 2020, o percentual alcançava 46%.

Concentração se espalhou no exterior

O fenômeno não se restringe ao Brasil. No exterior, vários índices acionários também passam por um momento de concentração histórica, como o americano S&P 500 e o MSCI EM, de ações de mercados emergentes.

Mas há uma grande diferença: esses índices vivem o momento da tecnologia e, mais especificamente, das apostas na inteligência artificial que alimentam esse peso acima da média histórica.

O MSCI EM, por exemplo, vive um período de alto desbalanceamento.

Um levantamento do Goldman Sachs mostra que o índice de ações dos mercados emergentes tornou-se cada vez mais focado em tecnologia.

Impulsionado pelo ciclo de investimentos em IA, o referencial tem sido negociado perto das máximas históricas neste ano. Mas papéis da Coreia do Sul e de Taiwan representam metade do MSCI EM.

As três maiores ações de IA desse índice, da TSMC, da Samsung e da SK Hynix, já representam 30%, ou seja, quase um terço de toda a variação do indicador. Na bolsa de Taiwan, a TSMC sozinha tem um valor de mercado que alcança mais 40% de toda bolsa de lá.

Já Samsung e SK Hynix somam juntas mais de 50% do peso da carteira do Kospi, o principal índice acionário do país asiático.

S&P 500: IA distorce resultado

No caso do conhecido S&P 500, apenas três ações, de Nvidia, Apple e Microsoft, já representam 21% da alta do índice neste ano.

O índice sobe 13,43% no ano até outubro. Mas viveu altos e baixos no ano. Até o fim do primeiro trimestre tinha queda de 8,6%. A partir de abril, voltou a se recuperar até voltar aos patamares recordes.

Nos cálculos do banco americano J.P. Morgan, os 10 principais papéis somados têm um peso equivalente a 39% do todo o referencial da bolsa de Nova York.

É uma taxa de concentração que supera os 26,6% vistos no início dos anos 2000 no que ficou conhecido como “bolha do pontocom”.

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O risco de uma concentração tão elevada é o de o mercado vivenciar correções muito intensas e até mesmo se tornar uma “bolha”, em que os preços de ativos disparam sem que haja fundamentos que justifiquem.

O bilionário investidor americano Ray Dalio fez esse alerta na quarta-feira (7). Na visão do fundador do hedge fund Bridgewater, a inteligência artificial é uma “bolha clássica” que está prestes a estourar.

Dalio afirmou que um volume enorme de dívida – a taxas mais altas – está sendo contraído para financiar investimentos em IA. Com a continuidade da alta dos juros nos EUA, o ponto em que a bolha começa a estourar pode estar mais próximo do que se imagina.

“Estamos na parte do ciclo que antecede esse momento”, disse o lendário investidor. “Acho que estamos perto disso.”



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