E tem mais: 55% da alta do Ibovespa neste ano se concentra em apenas 9 ações que fazem parte dos top 10. Isso porque há uma única ação nesse grupo que não acumula subida em 2026, a Vale ON (tem, na verdade, queda de 4,63%).
Veja abaixo as ações mais relevantes no Ibovespa:
Na outra ponta, a ação Itaú Unibanco PN acumula avanço de 27,62%, como um dos representantes do setor bancário; o outro é o Bradesco PN, com valorização de 23,67%. No mercado, a ação B3 ON sobe 69,10%.
Já as ações Petrobras PN e ON apresentam altas de 80,66% e 91,76%, respectivamente, na esteira da escalada do preço do petróleo com a Guerra do Irã a partir de fevereiro.
Há também ganhos destacados para empresas de serviços públicos, as utilities: o papel Axia ON tem subida de 19,40% no ano, enquanto Sabesp ON apresenta ganhos de 22,21%.
Pesos-pesados cada vez mais pesados
Concentração representa, por um lado, riscos de desequilíbrio e falta de diversificação na carteira. Isso porque há um “sobrepeso” de alguns setores na composição do índice.
Empresas de commodities, por exemplo, já superam 24% de todo o Ibovespa apenas com Vale e Petrobras. O setor financeiro vem logo depois com 18,7%, enquanto infraestrutura alcança quase 8,5%.
Isso afeta o indicador de várias maneiras. Por exemplo, como Vale e Petrobras têm pesos massivos, o Ibovespa fica excessivamente dependente da demanda chinesa por minério e da cotação internacional do petróleo.
A forte presença de estatais e grandes bancos expõe o índice ao noticiário político, a mudanças regulatórias e ao cenário de juros.
Com tão poucas empresas afetando tanto o sobe-e-desce do índice, a volatilidade pode ser amplificada em momentos de estresse nos mercados.
Há ainda um risco técnico: com robôs de negociação assumindo cada vez mais decisões de alocação, uma oscilação em apenas um papel pode deflagrar ordens de liquidações no mercado de futuros. Nesse cenário, a volatilidade pode ser amplificada artificialmente.
Aqui no Brasil, o aumento de peso desse grupo seleto de papéis no índice está diretamente ligado aos juros altos por muito tempo e à redução do volume de negociação que tem assolado o mercado acionário brasileiro nos últimos anos.
Sem novas empresas listadas por falta de IPOs e, ao mesmo tempo, diante de nomes de peso que saem da bolsa e investidores estrangeiros mais relevantes nas negociações, o Ibovespa passou a depender cada vez mais de ações mais líquidas e de companhias vistas como mais sólidas.
A concentração só tem aumentado: do fim de 2025 para cá, a taxa das 10 mais saiu de 51% para 54%. Em 2020, o percentual alcançava 46%.
Concentração se espalhou no exterior
O fenômeno não se restringe ao Brasil. No exterior, vários índices acionários também passam por um momento de concentração histórica, como o americano S&P 500 e o MSCI EM, de ações de mercados emergentes.
Mas há uma grande diferença: esses índices vivem o momento da tecnologia e, mais especificamente, das apostas na inteligência artificial que alimentam esse peso acima da média histórica.
O MSCI EM, por exemplo, vive um período de alto desbalanceamento.
Um levantamento do Goldman Sachs mostra que o índice de ações dos mercados emergentes tornou-se cada vez mais focado em tecnologia.
Impulsionado pelo ciclo de investimentos em IA, o referencial tem sido negociado perto das máximas históricas neste ano. Mas papéis da Coreia do Sul e de Taiwan representam metade do MSCI EM.
As três maiores ações de IA desse índice, da TSMC, da Samsung e da SK Hynix, já representam 30%, ou seja, quase um terço de toda a variação do indicador. Na bolsa de Taiwan, a TSMC sozinha tem um valor de mercado que alcança mais 40% de toda bolsa de lá.
Já Samsung e SK Hynix somam juntas mais de 50% do peso da carteira do Kospi, o principal índice acionário do país asiático.
S&P 500: IA distorce resultado
No caso do conhecido S&P 500, apenas três ações, de Nvidia, Apple e Microsoft, já representam 21% da alta do índice neste ano.
O índice sobe 13,43% no ano até outubro. Mas viveu altos e baixos no ano. Até o fim do primeiro trimestre tinha queda de 8,6%. A partir de abril, voltou a se recuperar até voltar aos patamares recordes.
Nos cálculos do banco americano J.P. Morgan, os 10 principais papéis somados têm um peso equivalente a 39% do todo o referencial da bolsa de Nova York.
É uma taxa de concentração que supera os 26,6% vistos no início dos anos 2000 no que ficou conhecido como “bolha do pontocom”.
O risco de uma concentração tão elevada é o de o mercado vivenciar correções muito intensas e até mesmo se tornar uma “bolha”, em que os preços de ativos disparam sem que haja fundamentos que justifiquem.
O bilionário investidor americano Ray Dalio fez esse alerta na quarta-feira (7). Na visão do fundador do hedge fund Bridgewater, a inteligência artificial é uma “bolha clássica” que está prestes a estourar.
Dalio afirmou que um volume enorme de dívida – a taxas mais altas – está sendo contraído para financiar investimentos em IA. Com a continuidade da alta dos juros nos EUA, o ponto em que a bolha começa a estourar pode estar mais próximo do que se imagina.
“Estamos na parte do ciclo que antecede esse momento”, disse o lendário investidor. “Acho que estamos perto disso.”
