Economia

Como a herdeira mais discreta da Zara pode definir o futuro dos negócios da família

Sandra Ortega, a mulher mais rica da Espanha, passou a maior parte da vida em Oleiros, uma pequena cidade no noroeste do país, às margens do Atlântico e conhecida pelos ventos fortes. Aos 58 anos, ela é tão reservada e leva uma vida tão discreta que, apesar de toda a sua riqueza, há poucos sinais...

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Sandra Ortega, a mulher mais rica da Espanha, passou a maior parte da vida em Oleiros, uma pequena cidade no noroeste do país, às margens do Atlântico e conhecida pelos ventos fortes.

Aos 58 anos, ela é tão reservada e leva uma vida tão discreta que, apesar de toda a sua riqueza, há poucos sinais de que seja uma das pessoas mais ricas da Espanha, diz Ángel García Seoane, prefeito da cidade.

Segunda maior acionista da Inditex, dona da Zara, depois de seu pai e fundador da companhia, Amancio Ortega, Sandra tem uma participação de 5,05% na empresa, avaliada atualmente em cerca de € 8,5 bilhões (US$ 9,5 bilhões).

Sua meia-irmã Marta, presidente do conselho da Inditex, é a integrante mais conhecida da nova geração dos Ortega. Sandra, filha de Amancio com sua primeira mulher, acumulou uma fortuna gigantesca sem nunca ter ocupado um cargo ou desempenhado qualquer função na empresa criada por seus pais — hoje a maior varejista de moda do mundo.

Marta Ortega, à direita, com o CEO da Inditex, Óscar García Maceiras, durante a assembleia geral anual da empresa, em Arteixo, em julho de 2025. Fotógrafo: Brais Lorenzo/Bloomberg.
Marta Ortega, à direita, com o CEO da Inditex, Óscar García Maceiras, durante a assembleia geral anual da empresa, em Arteixo, em julho de 2025. Fotógrafo: Brais Lorenzo/Bloomberg.

Quando Amancio, de 90 anos e com patrimônio estimado em cerca de US$ 127 bilhões, morrer, a fortuna de Sandra deverá aumentar consideravelmente. Pelas leis locais, pelo menos um quarto do valor de seu patrimônio deve ser destinado aos descendentes.

Com base na estimativa do Bloomberg Billionaires Index, isso significaria pelo menos US$ 10,6 bilhões para cada um de seus três filhos: Sandra, seu irmão Marcos, que tem paralisia cerebral, e Marta. A herança não necessariamente será recebida em ações da Inditex, mas a participação que Sandra já possui lhe dá uma influência relevante.

A única ligação direta de Sandra com as operações da Inditex veio por meio do marido, que ocupou cargos discretos na empresa nas áreas de instalações e inovação.

Seus três filhos, já adultos, nunca se envolveram nos negócios, e não há sinais de que isso vá mudar depois da morte de Amancio Ortega.

Dois casamentos e a distância entre os irmãos

Ao mesmo tempo, os descendentes de Amancio dos dois casamentos praticamente não mantêm contato há décadas. Isso deixa investidores diante de uma questão: como os acionistas da família vão se relacionar quando Amancio — o elo que os une — não estiver mais presente?

“A vulnerabilidade não está hoje. Ela aparece no dia em que as ações de Amancio Ortega mudarem de mãos”, disse Martin Roll, estrategista especializado em empresas familiares e consultor sênior da McKinsey & Co.

“Uma acionista passiva, com uma participação significativamente maior, sem assento no conselho e sem histórico de como votaria quando isso realmente importasse, passa a ser uma variável estratégica para todos ao redor da mesa, inclusive os investidores externos.”

É possível que Amancio já tenha definido uma estrutura para os quase 60% da Inditex controlados por sua holding, a Pontegadea, com um acordo de acionistas e uma estrutura de governança familiar bem estabelecidos, embora nada disso tenha sido divulgado.

Ainda assim, a forma como os acionistas de uma família conseguem trabalhar juntos costuma ser decisiva para o futuro de empresas desse tipo, afirma Alfonso Chiner, professor da IESE especializado em negócios familiares.

“Os acionistas de uma empresa familiar precisam de compromisso e união”, disse. “O antecessor, o sucessor, a empresa e a família precisam seguir um plano conjunto, coordenado e organizado.”

Representantes de Sandra, da Inditex e da Pontegadea se recusaram a comentar. Sandra não aceitou pedidos de entrevista e não colocou nenhum de seus funcionários à disposição da reportagem. Mas conversas com cerca de uma dúzia de pessoas que conhecem seu círculo mostram o perfil de uma bilionária que evita os sinais de riqueza, mesmo enquanto a Inditex continua aumentando sua fortuna.

A sede da Inditex fica em Arteixo, nos arredores de A Coruña, cidade portuária de praias de areia e ruas de paralelepípedos. É ali que Amancio Ortega vive, em um prédio do século 19 com varandas envidraçadas de frente para o mar. Perto dali, uma fachada semelhante abriga o family office de Sandra.

Embora os dois prédios estejam a poucos minutos de distância, pai e filha ficaram afastados durante muitos anos, em um reflexo da ruptura familiar que marcou a trajetória de Sandra dentro da história da Inditex.

Mais de quatro décadas atrás, os pais de Sandra se separaram depois que o relacionamento de Amancio com uma funcionária da Inditex, Flora Pérez, levou ao nascimento de uma filha, Marta.

As duas famílias praticamente não tinham contato. Com o passar do tempo, porém, Amancio e Sandra retomaram a relação, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, que falaram sob condição de anonimato por se tratar de questões privadas.

Mãe de Sandra

A história da fortuna de Sandra, que hoje administra por meio de seu family office e de uma fundação, começa com a criação da Zara por seus pais, em meados dos anos 1970.

Sua mãe, Rosalía Mera, nasceu em 1944 em A Coruña e cresceu em uma família pobre. A casa onde morava ficava de frente para uma praia onde o esgoto de um matadouro despejava sangue e restos de animais no mar. Mera deixou a escola aos 11 anos para trabalhar como costureira e ajudar a sustentar a família. Mais tarde, conseguiu emprego em uma loja de tecidos chamada La Maja, onde conheceu o futuro marido, Amancio Ortega.

No começo, eram quatro pessoas: Mera, Amancio, o irmão dele, Antonio, e a mulher de Antonio, Primitiva Renedo, segundo Xabier Blanco, biógrafo dos fundadores da Zara. Mera e Renedo começaram costurando roupas para bebês, mas o primeiro grande sucesso veio com um roupão feminino acolchoado — uma versão mais barata de um modelo que fazia sucesso.

A produção cresceu e deixou a casa de Renedo para chegar a uma rede de mulheres que costuravam em pequenas oficinas ou em casa. Amancio e Antonio cuidavam das vendas e da distribuição.

Mera e Amancio tiveram dois filhos: Sandra, em 1968, e Marcos, três anos depois, nascido com paralisia cerebral. Mera passou a se dedicar aos cuidados do filho, enquanto Amancio mergulhou no negócio.

Depois de uma primeira tentativa que não deu certo, os dois lançaram a Zara em 1975, a marca que se tornaria o carro-chefe da Inditex. À medida que a empresa crescia no fim dos anos 1970, o relacionamento do casal se deteriorava. Em 1984, eles se separaram, depois que Amancio formou uma nova família com Pérez e Marta.

Mesmo depois da separação, Mera continuou entre os principais acionistas da Inditex, embora sua participação tenha diminuído ao longo dos anos. Ela deixou de participar do dia a dia da empresa, mas continuou sendo uma integrante ativa e combativa do conselho, segundo seu biógrafo, Blanco.

Quando a Inditex abriu o capital, em 2001, já era uma gigante, com valor de mercado na casa dos bilhões de euros. Mera vendeu metade de sua participação, ficou com 7% e continuou como segunda maior acionista, atrás de Amancio. Ela deixou o conselho em 2004 e, quando morreu, em 2013, Sandra herdou suas ações.

Sandra seguiu em muitos aspectos os passos da mãe, que se voltou para a filantropia à medida que sua ligação com a Inditex diminuía. Mera defendia o direito ao aborto e atuava em temas como educação e inclusão social. De personalidade forte, provocou uma pequena reação negativa em 2011 ao declarar publicamente apoio aos “Indignados”, movimento popular de caráter antissistema que surgiu após a crise financeira.

Apesar da fortuna, Mera era conhecida por seu estilo de vida simples. Andava pela cidade em um carro compacto que trazia o logotipo de uma de suas organizações e negociava cada centavo. Sua relação com o dinheiro era marcada pela infância, diz Antonio Pernas, estilista de A Coruña que nasceu no mesmo ano que Mera.

Na época, emigrantes que voltavam das Américas às vezes apareciam vestidos com roupas coloridas e lenços estampados para mostrar a prosperidade que haviam conquistado. Quem se vestia de maneira um pouco mais extravagante ouvia gritos de “¡Hay barco!” — “O barco chegou!” —, uma provocação dirigida aos recém-enriquecidos que voltavam para casa. Mera passou a vida evitando demonstrações ostensivas de riqueza.

“Sandra é ainda mais obcecada que a mãe em garantir que ninguém perceba que elas são ricas”, disse Pancho Casal, produtor de cinema cuja empresa recebeu apoio financeiro de Mera. As únicas fotos de Sandra disponíveis na internet são do funeral da mãe, realizado há mais de uma década.

Sandra cresceu em um bairro de classe média de A Coruña. Na época em que os pais se separaram, pediu para trocar a escola católica por uma instituição pública do outro lado da cidade, onde conheceu o marido. Estudou psicologia em uma universidade pública antes de começar a trabalhar na Paideia, fundação criada por sua mãe para promover a transformação social.

Dona de hotéis pelo mundo

Enquanto isso, o family office de Sandra, Rosp — abreviação de Rosalía Patrimonio —, continuou fazendo investimentos de grande porte em várias partes do mundo. O lucro da empresa cresceu 2%, para € 307 milhões (US$ 356 milhões), em 2025, segundo os balanços mais recentes disponíveis. Seus ativos somavam mais de € 11 bilhões (US$ 12,8 bilhões). Os três filhos de Sandra passaram a integrar o conselho do family office em 2024.

Apesar disso, o family office de Sandra, Rosp — abreviação de Rosalía Patrimonio — continuou fazendo investimentos de grande porte em diferentes partes do mundo. O lucro da empresa cresceu 2%, para € 307 milhões (US$ 343,5 milhões) em 2025, segundo os balanços mais recentes disponíveis, e seus ativos estavam avaliados em mais de € 11 bilhões (US$ 12,3 bilhões). Os três filhos de Sandra passaram a integrar o conselho do family office em 2024.

O maior ativo da Rosp é sua participação na Inditex, que renderá € 275 milhões (US$ 307,7 milhões) em dividendos neste ano. A empresa também detém 5% da PharmaMar, uma pequena companhia espanhola especializada em tratamentos contra o câncer, e investe em uma ampla variedade de fundos de venture capital e private equity, em sua maioria sediados na Espanha. Embora Sandra tenha evitado o estilo de vida dos ricos e famosos, seu family office construiu, ao longo dos anos, um enorme portfólio de hotéis de luxo e imóveis em diferentes partes do mundo.

“Não estamos falando de uma mulher desinteressada por dinheiro”, disse Roll, da McKinsey.

Entre os ativos da Rosp estão hotéis icônicos como o Waldorf Towers, em Miami Beach, um edifício art déco de 1937 na Ocean Drive, e o El Prado, em Palo Alto, cujo famoso restaurante italiano recebeu clientes como Steve Jobs, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg antes de fechar neste ano. Há alguns meses, a Rosp comprou o Radisson Blu, na Leicester Square, em Londres, por € 142 milhões (US$ 158,9 milhões). Em Portugal, a Rosp há mais de uma década apoia o desenvolvimento do Na Praia, um resort de luxo com vilas e suítes de hotel de frente para um dos trechos mais exclusivos do litoral do país.

Embora Sandra tenha uma pequena equipe à frente de seu family office, ela não fica completamente afastada das decisões. Isso ficou demonstrado em 2020, quando decidiu demitir o diretor de investimentos, que havia trabalhado primeiro para sua mãe e depois para ela. Mais tarde, Sandra o acusou, entre outras coisas, de apropriação indevida e gestão desleal, o que a levou a uma série de disputas judiciais.

Sua atuação pessoal está concentrada na fundação beneficente, que teve um orçamento de cerca de € 3,5 milhões (US$ 3,9 milhões) no ano passado.

Sandra raramente aparece em público, mesmo quando se trata de sua fundação. Na seção “contato”, o site da entidade afirma que sua presidente “não mantém perfis nem exerce qualquer atividade nas redes sociais” e também não participa de “qualquer diálogo público sobre iniciativas sociais ou filantrópicas, atividades empresariais ou qualquer outro tipo de empreendimento”.

Ela deu uma rara mostra de sua visão de mundo quando um parque batizado em homenagem à sua mãe foi inaugurado em Oleiros, em 2024. Financiado por Sandra, o espaço preservou árvores antigas, muros de pedra e o relevo irregular do terreno. O parque também abriga mais de 200 espécies de plantas, caixas-ninho para pássaros e um lago cheio de sapos coaxando. Algumas áreas não são iluminadas à noite para preservar o ciclo circadiano dos animais.

Em um documentário sobre o parque, lançado um ano depois, Sandra relembrou a infância e falou sobre a ideia de criar “um espaço verde em vez de construir casas”. “Acho que este é um espaço que permite às pessoas parar e estar no mundo, por um breve momento, de uma maneira diferente”, disse ela em off no fim do filme.



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