O dólar sobe quando começa rarear no mercado – quando investidores passam a comprar mais moeda americana aqui dentro para aportar lá fora.
E esse fluxo de dólares para o exterior está acelerando desde o início do mês. Para evitar uma alta forte das notas verdes, o Banco Central realizou na quinta-feira (27) uma operação casada, com venda da moeda americana no mercado à vista e compra de contratos de dólar no mercado futuro.
O montante da intervenção alcançou US$ 1 bilhão.
A autoridade costuma realizar essas vendas casadas quando precisa melhorar a liquidez no mercado. Traduzindo: precisa suprir o mercado de dólares quando há sinais de que a oferta da divisa americana começa a secar.
Só em agosto, até dia 21, cerca de US$ 7 bilhões deixaram o mercado brasileiro. As saídas líquidas, quando se descontam as entradas, alcançaram US$ 2 bilhões.
O movimento de saída de recursos para fora do país costuma ficar mais intenso conforme as eleições se aproximam. Além disso, muitos investidores locais aproveitam a janela para diversificar no exterior, o que dá uma pressão extra para as cotações subirem. Em suma, é um processo que se retroalimenta.
Na última eleição, em 2022, o câmbio chegou a subir mais de 3% em apenas uma sessão – e depois cair –, bem próximo do primeiro turno em outubro.
Volatilidade importada
Também há componentes para a volatilidade do dólar dentro dos EUA. A diferença é que o sinal que vem de fora pesa contra a valorização da moeda americana.
O mais recente vem do Tesouro dos EUA. Scott Bessent, o equivalente americano a Ministro da Fazenda, anunciou que o órgão vai dobrar o volume de recompras de títulos de prazos mais longos para US$ 4 bilhões a partir de setembro.
Mesmo que a justificativa oficial seja a de prover liquidez ao mercado, o efeito prático tende a ser uma contenção das taxas de juros que os papeis pagam.
É que as recompras drenam títulos do mercado. Com menos papéis circulando, o preço deles sobe. Aí é aquilo: na renda fixa, quando o preço do título sobe a taxa de juros que ele paga cai.
A redução da rentabilidade, por sua vez, pode estimular a busca de diversificação para investimentos de maior risco e retorno, o que inclui, por exemplo, ativos de mercados emergentes.
Isso faz com que mais dólares entrem aqui – e pressiona para baixo a cotação da moeda americana.
O economista-chefe do CME Group, Eric Norland, reconheceu em entrevista ao InvestNews que o programa do Tesouro americano pode impulsionar o real e outras moedas emergentes. Porém, “não devemos superestimar o impacto potencial”.
Para Norland, o impacto das operações tende a ser pontual e limitado. A escala relativa da operação é modesta comparado aos números do mercado de renda fixa pública.
Os EUA possuem uma dívida negociável, ou seja, nas mãos de investidores, sem considerar reservas dos BCs e governos, de US$ 31,434 trilhões, dos quais cerca de US$ 5,476 trilhões são títulos de longo prazo. Assim, o suporte adicional ao mercado equivale a cerca de 0,3% da dívida total e a aproximadamente 1,75% do mercado de dívida de longo prazo.
É pouco. A maior tendência é a de que as recompras causem mais volatilidade para a moeda americana do que, efetivamente, tornem-se um fator sólido de enfraquecimento do dólar.
Mas por enquanto há algum efeito. O índice DXY, que mede a moeda americana contra uma cesta de pares como euro, iene e libra, chega ao fim de agosto no menor nível em três meses.
Enquanto isso em Jackson Hole…
O novo presidente do banco central dos EUA, o Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, mudou a estratégia de comunicação da autoridade e, propositalmente, mantém vaga a sinalização sobre a política monetária.
Nesta sexta (28), porém, no discurso durante o simpósio de Jackson Hole, que reúne representantes de BCs do mundo todo, Warsh claramente deu mais peso ao combate à inflação do que ao outro mandato da autoridade do Fed, que é sustentar o emprego.
É um sinal de que pode estar se aproximando o momento de uma nova alta de juros lá fora – o que fortalece o dólar. A questão agora passará a ser: até quanto irá esse aumento.
E o mercado já reagiu. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano avançaram logo após a fala de Warsh. O dólar ganhou força e aumentaram as apostas em uma possível alta dos juros na reunião de setembro.
E em 2027?
Para além deste ano, o cenário de fundo deve continuar com uma leve tendência de um dólar mais forte.
“O ano de 2027 também vai ser de turbulência”, aponta o economista da Nomad, Vitor Kayo. “A perspectiva é a de que o câmbio vai ficar mais alto no ano que vem.”
A Nomad espera que os juros de curto prazo nos EUA encerrem 2027 em 4,25% ao ano – 0,5 ponto percentual acima dos atuais atuais 3,75%.
No Brasil, o BC segue um caminho inverso. O Copom cortou a Selic para 14% ao ano na reunião de agosto, o quarto corte seguido. O boletim Focus, que reúne projeções de instituições financeiras sobre juros, inflação, PIB e câmbio, mostra a taxa básica terminando 2027 em 12% ao ano.
Em um ritmo gradual de redução de 0,25 ponto percentual por reunião do Copom, essa trajetória prevê cortes de juros em 8 reuniões daqui até o fim do ano que vem.
Esse descompasso entre as políticas monetárias local e americana pode trazer impulso de alta para o dólar – quanto menor a distância entre os juros daqui e os de lá, afinal, mais dólares saem do país.
Resumindo: entre comprar ou vender dólar agora, o cabo de guerra está mais para a compra.
