O fenômeno acentua o desequilíbrio no clima do planeta. Entre os efeitos esperados estão impulsionar a demanda por energia, prejudicar a produtividade das lavouras e reacender pressões inflacionárias.
A última vez que o planeta enfrentou um El Niño perto dessa magnitude, entre 2015 e 2016, o prejuízo em produtividade superou os US$ 7,8 trilhões, segundo estudo da Universidade de Dartmouth.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) alertou que, no Brasil, o fenômeno ocasiona chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste. Esse regime de escassez pode reduzir os níveis dos rios, afetar a navegação e o abastecimento de água.
Nas áreas mais ao sul do país, o El Niño gera chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes e danos a estruturas e lavouras.
Em 2024, a anomalia gerou um excesso de chuvas no Rio Grande do Sul e, quase ao mesmo tempo, uma forte estiagem que secou grande parte dos rios na região Amazônica.
Efeitos globais já em andamento
Entre os setores que se preparam para os impactos estão as empresas de transporte marítimo que utilizam o Canal do Panamá, que liga o Pacífico ao Atliantico.
O El Niño tem provocado secas no Panamá. As chuvas entre maio e agosto ficaram 34% abaixo da média histórica.
A autoridade responsável pelo canal informou que vai reduzir o número máximo de passagens de embarcações de 36 para 32 por dia até meados de setembro.
Soja brasileira sofre menos
O fenômeno representa um grande risco devido ao desequilíbrio de padrões climáticos que causa, por exemplo, secas no Norte e excesso de chuvas no Sul do Brasil. Mas também traz algumas oportunidades ao agronegócio nacional.
O ‘super El Niño’ pode causar perdas na Ásia e África, mas impulsionar parcialmente ganhos de produtividade no Brasil, Estados Unidos e Argentina, segundo estudo de padrões anteriores do fenômeno feito pelo Itaú BBA.
As projeções do mercado apontam para uma produção recorde de soja no Brasil, estimada em 186 milhões de toneladas no ciclo 2026/27 ante 183 milhões no período anterior.
O El Niño pode impactar positivamente algumas ações de companhias brasileiras, como a produtora de açúcar e etanol São Martinho e das companhias ligadas ao ciclo da soja SLC Agrícola e Boa Safra.
As companhias do setor de energia, como Axia, Copel, Eneva e Equatorial devem manter a atratividade. É um grupo de empresas com perfil mais defensivo em meio a ocorrência do evento climático.
Por outro lado, o excesso de chuvas e a ocorrência de secas severas pode afetar custos e a logística de mineradoras, como a Vale, CSN e Usiminas. Como os efeitos e riscos são imprevisíveis, os papéis das empresas podem apresentar maior volatilidade.
Vida mais difícil para os PCs
A consolidação do El Niño mais poderoso em várias décadas vai complicar ainda a vida dos bancos centrais.
Uma alta de preços de alimentos e energia, por exemplo, vai afetar as perspectivas para os juros em grandes mercados.
Novos choques de preços podem levar os BCs globais a manter os juros altos por mais tempo. Isso em um momento no qual as guerras e outros eventos geopolíticos já pressionam a inflação globalmente.
Políticas monetárias mais duras lá fora levam, em geral, ao fortalecimento do dólar e outras moedas fortes frente às divisas de mercados emergentes, como o real brasileiro.
Juros mais elevados em moedas fortes também costumam inibir os fluxos de recursos internacionais para os mercados vistos como mais arriscados, o que pode afetar o atual fluxo de investimento estrangeiro na bolsa brasileira.
