O posicionamento da Lindt no segmento de chocolates premium fez com que a empresa mantivesse o cacau como ingrediente, em vez de recorrer a substitutos mais baratos, como óleos vegetais.
Isso a deixou particularmente exposta à commodity, cujos preços subiram após choques na oferta provocados por condições climáticas extremas e doenças nas plantações.
A empresa reagiu com aumentos de preços de até 20% somente em 2025. A estratégia, porém, passou a ser questionada em meio à crise do custo de vida, que vem reduzindo o poder de compra dos consumidores.
Investidores questionaram a liderança da Lindt e a manutenção dos preços elevados, diante da ausência de uma recuperação dos volumes vendidos em mercados importantes.
A confiança dos consumidores também foi prejudicada pela guerra no Oriente Médio. Mesmo com a mudança de comando anunciada nesta segunda-feira, há quem considere necessária uma reformulação mais ampla.
“Seríamos favoráveis a uma renovação adicional do conselho na próxima primavera”, afirmou Jean-Philippe Bertschy, analista da Vontobel, em relatório.
A Lindt não é a primeira empresa do setor a mudar sua liderança para enfrentar as dificuldades atuais. No início do ano, a Barry Callebaut AG nomeou um ex-executivo-chefe da Unilever Plc, em sua terceira troca de CEO em menos de cinco anos.
As ações da Lindt caíram até 3% em Zurique e recuavam 1,4% às 11h10, no horário local. Os papéis acumulam queda de cerca de 28% em 2026. A Barry Callebaut registra baixa de aproximadamente 13% no mesmo período.
Fabricante do icônico coelho dourado de Páscoa e das bolas de chocolate Lindor, a Lindt anunciou nesta segunda-feira que Dieter Weisskopf, ex-CEO e atual vice-presidente do conselho, assumirá interinamente o comando. A companhia espera nomear um sucessor permanente no segundo trimestre de 2027.
“A nomeação do ex-CEO Weisskopf como interino oferece continuidade, mas o chamado do conselho por uma nova liderança operacional para recuperar um crescimento consistente sugere uma reformulação mais ampla”, afirmou Ignacio Canals Polo, analista da Bloomberg Intelligence, em relatório.
Mercados desafiadores
Antes de assumir o cargo de CEO global, Lechner comandou as operações da Lindt na Alemanha e na Áustria, dois mercados em que a fabricante de chocolates enfrentou alguns de seus maiores desafios recentes.
“O conselho também deveria ser alvo de questionamentos: acreditamos que poderia ter intervindo mais cedo, especialmente considerando a ampla experiência de Lechner na Alemanha e na Áustria”, afirmou Bertschy.
A Lindt também nomeou novos responsáveis pelas operações na Alemanha e na Áustria como parte das mudanças na gestão.
No fim de setembro, a companhia reduziu pela segunda vez sua projeção de crescimento das vendas para 2026 e se comprometeu a baixar os preços de seus chocolates.
A empresa já havia revisado sua perspectiva em março, mas uma onda de calor recorde na Europa fez com que as vendas ficassem abaixo do esperado.
