Quando não há fechamento completo do espaço aéreo ou proibição de sobrevoo por parte de governos estrangeiros — medidas relativamente raras —, as companhias aéreas precisam decidir por conta própria por onde voar. Elas enfrentam um conjunto de recomendações que muitas vezes divergem entre si, emitidas por órgãos reguladores, agências de inteligência e consultorias privadas de segurança.
Em alguns casos, os desvios acrescentaram horas ao tempo de voo. Em outros, as companhias optaram por rotas alternativas mais curtas, mas que também envolvem riscos.
Este ano trouxe um desafio sem precedentes para encontrar trajetos seguros, segundo Mark Zee, fundador da OpsGroup, grupo independente de consultoria em segurança da aviação sediado em Nova York.
“A discussão não é mais sobre o que é 100% seguro, mas sobre o que representa o menor risco”, afirmou Zee, ex-piloto e despachante de voos. “E, claro, menor risco não significa baixo risco.”
Veja alguns exemplos de como as rotas aéreas foram alteradas:
Voo 198 da British Airways: Mumbai a Londres
Neste ano, a British Airways passou a operar alguns de seus voos pelo espaço aéreo da Arábia Saudita, que, apesar dos repetidos ataques iranianos, foi considerado relativamente seguro pelas autoridades de segurança da aviação. Os recentes ataques dos houthis mudaram esse cenário e levaram a companhia a utilizar mais rotas pela Ásia Central.
O novo trajeto evita o espaço aéreo saudita e não alterou o tempo total de viagem. Mas também envolve riscos próprios, como a possibilidade de os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia se estenderem à região ou de novos desdobramentos do conflito na fronteira entre o Talibã e o Paquistão. O Afeganistão também não conta com um sistema de controle de tráfego aéreo em operação.
Voo 162 da Air India: Londres a Nova Délhi
As companhias aéreas da Índia, atualmente proibidas de entrar no espaço aéreo do Paquistão, têm poucas alternativas para seus voos com destino à Europa.
Depois de inicialmente utilizar uma rota pelo centro da Arábia Saudita, a Air India passou a escolher um trajeto que se aproxima mais da fronteira norte da Índia e da região de Damasco, na Síria.
Embora alguns órgãos reguladores classifiquem trechos dessa rota como inseguros, ela se tornou uma alternativa cada vez mais utilizada nas últimas semanas por companhias como Emirates, Qatar Airways e Turkish Airlines para evitar a ameaça representada pela milícia houthi.
Voo 5042 da FedEx: Paris a Dubai
Não são apenas os aviões de passageiros que enfrentam dificuldades para encontrar rotas seguras. A FedEx está entre as empresas de transporte de cargas que aumentaram a duração de seus voos para chegar a destinos como Dubai.
A nova rota da gigante de logística, que passa mais perto da China para reduzir o tempo de voo nos espaços aéreos do Afeganistão e do Paquistão, acrescenta cinco horas à viagem.
“A FedEx continua monitorando a situação no Oriente Médio e ajustando suas operações para manter os serviços de e para a região”, afirmou um porta-voz da empresa.
Voos 9 e 219 da Qantas: Perth a Londres
Desde 2018, a maior companhia aérea da Austrália operava uma das rotas sem escalas mais longas do mundo: entre Perth e Londres.
A empresa abandonou esse trajeto em março, depois de fazer ajustes para voar pela Ásia Central e concluir que a distância não era viável. Desde então, a Qantas passou a operar a rota com uma parada para abastecimento em Singapura, o que acrescenta cerca de quatro horas ao tempo total da viagem.
Zee, que em 2014 estava a bordo de um avião que percorria a mesma rota sobre a Crimeia utilizada pelo voo MH17 da Malaysia Airlines quando foi abatido, fundou a OpsGroup depois que veio à tona que algumas companhias aéreas haviam recebido alertas sobre o risco de aviões de passageiros serem atingidos na região, mas não compartilharam as informações com suas equipes.
A organização reúne atualmente cerca de 10 mil integrantes, entre pilotos, controladores de tráfego aéreo e profissionais dos departamentos de segurança e operações de companhias aéreas de diferentes países.
Na semana passada, a OpsGroup afirmou que o espaço aéreo da Arábia Saudita não era seguro em nenhuma altitude.
“Não conseguimos mais encontrar uma rota com risco zero para atravessar o Oriente Médio. Simplesmente não existe”, disse Zee.
Fontes dos gráficos: Flightradar24 (dados de rastreamento de voos) e Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (recomendações sobre espaços aéreos).
Contato com os autores: Benjamin Katz (ben.katz@wsj.com), Daniel Kiss (daniel.kiss@wsj.com) e Jason French (jason.french@wsj.com).
Traduzido do inglês por InvestNews
