A doença de Newcastle é uma infecção viral altamente contagiosa que afeta os sistemas respiratório, nervoso e digestivo das aves. O foco foi confirmado pelo Ministério da Agricultura na segunda-feira, 19 de outubro. A instalação foi fechada, e a movimentação de aves foi suspensa. Segundo relatório do Itaú BBA, o episódio envolve cerca de 6 mil aves.
Em atualização divulgada nesta terça-feira, 20 de outubro, o Mapa informou que as restrições comerciais estão concentradas em dois grupos de países.
O México suspendeu as importações provenientes de todo o Brasil de aves vivas, carne e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias e aves canoras, ornamentais ou de rapina destinadas à comercialização, além de aves de companhia.
Já a China e o Chile limitaram as restrições a Santa Catarina. No caso chinês, a medida abrange a carne de aves. A restrição chilena inclui ovos férteis, ovos SPF — produzidos livres de patógenos específicos —, pintinhos de um dia, aves ornamentais, carne fresca de aves, ovos para consumo humano e produtos cárneos que contenham carne fresca de aves.
Segundo o ministério, a negociação com a China permitiu evitar a suspensão das importações provenientes de todo o território brasileiro.
O Mapa afirmou que mantém contato com as autoridades sanitárias dos países importadores para fornecer informações técnicas sobre o foco e as medidas de controle adotadas. A situação dos demais mercados continua em monitoramento, e novas atualizações serão divulgadas quando houver confirmações oficiais.
A MBRF não comentou diretamente o caso à Bloomberg e direcionou as consultas à Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), sob o argumento de que o assunto envolve todo o setor.
Em comunicado, a ABPA e as entidades catarinenses ACAV e Sindicarne afirmaram que não há riscos associados ao consumo dos produtos. As organizações destacaram que o Brasil possui protocolos de vigilância, prevenção, contenção e controle de doenças animais.
Impacto limitado para JBS e MBRF
O JPMorgan avalia que o surto de doença de Newcastle deve provocar restrições temporárias às exportações brasileiras de carne de aves, mas com impacto menor do que o inicialmente temido sobre a JBS (JBSS3) e a MBRF (MBRF3).
O banco compara o episódio ao surto registrado em 2024, quando as exportações brasileiras de frango recuaram cerca de 100 mil toneladas, ou aproximadamente 25%, no mês em que os embarques foram bloqueados. Na ocasião, os volumes se recuperaram rapidamente, sem prejuízos relevantes ao Ebitda — indicador que mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — das empresas.
A adoção de restrições sanitárias regionalizadas por parte de alguns importadores também pode limitar os efeitos comerciais. A decisão da China de restringir as compras a Santa Catarina, em vez de todo o Brasil, reduz a abrangência geográfica do bloqueio, embora mantenha o mercado chinês fechado para os produtos provenientes do estado.
Segundo o JPMorgan, Santa Catarina responde por aproximadamente 10% a 20% das exportações de frango da JBS, por meio da Seara, e da MBRF. A rapidez na contenção do surto e a evolução das negociações com os países importadores serão determinantes para a dimensão dos efeitos sobre as companhias.
Santa Catarina concentra preocupação com exportações
Apesar da avaliação de impacto limitado para os frigoríficos, o Itaú BBA afirma que o episódio exige acompanhamento atento, sobretudo pela importância de Santa Catarina para a indústria avícola brasileira. Segundo o banco, o estado responde por cerca de 22% das exportações de carne de aves do país e 13% do volume de abates. No Rio Grande do Sul, essas participações são de 13% e 11%, respectivamente.
Santa Catarina respondeu por aproximadamente 23% das exportações brasileiras de carne de frango entre janeiro e setembro de 2026.
O Itaú BBA lembra que o surto anterior de doença de Newcastle no Brasil ocorreu em Anta Gorda (RS), em julho de 2024. Na ocasião, o foco foi rapidamente contido, sem novos casos identificados. O Brasil recuperou o status de livre da doença após o período de espera de 90 dias reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).
A recuperação desse status sanitário, porém, não significa necessariamente o fim imediato das restrições comerciais. A China, por exemplo, manteve limitações às importações de aves do Rio Grande do Sul até janeiro de 2026, mesmo após o episódio anterior.
Para o Itaú BBA, os principais fatores a acompanhar são a contenção do surto e as decisões dos países importadores. As restrições podem variar de proibições concentradas em determinadas regiões ou unidades de processamento até suspensões que abrangem um estado inteiro ou todo o território brasileiro.
Exportações podem voltar em dezembro
Em meio às restrições provocadas pelo novo foco, o Itaú BBA aponta uma perspectiva positiva para as vendas brasileiras à União Europeia. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as autoridades europeias devem concluir até novembro a revisão das condições sanitárias das instalações brasileiras, após auditorias técnicas favoráveis. Com isso, as exportações poderiam ser retomadas já em dezembro.
A retomada depende da conclusão desse processo. Na avaliação da associação, a questão é predominantemente burocrática, e não técnica, uma vez que os produtores brasileiros teriam demonstrado conformidade com as exigências sanitárias do bloco.
A União Europeia representa cerca de 5% das exportações brasileiras de carne de aves. Apesar da participação limitada, é considerada um mercado de maior valor agregado e pode absorver parte da oferta adicional esperada para os próximos trimestres.
A perspectiva de retomada ocorre em um momento importante para o setor, que busca recuperar o acesso ao mercado europeu após se adaptar a novas exigências relacionadas aos medicamentos utilizados na criação de animais.
Custos pressionam margens dos frigoríficos
Além das restrições comerciais, os frigoríficos enfrentam pressão sobre as margens de exportação. Segundo o Itaú BBA, os spreads — diferença entre os preços de venda e os custos relevantes para a operação — recuaram 6 pontos percentuais em outubro até o momento, na comparação mensal.
O movimento reflete uma queda de 2,8% nos preços de exportação da carne de aves e uma alta de 3,4% nos custos dos grãos utilizados na alimentação animal, considerando uma defasagem de dois meses.
As ações do setor também reagiram negativamente à notícia do surto. Na segunda-feira, 19 de outubro, a JBS recuou 1% em Nova York, enquanto a MBRF caiu 4,1% em São Paulo.
