Economia

Bill Gates diz que mundo não está preparado para impacto da IA

Bill Gates afirmou que a inteligência artificial pode provocar uma onda de mudanças no mercado de trabalho e criticou a falta de preparação de governos, empresas e sociedade para lidar com os efeitos da tecnologia. Em ensaio publicado nesta quarta-feira, o cofundador da Microsoft disse que a IA pode substituir trabalhadores em diferentes setores, reduzir...

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Bill Gates afirmou que a inteligência artificial pode provocar uma onda de mudanças no mercado de trabalho e criticou a falta de preparação de governos, empresas e sociedade para lidar com os efeitos da tecnologia.

Em ensaio publicado nesta quarta-feira, o cofundador da Microsoft disse que a IA pode substituir trabalhadores em diferentes setores, reduzir as contratações para cargos de entrada e obrigar governos a rever políticas de emprego, educação e proteção social.

“Não há um plano para facilitar a entrada na era da IA”, escreveu Gates, que classificou a transformação como uma possível “convulsão social, política e econômica”.

Para o bilionário, a velocidade de evolução da tecnologia torna o momento diferente de outras grandes transformações tecnológicas. A IA pode ser adotada rapidamente porque funciona em dispositivos já disponíveis e utiliza linguagem natural, o que pode levar a mudanças profundas na economia em cerca de uma década.

“A IA será o maior equalizador já inventado ou a pior fonte de injustiça”, escreveu. “O desafio é monumental. Mesmo nas melhores circunstâncias, a transição para essa nova era da IA será um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade.”

Segundo Gates, não há “evidências de que líderes, especialistas e comunidades estejam enfrentando adequadamente os desafios”.

Empregos sob pressão

No ensaio, Gates apontou três grandes desafios: o impacto da IA sobre os empregos; sua capacidade de permitir que pessoas causem mais danos, incluindo a criação de armas biológicas e vírus de computador; e os prejuízos que ela poderia causar aos relacionamentos humanos e ao desenvolvimento infantil.

Gates afirmou que a IA pode substituir trabalhadores em diferentes setores da economia, reduzir as contratações para cargos de entrada e obrigar governos a repensar políticas de emprego, educação e proteção social.

Para ele, a IA pode substituir o trabalho cognitivo humano em diferentes setores em uma velocidade maior do que a capacidade dos trabalhadores deslocados de migrarem para novas funções.

“Precisamos de tempo para nos preparar para o período de convulsão social, política e econômica em que estamos prestes a entrar”, escreveu.

Gates afirmou que empregos de escritório já estão sendo afetados, com áreas como vendas, atendimento ao cliente, engenharia de software e serviços jurídicos entre as primeiras a sentir os efeitos. A IA também poderá assumir tarefas como avaliação de empréstimos, análise de dados e triagem de pacientes, acrescentou.

Os trabalhadores que exercem funções manuais também enfrentarão pressão à medida que robôs mais capazes ficarem mais baratos, segundo Gates. Jovens que estão entrando no mercado de trabalho, por sua vez, correm o risco de encontrar menos oportunidades, principalmente em cargos de entrada.

A combinação de IA e robótica pode criar um “ciclo vicioso”, segundo Gates. Empresas que adotarem essas tecnologias poderão reduzir custos e preços, pressionando concorrentes a fazer o mesmo. O resultado seria uma adoção cada vez mais rápida, com menos empregos disponíveis e maior pressão sobre os trabalhadores.

Imposto sobre robôs

Gates defende que os governos comecem a preparar mecanismos para lidar com a perda de empregos antes que ela se intensifique. Uma das propostas é criar uma espécie de “imposto sobre tokens de IA e robôs”.

Isso porque o sistema tributário atual cria um incentivo para a substituição de trabalhadores por máquinas. Quando uma empresa contrata uma pessoa, paga impostos sobre a folha de salários. Já a compra de um robô pode ser contabilizada como despesa empresarial.

Uma tributação sobre essas tecnologias poderia reduzir o ritmo de substituição de trabalhadores e gerar recursos para programas de requalificação profissional e para fortalecer a rede de proteção social. Gates ressalva que a cobrança precisaria ser direcionada para não prejudicar usos benéficos da IA, como tornar medicamentos e educação mais baratos.

Trabalhos que deveriam ser preservados

Outra proposta de Gates é criar um conceito que chama de “Human Reserved”, ou “Reservado aos Humanos”: atividades que poderiam permanecer sob responsabilidade de pessoas mesmo quando robôs e sistemas de IA fossem tecnicamente capazes de realizá-las.

Ele cita como exemplo o cuidado de idosos. Gates lembra da equipe que cuidou de seu pai nos estágios finais do Alzheimer e afirma que havia algo naquele cuidado que era insubstituivelmente humano”.

Na área da saúde, ele questiona, por exemplo, se um robô deveria ser responsável por informar a um paciente que ele tem uma doença incurável, mesmo que tecnicamente seja capaz de fazê-lo. Educação e saúde mental também poderiam combinar profissionais humanos com ferramentas de IA.

Gates reconhece que a ideia ainda levanta questões que precisam ser discutidas, como quem decidiria quais atividades devem permanecer reservadas aos humanos e quais critérios seriam usados para isso.

Para Gates, os governos também precisarão criar novas estruturas para coordenar os efeitos da IA sobre emprego, educação, tributação, energia, eleições, saúde pública, sistema financeiro e segurança nacional.

Ele defende ainda uma organização internacional para a IA, já que muitos dos riscos ultrapassam fronteiras. A estrutura poderia reunir elementos de mecanismos existentes, como o sistema de inspeção de armas nucleares, as regras da aviação internacional e os acordos de proteção da camada de ozônio.

Gates reconhece que não acredita ser possível desacelerar globalmente o avanço da IA. Segundo ele, os incentivos econômicos e geopolíticos são fortes demais para permitir uma pausa significativa no desenvolvimento da tecnologia.

Por isso, o cofundador da Microsoft defende que governos criem mecanismos de preparação e coordenação enquanto o desenvolvimento da tecnologia continua.

Apesar dos alertas, Gates não defende interromper o desenvolvimento da inteligência artificial. Ele afirma que a tecnologia pode acelerar avanços em áreas como energia limpa, combate às mudanças climáticas, agricultura, saúde e educação.

Na saúde, por exemplo, a IA poderia ajudar hospitais que não têm especialistas disponíveis em tempo integral e auxiliar médicos no diagnóstico. Na agricultura de países de baixa renda, poderia oferecer aos produtores informações sobre clima, sementes, doenças e qualidade do solo.

O desafio, segundo Gates, é garantir que esses benefícios sejam distribuídos de forma ampla, e não apenas entre os grupos mais ricos. Para isso, governos e organizações filantrópicas terão papel importante.



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