Economia

Após dobrar operação, CEO da Minerva diz que empresa está no tamanho ideal. Agora, precisa gerar caixa

A Minerva passou a última década montando uma operação espalhada por seis grandes produtores de carne bovina — Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Colômbia e Austrália — para reduzir a dependência de uma única origem, moeda ou mercado comprador. O frigorífico controlado pela família Vilela de Queiroz cresceu sobretudo com a compra de ativos deixados por...

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A Minerva passou a última década montando uma operação espalhada por seis grandes produtores de carne bovina — Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Colômbia e Austrália — para reduzir a dependência de uma única origem, moeda ou mercado comprador.

O frigorífico controlado pela família Vilela de Queiroz cresceu sobretudo com a compra de ativos deixados por concorrentes como JBS e Marfrig — hoje MBRF —, que reduziram sua presença na região. Foi assim que a Minerva se tornou, segundo a própria companhia, a maior exportadora de carne bovina da América do Sul.

A expansão, porém, deixou uma conta elevada. A Minerva encerrou junho com dívida líquida de R$ 14,4 bilhões, equivalente a 2,9 vezes o resultado operacional (Ebitda). Com os juros atuais, a própria empresa considera mais adequado reduzir essa relação para cerca de 1,7 vez.

Depois de quase dobrar de tamanho em quatro anos, a Minerva afirma ter chegado perto do porte ideal. Agora, põe novas aquisições de frigoríficos de lado e reduz os dividendos para transformar a estrutura construída em caixa e diminuir a dívida.

O pitch

A Minerva reuniu analistas e investidores em Barretos, no interior de São Paulo, a mais de 400 quilômetros da Faria Lima. Realizado durante a tradicional Festa do Peão, o encontro misturou churrasco e chope com apresentações corporativas e discussões sobre o comércio internacional de carne.

A escolha da cidade não se deveu apenas ao festival: Barretos também abriga a sede da companhia.

“A diversificação geográfica é o nosso hedge”, afirmou o CEO, Fernando Galletti de Queiroz. Em outras palavras, a proteção da Minerva contra as oscilações do mercado não está em um instrumento financeiro, mas na possibilidade de produzir e vender carne a partir de diferentes países.

A Minerva reuniu analistas e investidores em Barretos, no interior de São Paulo, dentro da Festa do Peão. Foto: Raquel Brandão/InvestNews

A vantagem, porém, vem acompanhada de riscos. A China estabeleceu cotas por país e uma tarifa adicional para os volumes que excederem esses limites; os Estados Unidos ainda não definiram completamente suas regras de importação; e o custo de manter estoques elevados pressiona o caixa da companhia.

A geração de caixa e a dívida estão hoje entre as principais preocupações dos analistas que acompanham a Minerva.

Mas essa rede de frigoríficos na América do Sul, defende o comando da empresa, permite deslocar a produção conforme os preços do gado, a demanda e as condições comerciais de cada país.

A aposta é que a região se consolide como uma das principais plataformas mundiais de produção e exportação de carne bovina, enquanto Estados Unidos e Europa enfrentam limitações estruturais de oferta.

Embora também tenha uma operação na Austrália, Queiroz defende que a Minerva não seja vista como uma empresa brasileira com ativos no exterior, mas como uma companhia de alcance sul-americano.

Potencial argentino

Dentro da plataforma sul-americana, a Argentina é o país com maior potencial de crescimento, segundo os executivos da Minerva. A operação responde por cerca de 10% da receita bruta, participação semelhante à de Paraguai e Uruguai.

A produção e o abate vêm aumentando, enquanto a Minerva amplia a capacidade e a utilização de suas fábricas. O preço da carne argentina também subiu mais do que o de outras origens, impulsionado pela demanda dos Estados Unidos. Essa combinação pode elevar o peso do país nos resultados do grupo.

A Argentina recebeu uma cota adicional de 30 mil toneladas para os Estados Unidos e, segundo a Minerva, não enfrenta, por enquanto, restrições decorrentes da salvaguarda chinesa. O país também pode ser um dos primeiros da América do Sul a obter acesso ao Japão.

A companhia acompanha ainda uma possível abertura da Coreia do Sul, que importa cerca de 60% da carne bovina que consome e tem Estados Unidos e Austrália como principais fornecedores. O Brasil poderia competir principalmente em preço após ser reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação.

A China continuará estratégica, apesar das salvaguardas previstas para durar três anos. Já nos Estados Unidos, a queda da produção doméstica aumentou a demanda por carne importada, mas tarifas, cotas e regras de entrada ainda não estão totalmente definidas.

Essa incerteza influencia a gestão dos estoques e o destino das cargas. No fim de junho, a Minerva contabilizava R$ 4,8 bilhões em estoques. Incluídos os produtos em trânsito que ficavam fora dessa conta pelas regras contábeis, o valor se aproximava de R$ 5,3 bilhões.

A empresa passou de pouco mais de 1 milhão de cabeças abatidas em 2008 para 5,8 milhões nos últimos 12 meses. No mesmo período, a receita líquida chegou a R$ 57,2 bilhões, ante menos de R$ 30 bilhões em 2022. “Praticamente dobramos a empresa em quatro anos”, afirmou o diretor financeiro Edison Ticle.

Boa parte do avanço veio de aquisições, sobretudo dos ativos da antiga Marfrig. Com a operação, o Brasil passou a representar cerca de 57% da receita bruta.

A alavancagem, que chegou a 3,7 vezes após o negócio, recuou com a captura de sinergias e um aumento de capital, mas ainda encerrou junho em 2,9 vezes, um nível que ainda causa desconforto entre os investidores.

Cortar dívida

Para Ticle, o atual nível de alavancagem ainda é alto diante dos juros atuais. A Minerva considera adequado limitar as despesas financeiras a cerca de 35% do resultado operacional (Ebitda), o que exigiria reduzir a relação entre dívida líquida e resultado operacional para aproximadamente 1,7 vez.

A companhia estima alcançar um nível mais confortável entre 18 e 29 meses, desde que consiga gerar caixa e direcioná-lo ao pagamento de dívidas. Até lá, pretende distribuir apenas o dividendo mínimo obrigatório de 25% do lucro, ante os 50% pagos quando a alavancagem estava abaixo de 2,5 vezes.

Além de reter dividendos e usar o caixa para amortizar dívidas, a Minerva mantém abertos processos de venda de imóveis e da usina de biodiesel. A companhia afirma que não precisa se desfazer dos ativos, mas fará os negócios se receber propostas consideradas adequadas.

O caixa, porém, ainda não apareceu. No segundo trimestre, a Minerva gerou R$ 1,23 bilhão de Ebitda, mas consumiu mais de R$ 1 bilhão em capital de giro e teve fluxo de caixa livre negativo em R$ 611 milhões. Depois de consumir cerca de R$ 1,3 bilhão de caixa no primeiro semestre, espera gerar algo em torno de R$ 2,5 bilhões na segunda metade do ano.

A normalização de estoques, recebíveis, fornecedores e investimentos em confinamento poderia liberar cerca de R$ 3 bilhões. Parte dos recursos será usada para reduzir a dívida.

Neste ano, a Minerva recomprou mais de R$ 1 bilhão em títulos no exterior por 88% a 89% do valor de face e também fez recompras no mercado local. Um desconto que ajuda no processo de redução de dívida.

O foco na desalavancagem marca o fim de um ciclo de expansão. Segundo o CEO Fernando Galletti de Queiroz, a companhia chegou “muito próximo” do tamanho planejado, e novas aquisições de frigoríficos estão “praticamente fora” do plano.

O crescimento agora deve vir de confinamentos, parcerias com produtores e negócios de importação, distribuição e processamento mais próximos dos clientes.

A aposta continua sendo o crescimento da América do Sul e a abertura de mercados como Japão e Coreia do Sul. Antes disso, porém, a Minerva precisa lidar com as restrições chinesas, a indefinição nos Estados Unidos, os estoques elevados e a dívida.

Não é pouco. Ticle diz dormir e acordar “pensando nos estoques”.



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