“Embora os dados de inflação deste verão tenham vindo melhores do que o esperado, eles não me dizem que as tendências subjacentes melhoraram de forma significativa”, afirmou.
Warsh disse que o Fed precisa ter certeza de que a inflação está caindo de forma consistente em direção à meta de 2%. Caso contrário, o banco central poderá ter que voltar a subir os juros.
“Caso contrário, temos trabalho a fazer. Esse é o nosso trabalho, nosso mandato e nossa responsabilidade”, disse.
A fala foi interpretada pelos mercados como um sinal de que o ciclo de alta dos juros pode não estar definitivamente encerrado. A possibilidade ganhou força justamente em um momento em que investidores vinham esperando que o Fed pudesse reduzir os juros.
Mercado aumenta chance de alta em setembro
Os mercados reagiram principalmente no mercado de títulos. O rendimento do Treasury de dois anos, considerado mais sensível às expectativas para a política monetária americana, chegou a 4,30%, ante cerca de 4,23% antes do discurso de Warsh.
Os juros dos títulos sobem quando os preços dos papéis caem. O movimento indica que investidores passaram a exigir uma remuneração maior diante da possibilidade de uma política monetária mais restritiva.
No mercado acionário, a reação foi mais moderada. As bolsas americanas oscilaram durante o discurso, enquanto o Dow Jones operava em alta de cerca de 0,1%.
Segundo dados do CME Group, a probabilidade de uma alta dos juros na reunião de setembro chegou a 45,7%, cerca de 10 pontos percentuais acima do registrado no dia anterior.
Para Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union, Warsh “abriu a porta” para uma alta dos juros. “Uma alta provavelmente não virá em setembro, mas virá em outubro ou dezembro”, afirmou.
Inflação ainda está acima da meta
A preocupação de Warsh ocorre porque a inflação americana continua acima do objetivo do Fed.
O índice de preços de gastos de consumo pessoal (PCE), principal indicador de inflação acompanhado pelo banco central, mostrou que o núcleo da inflação — que exclui alimentos e energia, itens mais voláteis — avançou 3,3% em julho na comparação anual.
A taxa está bem acima da meta de 2% perseguida pelo Fed.
Warsh afirmou que os dados mais recentes, embora melhores que o esperado, ainda não permitem concluir que a tendência da inflação tenha melhorado de maneira significativa.
O presidente do Fed também disse que os preços dos ativos mostram confiança de que o banco central conseguirá garantir a estabilidade dos preços.
“E posso assegurar que eles estão certos”, afirmou.
Economia americana ainda mostra força
Apesar da preocupação com a inflação, Warsh demonstrou confiança na economia dos Estados Unidos, que, segundo ele, “parece ter se fortalecido”.
O presidente do Fed citou os efeitos positivos da inteligência artificial e afirmou que os gastos de empresas e consumidores continuam sustentados.
Warsh reconheceu uma desaceleração nas contratações, mas atribuiu parte do movimento a uma estabilização da oferta de trabalhadores.
No mercado de commodities, o petróleo também recuava durante o discurso. O barril do Brent era negociado abaixo de US$ 88.
Já as ações de empresas de tecnologia e semicondutores operavam sob pressão, após resultados da Marvell Technology decepcionarem investidores. A companhia aumentou sua previsão de resultados e registrou crescimento de receita e lucro, mas suas ações caíram, em mais um sinal das expectativas elevadas sobre empresas ligadas à inteligência artificial.
Warsh rejeita “manual” para os juros
Além de discutir a inflação, Warsh aproveitou o discurso para explicar sua visão sobre a condução da política monetária e a comunicação do Fed.
Desde que assumiu o comando do banco central, em maio, o presidente tem defendido uma comunicação mais discreta com o mercado e criticado a chamada forward guidance, prática pela qual o Fed fornece indicações antecipadas sobre o provável caminho dos juros.
Logo no início do discurso, Warsh brincou que suas declarações poderiam ser chamadas de “esboço” ou “mapa”, mas não de forward guidance. Segundo ele, essa prática “já passou do seu prazo de validade”.
Warsh defendeu um Fed “mais silencioso e mais objetivo”, argumentando que os investidores não deveriam depender de cada declaração dos dirigentes para tomar decisões.
“O Fed desempenha um papel essencial na economia e nos mercados. Nossas ferramentas são poderosas. Determinamos o caminho das taxas de juros de curto prazo. E os participantes do mercado sempre tentarão antecipar o que faremos a seguir”, afirmou.
“Mas não deveríamos incentivar um regime em que os participantes do mercado olhem principalmente para o Fed em busca de sua próxima operação.”
A postura de Warsh contrasta com a expectativa de parte do mercado de que o presidente aproveitasse Jackson Hole para apresentar uma espécie de “manual” sobre como o Fed reagirá aos próximos dados econômicos.
Warsh reconheceu a cobrança para que o banco central apresente uma “função de reação” — uma indicação mais clara de quais resultados de inflação, emprego ou atividade poderiam levar a uma mudança nos juros.
Ele, porém, rejeitou a ideia de estabelecer uma regra rígida.
Segundo o presidente, o conhecimento disponível atualmente não é suficiente para determinar uma fórmula que indique automaticamente a resposta do Fed. Para Warsh, os fatores relevantes para a política monetária mudam ao longo do tempo.
“Em meu mandato como presidente, meus colegas e eu buscaremos construir modelos mais confiáveis e regras mais robustas para orientar as decisões de política monetária”, afirmou.
Ele acrescentou que a precisão nas previsões econômicas ainda é uma “aspiração”, diante das rápidas mudanças na geopolítica, nas cadeias globais de suprimentos e na tecnologia.
A postura representa uma mudança em relação a seus antecessores. No encontro de Jackson Hole do ano passado, o então presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizou que as condições poderiam justificar cortes de juros, o que ajudou a impulsionar uma forte alta das bolsas americanas. Agora, Warsh deixa uma mensagem diferente: a inflação ainda não está sob controle e o Fed não descarta voltar a apertar a política monetária.
*Com agências internacionais
