Mas governos só entram em “evento de crédito” para valer em caso de dívida externa. Quando a dívida é na moeda do país risco é diferente – ainda que não menos grave.
No limite, o Estado emite moeda para pagar. O problema: isso causa hiperinflação – 50% ao ano, 300%, 1.000%, como acontecia nos anos 1980.
Na prática, é um calote via desvalorização da moeda. Mas se você comprou Tesouro IPCA+ para o longo prazo está protegido até contra isso, certo?
Em boa parte, sim.
A proteção e a renda extra, para quem segura até o vencimento seguem. Em um cenário hipotético, com uma inflação de 50% ao ano, por exemplo, e juro real de 8%, o retorno nominal desse título seria de 62% em um ano (e não de 58%) – é que os 8% incidem sobre um patrimônio já corrigido pelo IPCA. Um hiperinflação não dilui o ganho extra como parece à primeira vista.
Mas há um problema. O Imposto de Renda (IR) no Tesouro Direto é calculado em cima do ganho nominal – sem distinção do que foi ganho real do que foi só reposição da inflação.
Isso gerar uma distorção. Em prazos longos, os juros compostos compensam essa mordida. Nos mais curtos, existe uma pegadinha: um ponto em que o IR pode consumir todo o ganho real e fazer com que um Tesouro IPCA+ termine rendendo menos que a inflação.
É esse limite que vamos testar abaixo.
O limite da proteção do Tesouro IPCA+
Para testar essa brecha, simulamos o seguinte: uma aplicação de R$ 10 mil em Tesouro IPCA+ e juro real de 8% ao ano. Vamos considerar vencimento em dois anos e 15% de IR.
Nesse cenário, você só vai ter algum ganho real se a inflação ficar abaixo de 318% a.a. Passou desse patamar, a renda cai a IPCA+0% ao fim de dois anos. O ganho real de 8% é todo comido pelo imposto.
Acima disso, mantendo o prazo de dois anos, começa perda real – devagar, mas acontece. O processo é tão lento que a simulação vale mais como uma curiosidade matemática, mas vale para ilustrar. Com inflação de 12.875% ao ano, por exemplo, os R$ 10 mil terminariam equivalendo a R$ 9,9 mil em dinheiro de hoje.
O saldo nominal seria gigantesco, mas o imposto sobre esse ganho faria o retorno líquido ficar abaixo da inflação.
O que muda essa conta é o prazo
Agora, o contrário. Quanto mais longa a aplicação, mais os 8% de juro reais trabalham sobre um patrimônio também corrigido pelo IPCA. É o efeito dos juros compostos no tempo.
Por isso, a vulnerabilidade desaparece pouco depois dos dois anos, mesmo em cenários catastróficos. Com IPCA+8% e IR de 15%, o ponto de virada ocorre em dois anos e um mês. A partir daí, nas condições da simulação, uma inflação levada a níveis extremos pode até reduzir o retorno real líquido, mas não torná-lo negativo apenas pelo efeito do imposto.
Em cinco anos, no limite, os R$ 10 mil aplicados a mesma taxa de juro real alcançariam R$ 12,49 mil em dinheiro de hoje, um ganho real acumulado de 24,9%, ou 4,5% ao ano.
Em dez anos, o retorno real líquido tenderia a cerca de 6,3% ao ano.
Ou seja, quanto maior o prazo, menor o peso da tributação sobre o juro real contratado.
Em outros palavras, o problema não é simplesmente uma “inflação alta demais”. O resultado depende da combinação entre inflação, tributação e prazo.
E a Selic?
Num cenário real de hiperinflação, o maior problema seria o seguinte: um papel que paga IPCA+8% quase não teria valor de mercado longe do vencimento. Simplesmente porque os investimentos que seguem a Selic/CDI provavelmente pagariam bem mais do que isso.
Em 1989, por exemplo, o placar foi Inflação 1.973% X 2.233% CDI. Em termos de ganho real, isso dá IPCA+12%. Ou seja, num cenário de hiperinflação nem haveria demanda para títulos IPCA+. O mercado se concentraria no pós-fixado – e em moeda estrangeira, a proteção clássica dos países hiperinflacionados.
De novo: as simulações que vimos aqui são só um exercício matemático de situações extremas – não realistas. Mas elas têm um propósito. Mostram que, mesmo sob condições surrealistas de inflação, o Tesouro IPCA+ ainda oferece uma a proteção robusta para horizontes longos. É por isso, no fundo, que esse título existe.
