A principal associação siderúrgica do Brasil alertou que as importações continuam sendo uma ameaça, mesmo com a previsão de que as compras externas caiam 15% neste ano após medidas antidumping contra a China.
“Isso não é um problema temporário ou cíclico — é estrutural”, disse Marco Polo De Mello Lopes, presidente-executivo da Aço Brasil, durante o encontro anual da entidade, realizado nesta semana em São Paulo. Ele defendeu novas medidas do governo para proteger o mercado doméstico.
As importações de aço laminado pelo Brasil devem cair em 800 mil toneladas, para 4,9 milhões de toneladas em 2026, segundo a Aço Brasil. Ainda assim, o volume seria mais que o dobro da média anual registrada pelo país entre 2000 e 2019, evidenciando a pressão contínua causada pelo excesso de capacidade global e pelo aço chinês barato.
O protecionismo se espalhou pelo setor siderúrgico mundial nos últimos anos, em grande parte como resposta ao excesso de metal produzido pela China em meio à desaceleração de sua economia. As barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia ameaçam direcionar o excedente de aço para grandes mercados emergentes, incluindo o Brasil.
O aumento dos embarques de países como Vietnã, Malásia, Indonésia e Egito — alguns dos quais receberam investimentos chineses no setor siderúrgico, segundo a Aço Brasil — pode desacelerar a queda das importações brasileiras de aço até o fim do ano, disse Jorge Oliveira, CEO da operação brasileira da ArcelorMittal.
A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, Lopes afirmou que o próximo governo precisará adotar medidas de defesa comercial mais rápidas e eficazes, à medida que outros países intensificam a proteção de seus mercados domésticos.
“A agenda da indústria não muda dependendo de quem está no governo”, disse. “A prioridade máxima é recuperar o mercado doméstico, uma parcela significativa do qual foi tomada por importações comercializadas de forma desleal.”
A participação da China nas importações brasileiras de aço caiu de 64% para 50% no acumulado do ano até agosto, enquanto as importações do Vietnã aumentaram mais de cinco vezes. As importações deverão representar 18,5% do consumo brasileiro de aço neste ano, ante 22% em 2025.
O presidente do conselho de administração da Gerdau, André Gerdau Johanpetter, defendeu uma “política de Estado de longo prazo” que permita ao setor investir e competir.
Líderes das indústrias siderúrgica, automotiva e química afirmaram durante a conferência de dois dias que as medidas de proteção comercial do Brasil continuam menos restritivas do que as adotadas por outras economias.
O Brasil deverá encerrar o ano com um déficit comercial de US$ 156,8 bilhões em produtos manufaturados, segundo estimativa da Aço Brasil.
