Economia

Revés no Mais Médicos III ajuda a explicar interesse da Afya pela Yduqs

O interesse da Afya em uma fusão com a Yduqs ganhou força depois que o governo federal interrompeu uma das principais avenidas de expansão da companhia controlada pelo grupo alemão Bertelsmann: a abertura de novas vagas de medicina, segundo fontes ouvidas pelo InvestNews. Em fevereiro, o Ministério da Educação revogou um edital do Mais Médicos...

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O interesse da Afya em uma fusão com a Yduqs ganhou força depois que o governo federal interrompeu uma das principais avenidas de expansão da companhia controlada pelo grupo alemão Bertelsmann: a abertura de novas vagas de medicina, segundo fontes ouvidas pelo InvestNews.

Em fevereiro, o Ministério da Educação revogou um edital do Mais Médicos III que poderia autorizar quase 6 mil vagas em cursos privados de medicina. A decisão interrompeu um processo no qual a Afya havia encaminhado a abertura de 1.400 vagas anuais, de acordo com as fontes.

O plano envolvia abrir 28 novas turmas, cada uma com 50 alunos. O número equivaleria a uma expansão de 37% sobre as 3.768 vagas anuais de Medicina que a Afya opera atualmente.

Como o curso dura seis anos, a entrada de 1.400 alunos por ano poderia acrescentar até 8.400 estudantes à base da companhia quando todos os ciclos estivessem preenchidos.

Potencial alto

Considerando o tíquete médio líquido atual, de cerca de R$ 9,4 mil mensais, essa capacidade representaria, em uma conta simplificada, quase R$ 1 bilhão em receita anual quando os cursos atingissem a maturidade.

A própria Afya, listada na Nasdaq, explica em seus documentos regulatórios que suas duas principais formas de ampliar a oferta de medicina são receber autorização para novos cursos ou comprar instituições que já tenham vagas aprovadas.

Sem a primeira alternativa, as aquisições ganham peso. É nesse contexto que a Yduqs aparece como um alvo capaz não apenas de acrescentar escala em medicina mas também de diversificar as fontes de receita da Afya.

Nesta segunda-feira (24), Yduqs e Afya confirmaram as conversas, mas afirmaram que elas ainda estão em estágio inicial. Não há acordo, contrato ou compromisso vinculante – nem garantia de que as negociações resultarão em uma transação.

R$ 10 bilhões em receita

A Afya construiu sua estratégia em torno da jornada do médico. O negócio começa na graduação, um curso de alto tíquete, baixa evasão e seis anos de duração, e continua com preparação para residência, especializações, atualização profissional e ferramentas usadas na prática médica.

No primeiro semestre deste ano, 85% da receita de graduação da Afya veio dos cursos de medicina. As escolas médicas geraram R$ 1,5 bilhão, pouco mais de três quartos dos R$ 1,98 bilhão faturados pelo grupo no período.

A Yduqs ofereceria uma combinação diferente. Dona da Estácio, da Wyden e do Ibmec, a companhia tem uma operação muito maior no ensino superior de massa, presencial e digital. Ao mesmo tempo, já possui um braço médico relevante, o IDOMED.

O IDOMED reúne 18 escolas, cerca de 2.120 vagas anuais autorizadas e 13 mil estudantes de Medicina. No primeiro semestre, gerou R$ 694 milhões em receita e R$ 343 milhões em resultado operacional (Ebitda), com margem de 49%. A vertical respondeu por 23% da receita da Yduqs e por 35% do Ebitda ajustado.

Somadas, Afya e Yduqs tiveram receita de R$ 4,97 bilhões e Ebitda ajustado de R$ 1,89 bilhão neste primeiro semestre. Em uma anualização simples, a empresa resultante se aproximaria de R$ 10 bilhões em faturamento e R$ 3,8 bilhões em Ebitda, antes de eventuais sinergias e dos custos de integração.

Na medicina, a combinação reuniria aproximadamente 50 escolas, 5.888 vagas anuais e 39,4 mil alunos. O tamanho também tornaria a análise do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) uma das etapas centrais da operação, especialmente nos municípios em que as duas redes já concorrem.

Solução para Yduqs

Para a Yduqs, a aproximação com a Afya é mais um capítulo de uma história de negociações que nunca chegaram ao fim.

Em 2017, a Kroton – atual Cogna – tentou comprar a Estácio, antigo nome da Yduqs. A operação reuniria as duas maiores instituições privadas de ensino superior do país, mas foi vetada pelo Cade por riscos à concorrência nos cursos presenciais e a distância.

As conversas entre Cogna e Yduqs voltaram a aparecer no mercado em 2024. No ano seguinte, os presidentes dos conselhos das duas companhias chegaram a se reunir, segundo informações publicadas pela imprensa, mas novamente não houve acordo.

A Yduqs não tem acionista controlador definido e possui 90,43% das ações em circulação. Seu maior acionista é o Rose FIP, veículo de investimento ligado à gestora americana Advent International, com 15,83% do capital. Constituído em 2017, o fundo já carrega o investimento há nove anos, um prazo longo para os padrões do private equity.

A família Zaher aparece em seguida, com 14,35%, e a gestora Amundi possui outros 5,06%. Para parte dessa base acionária, uma combinação poderia destravar valor e criar uma oportunidade de liquidez em condições melhores do que a venda de grandes blocos de ações no mercado.



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Redação A Notícia 24H.