Economia

Rendimento do título de 10 anos dos EUA acima de 5,25% pode mudar relação entre ações e títulos. Entenda

Os Treasuries, títulos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos, estão se aproximando de um ponto de inflexão em que, historicamente, ações e títulos passaram a cair juntos. Isso pode indicar uma mudança no comportamento dos mercados, com mais oscilações nos preços de ações e títulos e maior risco no mercado de crédito. Não há um...

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Os Treasuries, títulos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos, estão se aproximando de um ponto de inflexão em que, historicamente, ações e títulos passaram a cair juntos. Isso pode indicar uma mudança no comportamento dos mercados, com mais oscilações nos preços de ações e títulos e maior risco no mercado de crédito.

Não há um limite exato a partir do qual o mercado muda de comportamento, mas, historicamente, os Treasuries passaram a apresentar riscos maiores quando o rendimento do título de 10 anos supera 5,25%. Nesse nível, aumentam as chances de mais oscilações nos títulos, nas ações e no mercado de crédito.

Com o rendimento do título de 10 anos acima de 5% nesta semana, a primeira pergunta é: ele continuará subindo? Os rendimentos podem parecer elevados, já que atingiram hoje os maiores níveis desde 2007, mas os Treasuries ainda não estão em um nível que indique uma forte pressão de venda. Considerando os preços e os retornos de longo prazo, eles apenas voltaram à média histórica.

Os Treasuries costumam oscilar em torno de sua média de longo prazo. Eles já voltaram a esse nível, mas normalmente passam um pouco dele antes de retornar. Isso significa que os títulos ainda podem cair mais antes de chegar a um nível considerado excessivamente baixo.

Vamos analisar o que está impulsionando os rendimentos, mas primeiro chegamos ao ponto central desta coluna: os rendimentos estão se aproximando de um nível em que ações e títulos historicamente passaram a se movimentar na mesma direção.

Houve pouquíssimos casos em que a correlação entre o S&P 500 e os Treasuries foi negativa quando os rendimentos estavam acima de 5,25%. É raro encontrar uma relação tão clara. (Uso uma medida de longo prazo, baseada em dois anos de variações semanais, porque ela é mais relevante para quem decide como distribuir seus investimentos.)

A correlação entre ações e títulos foi positiva de 2022 até o fim do ano passado, enquanto os rendimentos estavam abaixo de 5,25%, mas ficou estável durante todo este ano. É provável que volte a ser positiva se os rendimentos continuarem subindo.

É nesse momento que os títulos deixam de funcionar como proteção para as ações. Em vez de compensar as perdas da bolsa, os Treasuries podem passar a cair junto com ela.

O primeiro impacto seria sobre a volatilidade dos títulos. Com os Treasuries menos úteis como proteção para as carteiras, os investidores ficam mais preocupados com os preços e mais sensíveis às compras e vendas no mercado. Além disso, podem buscar mais proteção por meio de opções, o que tende a aumentar ainda mais as oscilações dos preços.

Durante as décadas de 2000 e 2010, período conhecido como NICE (expansão contínua sem inflação), ações e títulos costumavam se mover em direções opostas. Isso fazia dos títulos uma proteção confiável para as ações.

Mas, olhando para um período histórico mais longo, o padrão mais comum é que ações e títulos se movimentem na mesma direção. Isso acontece porque, na maior parte do tempo — e esse é o caso atualmente —, uma desaceleração ou aceleração do crescimento econômico vem acompanhada de mudanças na inflação. Quando a inflação aumenta, por exemplo, investidores podem vender tanto ações quanto títulos.

Esse padrão foi comum nos anos 1990 e também tem prevalecido nesta década. Nesses períodos, quando os rendimentos dos títulos oscilam mais, as ações também tendem a sofrer mais.

Por isso, é provável que a volatilidade dos títulos aumente. Isso é um problema para a liquidez dos Treasuries e foi justamente uma das razões apontadas pelo Tesouro dos EUA para anunciar um programa ampliado de recompra de títulos no mês passado.

As ações também podem ser afetadas. Se os títulos ficarem mais voláteis e deixarem de funcionar como proteção, os investidores terão de ajustar suas carteiras com mais frequência, o que pode aumentar as oscilações da bolsa e o VIX, índice que mede a volatilidade esperada das ações americanas.

Além disso, os investidores podem recorrer mais a opções para proteger suas carteiras contra quedas, o que também tende a elevar a volatilidade.

Outro problema é que uma maior oscilação dos títulos aumenta a incerteza sobre os juros usados para calcular quanto valem hoje os lucros que as empresas terão no futuro. Isso é importante porque as taxas de juros de longo prazo são um dos principais fatores que influenciam os preços das ações.

A baixa correlação entre as ações individuais tem ajudado a manter o VIX sob controle. Mas, se as ações começarem a se movimentar mais na mesma direção, essa proteção desaparece e o índice pode subir.

O mercado de crédito também pode ser afetado. Os juros cobrados sobre empresas de maior risco tendem a subir quando a volatilidade das ações aumenta. Por isso, se o VIX subir, os spreads — a diferença entre os juros pagos por esses títulos e os títulos do governo — também podem aumentar.

Portanto, muita coisa depende de a queda dos Treasuries estar chegando ao fim. O que poderia indicar o contrário?

A notícia do fim de semana de que os laboratórios de IA pretendem reduzir o ritmo de desenvolvimento dos modelos talvez seja uma justificativa para diminuir os gastos com infraestrutura, o que poderia prejudicar o crescimento econômico.

Mas há muitos contratos de computação já assinados que obrigam as empresas a pagar pelos serviços mesmo que não utilizem toda a capacidade contratada. Como esses contratos se estendem até o próximo ano e além, isso talvez não seja suficiente para provocar uma recuperação dos títulos no curto prazo.

Investidores de longo prazo e aqueles que protegem carteiras de títulos ligados a hipotecas podem voltar ao mercado se os rendimentos permanecerem acima de 5%. Isso ainda não aconteceu e, de qualquer forma, seu impacto pode ser apenas temporário.

A alta das commodities continua ganhando força, enquanto as interrupções no fornecimento de energia e alimentos no Oriente Médio e na Rússia não mostram sinais de melhora. A inflação pode perder força nos próximos meses, mas as pressões estruturais sobre os preços devem continuar — o que favorece rendimentos mais altos dos títulos.

Decisão do Fed

Ainda assim, é menos provável que alguém entre no mercado em grande escala antes da reunião do Federal Reserve desta quarta-feira. Paradoxalmente, uma alta dos juros poderia estimular compras de Treasuries caso seja interpretada como um sinal de que o Fed está determinado a conter a inflação. Resta saber, porém, se uma única alta seria suficiente para isso.

Por outro lado, se o Fed mantiver os juros, os rendimentos dos títulos podem continuar subindo.

De qualquer forma, os Treasuries estão próximos de um ponto de inflexão. Se o rendimento do título de 10 anos permanecer significativamente acima de 5,25% por algum tempo, as condições de negociação e os preços dos ativos poderão mudar de forma importante.

Simon White é estrategista macroeconômico e colunista da Bloomberg. As opiniões expressas são próprias e não constituem recomendação de investimento. A coluna MacroScope apresenta uma visão ampla dos principais temas macroeconômicos e de mercado, buscando ir além do ruído de curto prazo para mostrar o cenário mais amplo.



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