O tom de cautela tem sido unânime. Os bancos americanos enxergam, na maioria, mais queda do Ibovespa pela frente e o dólar entre R$ 5,50 e R$ 5,60 nas próximas semanas, acima portanto da atual cotação de R$ 5,35.
Há quem veja, entretanto, possibilidade de o cenário ganhar tons mais amenos. O comportamento dos mercados vai depender dos sinais do governo sobre equipe econômica, situação fiscal e relação com o Congresso eleito.
Goldman tem visão mais amena
Para o Goldman Sachs, a reação inicial importa menos. Nas próximas semanas será quando as regras do jogo do quarto mandato de Lula serão realmente conhecidas.
O que vai valer para definir o cenário nos próximos meses, que pode ser de aprofundamento do ambiente negativo ou de recuperação parcial dos mercados, é a sinalização do presidente reeleito sobre políticas econômica e fiscal.
Essas pistas incluem a escolha do ministro da Fazenda, o ajuste do Orçamento de 2027 (enviado ao Congresso em agosto e que ainda precisará incorporar as medidas anunciadas antes do segundo turno) e a relação com um Legislativo no qual o PL do rival Flávio Bolsonaro saiu como maior bancada na Câmara e no Senado.
O Goldman lembra, porém, que, em ciclos anteriores, como nos de 2002 e 2022, a direção dos ativos mudou conforme o mercado passou a ter maior clareza sobre os planos do presidente eleito.
No relatório, Alberto Ramos, chefe de pesquisa econômica para América Latina da instituição americana, afirma esperar, ao menos, “medidas modestas para conter o crescimento dos gastos primários e, ao mesmo tempo, um aumento da já elevada carga tributária”.
O economista ressaltou ainda que o país exibe pontos positivos aos olhos dos investidores internacionais.
“Apesar dos persistentes desafios fiscais, o Brasil mantém um regime de metas de inflação crível, um grande superávit comercial, fortes entradas de investimento estrangeiro direto, amplas reservas internacionais, baixa dívida externa, um perfil administrável de serviço da dívida externa, um sistema financeiro saudável e mercados domésticos profundos.”
Para o JPMorgan, cenário vai estabilizar
Outro banco gringo, o JP Morgan, havia elevado a recomendação para a bolsa brasileira em 5 de outubro, logo após o primeiro turno, apostando numa guinada econômica. Com a reeleição de Lula, a casa rebaixou o real e os títulos públicos locais de “overweight”, equivalente a compra, para “marketweight” ou neutro.
A equipe do economista-chefe no Brasil do JP Morgan, Vinicius Moreira, projetou queda de cerca de 20% do Ibovespa nas próximas semanas mais perto dos 170 mil pontos e o dólar a R$ 5,50.
Conforme os analistas, há oportunidade em ações de exportadoras de commodities como Suzano, Vale e Gerdau, que se beneficiam de um dólar mais forte.
O banco sugeriu, no entanto, haver a possibilidade de a turbulência ficar mais amena conforme o cenário se estabilize.
Em relatório assinado pela equipe da estrategista-chefe de America Latina e Brasil, Emy Shayo Cherman, a casa pondera que, mesmo com um cenário fiscal mais desafiador comparado a 2022, a experiência sugere que os investidores costumam se adaptar gradualmente ao novo ambiente político e econômico.
Depois de um período inicial de choque, o mercado se adapta. Os analistas lembram que após a eleição de 2022, o mercado passou a olhar, posteriormente, de maneira mais positiva para as escolhas da equipe econômica e da perspectiva na condução da política macroeconômica.
Morgan Stanley vê cenário mais difícil
Já o Morgan Stanley traçou um cenário mais duro. O banco espera que o dólar teste primeiro R$ 5,50 e avance para R$ 5,60 à medida que o prêmio fiscal for incorporado. O banco americano vê, inclusive, a possibilidade de a moeda dos EUA chegar a R$ 6, caso o mercado passe a enxergar risco de dominância fiscal.
O dólar, lembraram os analistas do banco, já sofre uma pressão de alta ante o real entre novembro e dezembro, com remessas de companhias e aquisição da moeda para viagens.
Na bolsa, o Morgan estima que o Ibovespa possa recuar a cerca de 130 mil pontos até meados de 2027, com o pano de fundo de uma deterioração fiscal contínua. A projeção equivale a uma queda adicional de 20% a 30% frente aos níveis recentes.
Outras casas ressaltam desafios no curto prazo
O Citi, por sua vez, afirmou que a pressão sobre a bolsa deve continuar no curto prazo. Apesar do aumento da volatilidade, a equipe liderada por Andre Mazini citou ações vitoriosas no cenário de reeleição: BTG Pactual, Caixa Seguridade, Copel, Cury, Embraer, Gerdau, BradSaúde, Ultrapar, WEG e Axia Energia.
Entre as casas brasileiras, o BTG Pactual projetou o Ibovespa perto de 170 mil pontos e uma desvalorização de 10% a 15% do real, o que levaria a perda da bolsa medida em dólar a cerca de 30%.
O banco também espera que os juros reais longos dos títulos atrelados à inflação voltem para acima de 8%, ante 6,7% antes do segundo turno.
Já a Capital Economics avalia que, após o ajuste dos mercados na segunda-feira, a possibilidade de o BC cortar a Selic mais duas vezes ainda neste ano ficou muito menor. Conforme o economista-chefe de mercados emergentes, William Jackson, com risco fiscais mais elevados e depreciação do real, a taxa básica fica como está , em 13,75%, até o próximo ano.
Cenário pode melhorar com medidas
Se há um consenso entre os relatórios, é que o primeiro teste para o governo será a escolha do ministro da Fazenda. O atual titular, Dario Durigan, tende a ser trocado.
O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, aparece como principal cotado. O anúncio deve sair até a posse, em 5 de janeiro de 2027.
No cenário mais benigno considerado pelas casas de análise, uma equipe econômica bem recebida pelos investidores e medidas de contenção de gastos aprovadas logo no início do mandato derrubariam o prêmio de risco tanto nos juros quanto na bolsa.
