*Por Valter Mattos da Costa
A economia comportamental utiliza a expressão “viés do presente” para descrever uma tendência bastante humana: atribuímos maior valor ao que podemos obter agora do que a benefícios que somente receberemos no futuro. Entre cem reais hoje e uma quantia um pouco maior daqui a alguns meses, não é incomum escolhermos os cem reais. O presente é concreto; o futuro, incerto. Em termos econômicos, descontamos o valor daquilo que está distante no tempo.
O conceito ajuda a compreender comportamentos aparentemente irracionais. Sabemos que deveríamos poupar, mas consumimos. Sabemos que determinada decisão nos prejudicará mais adiante, mas privilegiamos a recompensa imediata. Sabemos que precisamos realizar uma tarefa, mas adiamos o esforço porque o alívio proporcionado pela procrastinação está disponível agora, enquanto seu custo pertence ao amanhã.
Mas há um problema quando transportamos essa explicação do laboratório da economia comportamental para o mundo social. Nem sempre alguém privilegia o presente porque é incapaz de pensar no futuro. Às vezes, é a própria realidade que lhe retira o direito de planejar o futuro.
Um trabalhador precarizado, endividado e inseguro não necessariamente prefere ganhar hoje porque despreza o amanhã. Talvez simplesmente não possa esperar pelo amanhã. É nesse ponto que o viés do presente deixa de ser apenas uma questão de comportamento individual e passa a nos ajudar a pensar determinadas transformações estruturais do trabalho.
A uberização é um exemplo evidente. O dinheiro recebido hoje é visível. A ausência de férias remuneradas, proteção previdenciária, estabilidade, cobertura em caso de doença e segurança na velhice está espalhada por um futuro abstrato. A plataforma apresenta ao trabalhador o rendimento da corrida realizada há alguns minutos; não apresenta, na mesma tela, quanto aquele trabalhador precisaria reservar para compensar direitos que deixou de possuir.
Há, entretanto, uma categoria profissional cuja relação com o tempo torna essa questão particularmente interessante: os professores.
Poucas profissões são tão estruturalmente orientadas para o futuro quanto a docência.
O professor trabalha hoje para resultados que talvez não veja amanhã. Ensina uma criança a ler sem saber que livros ela lerá vinte anos depois. Apresenta História a um adolescente sem saber se aquela aula participará, muitos anos adiante, da maneira como ele compreenderá o mundo. Insiste, corrige, explica novamente, acompanha processos cujos efeitos não cabem integralmente em uma prova, num bimestre ou numa planilha.
Educar é, nesse sentido, uma espécie de aposta social no futuro.
Também por isso a carreira docente foi historicamente organizada em torno de uma temporalidade relativamente longa. Ingresso, carreira, progressão, estabilidade e aposentadoria constituíam partes de um mesmo horizonte. O professor aceitava permanecer durante décadas numa atividade reconhecidamente desgastante porque existia, ao fim desse percurso, uma expectativa institucional relativamente previsível.
É precisamente aí que entra a aposentadoria especial dos professores da educação básica.
Ela nunca deveria ser compreendida como privilégio. Sua existência decorre do reconhecimento de uma particularidade objetiva da profissão: décadas de trabalho em salas frequentemente superlotadas, uso intensivo da voz, jornadas que não terminam quando toca o sinal, preparação de aulas, correções, deslocamentos entre escolas, pressão administrativa, conflitos cotidianos e uma enorme carga psíquica e emocional.
A aposentadoria diferenciada reconhecia, portanto, algo elementar: o tempo cronológico não pesa igualmente sobre todas as formas de trabalho.
Quando reformas previdenciárias ampliam exigências, introduzem novas idades, períodos de transição e regras que tornam mais distante ou incerto o momento da aposentadoria, não estão simplesmente modificando uma equação atuarial. Estão interferindo na maneira pela qual milhões de trabalhadores imaginam o próprio futuro.
No caso docente, essa interferência contém uma contradição particularmente cruel.
Exige-se do professor que continue trabalhando para o futuro dos outros enquanto o seu próprio futuro se torna progressivamente mais distante.
A categoria cuja atividade talvez seja uma das mais contrárias ao viés do presente começa a ser empurrada para ele.
Não necessariamente porque os professores tenham mudado sua disposição subjetiva. Não porque tenham subitamente se tornado imediatistas. E muito menos porque tenham deixado de compreender a importância do planejamento de longo prazo.
O que ocorre é quase o inverso: o horizonte é que foi deslocado.
Quando alguém que imaginava aposentar-se sob determinadas condições descobre que precisará permanecer mais anos trabalhando; quando regras mudam durante sua trajetória profissional; quando aquilo que parecia uma expectativa razoavelmente segura se transforma numa variável submetida a sucessivas reformas, o futuro perde parte de sua capacidade de organizar o presente.
Surge então uma espécie de presentificação forçada.
O professor passa a perguntar menos “como estará minha carreira daqui a quinze anos?” e mais “como consigo chegar ao fim deste ano?”. Menos “como construirei minha aposentadoria?” e mais “quantos tempos de aula ainda consigo assumir para complementar minha renda?”. Menos futuro, mais sobrevivência cotidiana.
Não se trata exatamente do viés do presente descrito pelos economistas comportamentais. Nesse caso, talvez estejamos diante de algo socialmente mais grave: não é o sujeito que desconta voluntariamente o valor do futuro; são as instituições que depreciam o futuro diante dele.
E isso modifica profundamente nossa interpretação.
Porque responsabilizar o indivíduo por não planejar suficientemente o amanhã é relativamente fácil. Mais difícil é perguntar que tipo de sociedade exige planejamento de longo prazo de seus trabalhadores enquanto modifica repetidamente as condições sobre as quais esse planejamento deveria se apoiar.
No caso dos professores, há ainda uma ironia histórica.
A escola é uma das instituições por meio das quais uma sociedade tenta escapar do imediatismo. Educamos porque acreditamos que alguma coisa precisa ser transmitida para quem ainda chegará. Construímos escolas porque reconhecemos que os resultados mais importantes de uma sociedade não podem ser medidos apenas pelo retorno imediato.
O professor é, por definição, trabalhador do futuro.
Talvez por isso seja tão contraditório submetê-lo a políticas que progressivamente encurtam seu horizonte.
Uma sociedade que pede aos professores que construam o amanhã enquanto lhes retira a segurança de imaginar o próprio amanhã produz mais do que uma injustiça previdenciária.
Produz uma contradição temporal: obriga aqueles que trabalham para o futuro a viver cada vez mais presos ao presente.
*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP, editor da Dissemelhanças Editora e autor de Diário do Professor.
