A Anthropic será a primeira desenvolvedora especializada exclusivamente em modelos avançados de IA a chegar ao mercado de ações. Em seu prospecto, a empresa argumenta que investir nela equivale a investir na própria inteligência artificial. A companhia afirma que seus “ciclos de autorreforço” criarão vantagens competitivas duradouras.
“A receita proveniente da expansão da adoção por empresas nos ajuda a financiar a capacidade computacional, a pesquisa e os talentos necessários para aprimorar o Claude.
O avanço das capacidades do Claude amplia o conjunto de tarefas e fluxos de trabalho para os quais os clientes utilizam a ferramenta, expandindo nosso mercado potencial e impulsionando uma implementação mais ampla, receitas adicionais e novos investimentos contínuos no Claude”, afirmou a empresa no prospecto.
Investir na Anthropic proporcionou retornos expressivos aos investidores privados, mas a empresa chega à bolsa em um momento de incerteza para o mercado de inteligência artificial. A estimativa de Wall Street para o valor da Anthropic já caiu de US$ 2 trilhões para US$ 1,5 trilhão, segundo a Reuters.
Agora, os investidores vão analisar o prospecto para entender melhor quanto a companhia vale. Os bancos responsáveis pela operação, liderados pelo Goldman Sachs e pelo Morgan Stanley, tentarão estimular a demanda pelas ações e definir o preço da oferta.
Veja alguns pontos importantes para acompanhar esse processo.
Crescimento acelerado, mas será suficiente?
A Anthropic registrou receita de US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, ante US$ 1,2 bilhão no mesmo período do ano passado.
Como esperado, o crescimento da empresa desacelerou no terceiro trimestre. A receita aumentou 45% em relação ao trimestre anterior, chegando a US$ 16,8 bilhões no período encerrado em 30 de setembro, abaixo da expansão de três dígitos registrada no trimestre anterior, informou o The Wall Street Journal na semana passada. Essa desaceleração pode deixar alguns investidores cautelosos.
Outro ponto de preocupação: os cinco maiores clientes da Anthropic responderam por cerca de um quarto da receita nos nove meses encerrados em 30 de setembro de 2026. Muitos dos principais clientes da empresa não estão sujeitos a contratos de longo prazo.
Ainda assim, estamos falando de um ritmo de crescimento sem precedentes para uma companhia desse porte.
Um lucro ainda recente
Desenvolver inteligência artificial é caro, mas a Anthropic conseguiu registrar lucro operacional poucos anos depois do lançamento de sua família de modelos de IA Claude.
A empresa teve prejuízo de US$ 80,7 bilhões nos seis meses encerrados em 30 de junho. Cerca de US$ 72 bilhões desse resultado negativo vieram de despesas contábeis relacionadas a diferentes instrumentos de financiamento.
Por outro lado, em uma base operacional ajustada, a companhia registrou lucro de US$ 1,6 bilhão. Esse cálculo exclui a remuneração baseada em ações, contribuições beneficentes sem desembolso de caixa e uma despesa de US$ 1,5 bilhão relacionada a um processo judicial.
A Anthropic também informou fluxo de caixa operacional positivo de US$ 3,9 bilhões nesses seis meses.
Há, porém, um elefante de quase US$ 800 bilhões na sala. A Anthropic assumiu compromissos de gastar cerca de US$ 630 bilhões com capacidade de data centers e contratos de aluguel de chips nos próximos dez anos. Além disso, poderá ter de desembolsar outros US$ 145 bilhões a US$ 170 bilhões.
Receita e despesas com data centers
O gráfico apresentado na reportagem compara a receita da Anthropic com os gastos com data centers entre o primeiro trimestre de 2025 e o segundo trimestre de 2026.
Uma captação expressiva de recursos com o IPO, somada à manutenção do fluxo de caixa livre positivo, contribuiria para garantir que a Anthropic consiga pagar essas contas.
Outro fator que pode ajudar, segundo a própria empresa, é a redução dos custos de processamento computacional à medida que a receita aumenta.
Riscos ‘catastróficos’
A Anthropic talvez seja a empresa que mais se manifesta publicamente tanto sobre os benefícios quanto sobre os riscos da inteligência artificial.
O presidente-executivo, Dario Amodei, sonha em encontrar a cura para o câncer e impulsionar um crescimento anual de 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Por outro lado, ele se recusou a descartar a possibilidade de que o desenvolvimento da IA termine com a extinção da humanidade.
O prospecto não chega a esse extremo, mas se aproxima. A seção dedicada aos fatores de risco, com 94 páginas, é extensa e contundente.
“À medida que os sistemas de IA se tornam mais capazes, a gravidade potencial dos danos causados por modelos desalinhados ou utilizados indevidamente aumenta proporcionalmente. Uma ampla gama de partes interessadas, incluindo pesquisadores e formuladores de políticas públicas, manifestou preocupação de que sistemas de IA suficientemente avançados possam representar riscos catastróficos ou existenciais para a sociedade caso não sejam desenvolvidos e implementados de maneira responsável”, explicou a empresa.
Alguns analistas acreditam que a Anthropic está apenas tentando incentivar a criação de regulamentações que dificultem a atuação de seus concorrentes. Mas, como argumentou a revista Barron’s no mês passado, Amodei não é um presidente-executivo típico, disposto a fazer qualquer coisa para vencer os rivais. Há anos, ele manifesta preocupações profundas, quase apocalípticas, sobre a inteligência artificial.
Os mercados de ações não estão acostumados a lidar com equipes de gestão que acreditam que seus próprios produtos podem destruir o mundo.
A concorrência
Analistas e investidores ouvidos pela Barron’s demonstraram interesse em saber o que a Anthropic tem a dizer sobre a concorrência dos modelos de pesos abertos (open-weight), que qualquer pessoa pode baixar e executar em seu próprio equipamento.
Esses modelos geralmente são mais baratos do que os modelos proprietários da Anthropic, que exigem o uso de seu aplicativo ou serviço na internet.
A Anthropic reconhece que os modelos de pesos abertos representam uma ameaça ao seu poder de definir preços.
“Modelos de IA de pesos abertos ou de código aberto podem conquistar uma parcela do mercado em determinados casos de uso, o que pode pressionar os preços de nossas ofertas ou levar alguns clientes a adotar alternativas de código aberto para essas aplicações”, afirmou a empresa.
A solução, segundo a companhia, é desenvolver modelos com o melhor desempenho e a maior confiabilidade do setor.
“Precisamos investir continuamente em pesquisa e desenvolvimento para manter nossa posição competitiva, mas não há garantia de que esses investimentos resultarão em modelos, plataformas e aplicativos que os clientes prefiram às alternativas concorrentes”, acrescentou a Anthropic.
O que vem a seguir?
A Anthropic ainda não revelou quantas ações colocará à disposição dos investidores. Com uma avaliação esperada de US$ 1,5 trilhão, a empresa levantaria cerca de US$ 300 bilhões a menos do que a SpaceX captou em seu IPO, realizado em junho. No entanto, os esforços de captação de recursos da Anthropic provavelmente não terminarão com a oferta de ações.
As agências de classificação de risco terão bastante trabalho para avaliar a capacidade de pagamento da Anthropic. Se a empresa conquistar uma classificação de grau de investimento (investment grade), a expectativa é que ela busque realizar uma enorme emissão de títulos de dívida pouco depois do IPO, afirma Jordan Chalfin, chefe da área de tecnologia da CreditSights.
A SpaceX, por exemplo, captou US$ 25 bilhões em uma emissão de dívida poucas semanas depois de abrir seu capital.
As agências de classificação de risco devem considerar favoravelmente os US$ 132 bilhões em caixa que a Anthropic possuía em 30 de junho — valor que aumentará após o IPO. A escala da empresa e seu fluxo de caixa operacional ajustado positivo também devem contar a favor.
Por outro lado, as agências terão de avaliar os mesmos riscos que os investidores em ações estão analisando.
“Não há um histórico operacional muito extenso aqui”, afirma Chalfin sobre a Anthropic, acrescentando que o desenvolvimento de inteligência artificial é um setor “extremamente competitivo”.
