Economia

Opinião WSJ: A estratégia duvidosa de Trump para a Venezuela

Uma conferência internacional de petróleo e gás com ingressos esgotados em Caracas, na Venezuela, rendeu manchetes dramáticas na imprensa financeira na semana passada Representantes das grandes petroleiras, ao lado de muitas empresas menores, se misturaram com colegas e autoridades do governo e reclamaram da rede elétrica destroçada do país. Os jornalistas pareceram se divertir com...

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Uma conferência internacional de petróleo e gás com ingressos esgotados em Caracas, na Venezuela, rendeu manchetes dramáticas na imprensa financeira na semana passada

Representantes das grandes petroleiras, ao lado de muitas empresas menores, se misturaram com colegas e autoridades do governo e reclamaram da rede elétrica destroçada do país.

Os jornalistas pareceram se divertir com a falta de equipamentos de golfe para os executivos que queriam dar umas tacadas no country club local.

Já se passaram nove meses desde que Trump usou as Forças Armadas americanas para prender o ditador Nicolás Maduro dentro da Venezuela, levá-lo para Nova York e promover sua vice, Delcy Rodríguez.

Os venezuelanos achavam que teriam eleições. Em vez disso, as sanções americanas à venda de petróleo foram suspensas, e os dólares voltaram a fluir para o regime criminoso. A popular líder da oposição María Corina Machado quer desesperadamente voltar, mas Washington não permite.

O encontro do setor de energia foi uma ideia do governo Trump. A aposta é que, ao fazer propaganda da indústria petrolífera venezuelana mesmo com uma ditadura ainda assinando os contratos, será possível atrair capital para o país. A reconstrução das instituições democráticas viria depois.

Críticos de Trump dizem que é um erro de ordem. Eles acreditam que, antes de enterrar dinheiro de verdade em compromissos de longo prazo na Venezuela, em quantias relevantes, os investidores vão querer lidar com um governo legitimamente eleito, operando sob um sistema baseado em regras.

A história está do lado dos céticos. No mínimo, é preciso cautela ao lidar com os chavistas, que ao longo do último quarto de século “dialogaram” repetidas vezes com os democratas, como estão fazendo agora, só para depois se recusarem a largar o poder.

A cúpula de energia remeteu a uma época em que, na outrora próspera nação sul-americana, o petróleo era o motor do crescimento. Mas no resto da capital e do país, a situação continua desesperadora. A inflação de três dígitos e os apagões persistentes tornam a vida miserável para a maioria dos venezuelanos.

Rodríguez ainda mantém cerca de 324 presos políticos, e várias outras pessoas estão sob liberdade restrita. Os venezuelanos, dentro e fora do país, estão se desencantando com o governo Trump.

A equipe de Trump diz que continua pressionando por reformas políticas por meio de negociações entre o irmão de Rodríguez, Jorge, presidente da Assembleia Nacional, e a oposição. Os dois lados vêm se reunindo de forma intermitente há dois meses, e há rumores de que estão perto de um acordo sobre um Supremo Tribunal independente.

Depois disso, devem formar um conselho eleitoral independente. Se tudo correr bem, segundo algumas pessoas a par das conversas, o país poderia realizar eleições até meados de 2027.

Os venezuelanos que querem recuperar seu país se agarram a essa esperança. Mas as dúvidas aparecem quando o governo Trump não dá importância nenhuma à restauração da boa governança e, em vez disso, transforma em prioridade um boom de produção de petróleo movido a acordos secretos. Se continuar nessa direção, é provável que não consiga nem uma coisa nem outra.

Participar da conferência foi uma forma barata de as grandes empresas angariarem boa vontade com a Casa Branca. Até companhias com pouco interesse na Venezuela tinham motivo para aparecer e continuar nas graças de Trump.

Os participantes menores provavelmente queriam se aproximar dos figurões do Ministério do Petróleo, que têm poder discricionário sobre os direitos de exploração e produção dos blocos de petróleo. Acordos camaradas em troca sabe-se lá do quê são o jeito como as coisas funcionam na Venezuela.

Os venezuelanos reclamam amargamente da recente decisão do regime de conceder direitos de propriedade sobre 17 campos de petróleo à North American Blue Energy Partners, cujo sócio majoritário é Alejandro Betancourt, figura próxima do palácio. Mas, em vez de contestar o contrato fechado sem licitação, o governo Trump minou ainda mais a confiança ao ficar ele próprio com uma participação minoritária na empresa.

Num país devastado pela corrupção, isso é preocupante. Como escreveram na semana passada os analistas de petróleo M. Juan Szabo e Luis Pacheco no blog deles, Notes From the Oil Patch, vale se perguntar o que está acontecendo “quando uma empresa de porte tão limitado” quanto a de Betancourt “anuncia a compra de 50 sondas de perfuração e de um número significativo de geradores de vapor por um valor superior a US$ 1 bilhão — sem ter tornado públicos ainda o contrato nem seu plano técnico e financeiro”.

A narrativa de Trump sobre um jorro de petróleo venezuelano é, por ora, sobretudo retórica. Mesmo os contratos e memorandos de entendimento, escrevem Szabo e Pacheco, “assinados com empresas sólidas como a TotalEnergies e a Continental Resources, assim como os muitos contratos assinados com empresas sem nenhum histórico operacional, técnico ou financeiro real, vão levar tempo para se traduzir em planos de investimento, e mais tempo ainda para contribuir com aumento de produção”.

Isso significa que, “pelo resto de 2026 e boa parte de 2027, esses acordos devem permanecer na fase de avaliação de campos e de ponderação de opções antes de se chegar a uma decisão final de investimento, realizando auditorias de base, conduzindo estudos detalhados de reservatórios e resolvendo gargalos de logística e de mão de obra qualificada”.

Resultados melhores seriam possíveis. Mas não sem uma volta à democracia.



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