Autoridades têm ressaltado que precisam de sinais de que a inflação subjacente está no caminho para atingir a meta de 2% do Fed. Segundo os contratos futuros, os investidores atribuem atualmente uma probabilidade de cerca de 60% de alta dos juros na reunião de 15 e 16 de setembro.
“Os principais fatores que estão levando a inflação a ficar acima do ritmo normal são a guerra com o Irã, as tarifas e a escassez de chips. Se o Fed elevar os juros uma ou duas vezes, é pouco provável que isso altere esse cenário de uma forma ou de outra”, disse Stephanie Roth, economista-chefe da Wolfe Research.
Dois dos principais fatores de inflação neste ano — tarifas e preços de energia — não costumam responder muito à política de juros. Um terceiro, o avanço da inteligência artificial, também não parece ser muito sensível aos juros, diante dos bilhões de dólares em investimentos que continuam fluindo para o setor.
Enquanto isso, preocupações com uma inflação persistente e com o aumento da dívida do governo já elevaram os custos de financiamento para as famílias americanas.
O CPI de agosto deve mostrar uma alta de 0,4% da inflação cheia e de 0,2% do núcleo da inflação em relação ao mês anterior, segundo a mediana das projeções de economistas consultados pela Bloomberg.
Autoridades do Fed vêm emitindo sinais divergentes antes da divulgação dos dados. Alguns afirmam que chegou a hora de elevar os juros, enquanto outros ainda esperam que as pressões sobre os preços estejam diminuindo.
Veja a seguir as principais fontes de inflação e o que uma alta dos juros significaria para a economia em geral.
Choques de oferta
Os bancos centrais normalmente elevam os juros para aumentar o custo dos empréstimos, reduzir a demanda geral e conter a inflação. Mas juros mais altos não são uma ferramenta especialmente eficaz para enfrentar a série de choques de oferta recentes que elevaram os preços e reacenderam as pressões inflacionárias.
O início da guerra com o Irã, em fevereiro, levou os preços globais do petróleo para acima de US$ 100 por barril, elevando os custos dos combustíveis e pressionando a inflação cheia. Os preços elevados da energia são uma das razões pelas quais o CPI cheio de agosto deve acelerar em relação ao mês anterior.
A política comercial provocou outro choque ao elevar o custo dos produtos importados e reduzir sua oferta. O presidente Donald Trump anunciou em abril de 2025 um amplo pacote de tarifas, parte de uma série de medidas para criar barreiras comerciais que evoluíram em meio a disputas judiciais e negociações com outros países.
Muitas autoridades do Fed acreditam que o impacto mais forte dessas medidas já passou, embora estejam atentas a sinais de que as pressões sobre os preços estejam se tornando mais disseminadas — algo que poderia aumentar a necessidade de novas altas de juros.
“As evidências mostram que os efeitos das tarifas sobre os preços já foram, em grande parte, incorporados à inflação, e minha preocupação anterior de que preços mais altos de energia contaminariam os preços de muitos bens e serviços não se concretizou, pelo menos até agora”, disse o diretor do Fed Christopher Waller.
Inteligência artificial e construção
Os juros elevados estão pesando sobre o mercado imobiliário, mas têm feito pouco para conter o forte crescimento da demanda por data centers e componentes essenciais para essas estruturas.
O emprego na construção residencial vem caindo desde setembro de 2024, à medida que juros elevados e preços altos dos imóveis prejudicam as vendas. O emprego total no setor de construção, porém, atingiu um recorde em agosto, impulsionado pela contratação em segmentos especializados da construção não residencial e pela expansão da engenharia — provavelmente refletindo os investimentos relacionados à inteligência artificial.
Os anúncios de investimentos em capital, ou capex, em data centers continuam crescendo rapidamente e podem chegar a US$ 5,5 trilhões até 2030, segundo o JPMorgan Chase & Co.
Esse efeito da inteligência artificial está dificultando o trabalho do Fed, segundo economistas do Barclays Plc, ao bloquear um dos mecanismos tradicionais da política monetária: uma desaceleração do mercado imobiliário que provoque demissões na construção civil e se espalhe pelo restante da economia.
Em 2022, as vendas de imóveis despencaram quando o Fed elevou os juros. Desde então, elas permanecem em níveis baixos.
“A economia está muito menos sensível aos juros do que esteve em ciclos anteriores”, disse Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa do Barclays.
Uma análise do Barclays mostrou que as grandes empresas de tecnologia responsáveis por serviços de nuvem, conhecidas como hyperscalers, estão destinando mais de 90% do fluxo de caixa operacional à infraestrutura de inteligência artificial.
“É pouco provável que elas reconsiderem seus planos de gastos porque o custo de financiamento de um data center aumentou de 50 a 75 pontos-base”, escreveram Rajadhyaksha e Marc Giannoni, economista-chefe para os EUA, em uma nota.
Consumo e crédito
Com vários dos fatores recentes de inflação mostrando potencialmente pouca sensibilidade aos juros mais altos, autoridades do Fed podem precisar exercer mais pressão sobre um componente da economia que é afetado de forma mais imediata pelo aumento dos custos de financiamento: o consumidor.
As famílias já estão sentindo essa pressão, enquanto os mercados elevam os custos dos empréstimos mesmo sem uma nova alta dos juros pelo Fed. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 anos subiram na quarta-feira para o maior nível desde 2023. Ao mesmo tempo, as taxas das hipotecas atingiram na semana passada o maior nível em mais de um ano.
Em um momento em que a renda real está estável, uma alta dos juros poderia “pressionar para baixo as compras discricionárias, desacelerando marginalmente o crescimento”, disse Christopher Hodge, economista-chefe para os EUA da Natixis.
O Fed tem, vale lembrar, o mandato de apoiar o mercado de trabalho e controlar a inflação. Com o desemprego ainda baixo, há pressão para que as autoridades atuem sobre a inflação, disse Hodge, mas tomar a decisão correta é uma tarefa difícil.
“A responsabilidade está sobre os dados de inflação para convencer”, afirmou. “Qualquer resultado que não seja outro sinal claro de progresso será suficiente para provocar uma alta dos juros na próxima semana.”
