Taleb ecoou as preocupações do bilionário Ray Dalio de que o aumento do custo da dívida do governo americano pode colocar à prova a demanda pelos Treasuries, mas vê os investidores domésticos como um risco maior. Ele teme que aposentados e fundos americanos reduzam suas posições em títulos de longo prazo, o que seria um golpe maior para o mercado do que uma eventual perda de demanda da China ou do Japão, como alertou Dalio.
Com os rendimentos dos títulos do governo americano de longo prazo já nos maiores níveis em 24 anos, o cenário para os Treasuries é particularmente desafiador, disse Taleb, que é cientista sênior da gestora de hedge funds Universa Investments. Isso cria uma divergência potencialmente desconfortável entre a força das ações e as vulnerabilidades crescentes em outras áreas dos mercados.
O alerta ocorre no momento em que o S&P 500 fechou na terça-feira em nível recorde pela primeira vez desde agosto, impulsionado pela resiliência dos lucros das empresas e pelas perspectivas de gastos relacionados à inteligência artificial. Foi a quarta alta consecutiva do índice e sua mais longa sequência de ganhos em cerca de dois meses, enquanto os investidores deixam de lado as preocupações persistentes com a inflação.
Taleb não chegou a prever um crash. Para ele, a questão é reconhecer que os mercados podem se tornar cada vez mais frágeis antes que um evento inesperado revele essas vulnerabilidades. Um mercado caro pode continuar subindo, afirmou, e o gatilho que eventualmente provoca uma onda de vendas é, por natureza, difícil de prever.
“É errado pensar que o mercado vai cair”, disse Taleb. “É preciso pensar em termos de aumento dos riscos.”
A resposta adequada não é necessariamente assumir uma posição pessimista, mas estruturar as carteiras de modo que elas consigam suportar um choque inesperado, afirmou.
‘Armadilha’ nas ações de IA
Taleb também alertou contra a ideia de que as empresas de tecnologia que atualmente impulsionam a alta das ações necessariamente serão as grandes vencedoras do boom da inteligência artificial.
A IA pode transformar a economia, mas os investidores não sabem quais empresas acabarão se beneficiando mais, disse ele. A tecnologia pode mudar fundamentalmente o cenário competitivo e deixar para trás empresas que hoje estão na liderança.
Seria “uma armadilha investir em empresas” que se beneficiam da IA simplesmente porque a tecnologia está mudando o mundo, disse Taleb. Olhando para o passado, “as empresas que se beneficiaram não foram as pioneiras”.
Taleb também questionou até que ponto o S&P 500 é um indicador da saúde da economia americana. As maiores empresas do índice são companhias globais, disse ele, e seu desempenho não necessariamente reflete a situação financeira das famílias americanas.
“As empresas americanas são globais”, disse Taleb, argumentando que os investidores deveriam prestar mais atenção à situação das famílias de renda média do que ao nível do mercado acionário.
Para os investidores, a mensagem de Taleb não é tentar prever quando o mercado vai entrar em colapso, mas estar preparado para a possibilidade de que isso aconteça.
“Sempre tenha uma proteção contra eventos extremos, mesmo que não tenha motivo para se proteger”, disse Taleb.
