O banqueiro Ricardo Lacerda, do BR Partners, assessorava a Hypera. Em entrevista ao InvestNews, contou que encontrou Carlos num jantar na casa do empresário José Seripieri Filho, representando João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, controlador da Hypera. Ali, disse: “Esse casamento pode até acontecer, mas ele tem que ser feito pelo padre, e não pelo delegado”.
A combinação não avançou e logo a EMS encontrou outra noiva em potencial.
Em março de 2026, a EMS assinou um acordo para comprar da francesa Sanofi a Medley, concorrente que Marcus descreve como a maior que a empresa enfrentou. A operação depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A indiana Sun Pharma também participou da disputa e a possibilidade de os indianos levarem a Medley pesou na oferta de Carlos. A EMS buscava incorporar uma marca conhecida e, ao mesmo tempo, evitar que uma rival histórica passasse às mãos de um fabricante global.
A Sun, porém, também participa de uma disputa que já alterou o ranking do setor. Nos 12 meses encerrados em julho de 2026, os agonistas de GLP-1, classe que inclui Ozempic e Mounjaro, passaram do quarto para o primeiro lugar em vendas em valor no varejo farmacêutico, segundo relatório da IQVIA obtido pelo InvestNews.
A Lilly, fabricante do Mounjaro, ultrapassou a EMS e ficou em segundo, atrás da Eurofarma. Quatro apresentações do Mounjaro figuraram entre os dez produtos de maiores vendas em valor. A comparação usa preços de compra das farmácias e separa laboratórios, sem consolidar todas as empresas de cada grupo econômico.
Os genéricos continuaram crescendo: as vendas em unidades avançaram 8,43% no mesmo período. A ascensão das canetas colocou medicamentos de maior valor no centro da disputa, enquanto a EMS mantém seu negócio de grande volume.
Segundo Marcus, a EMS investiu mais de R$ 1,5 bilhão na plataforma de peptídeos, moléculas usadas nessas terapias. A empresa produz a semaglutida por síntese química, unindo aminoácidos. Em 2024, Carlos também informou ao Valor Econômico que havia tomado R$ 500 milhões em crédito do BNDES para pesquisa.
O pedido de registro do Ozivy chegou à Anvisa em 2023. A patente da semaglutida venceu em março de 2026, e a aprovação saiu em maio. Diferentemente da cópia do Viagra, o Ozivy não foi registrado como genérico: é um medicamento novo, análogo sintético de um produto biológico, indicado para diabetes tipo 2.
No levantamento da IQVIA, o Ozivy já aparecia em sétimo entre os produtos da classe em vendas em valor.
Em setembro, a Hypera lançou o Semavy, outra semaglutida. Quem fabrica o medicamento, conforme a bula, é a Sun Pharma. A concorrente da EMS na disputa pela Medley passou a fornecer uma caneta vendida pela empresa com a qual Carlos tentara se combinar.
Questionado sobre a competição com fabricantes estrangeiros, Marcus disse: “Se o indiano fez, a gente também tem capacidade de fazer”. Reconheceu, porém, que a EMS talvez não alcance os mesmos custos dos concorrentes.

As decisões sobre esses negócios passam por três primos. Marcus cuida da área comercial; Gabriel, filho de Carlos, responde por pesquisa, operações e novos negócios; Emiliano, irmão de Gabriel, por finanças, gente e gestão.
Segundo Marcus, não há CEO: os três vice-presidentes se reúnem semanalmente e procuram decidir por consenso. Quando divergem, Carlos resolve – como controlador e presidente do conselho.
Irmão de Marcus, Leonardo deixou a rotina executiva e foi para o conselho consultivo. Piloto de automobilismo, comprou em 2025 um Yangwang U9 Xtreme, superesportivo da BYD de cerca de US$ 2,5 milhões. A assinatura ocorreu num jantar na casa do apresentador Luciano Huck, com a presença do fundador da montadora, o chinês Wang Chuanfu.
Marcus, que perdeu o pai na infância e a mãe aos 24 anos, descreve o tio também como uma figura paterna. “Além de tio, ele ficou sempre como se fosse um pai para nós”, disse. Sobre a sucessão, diz ver uma tendência para que Gabriel ou Emiliano assuma a presidência. Admite ainda a possibilidade de um profissional de fora.
“Quem tem que tomar a decisão é ele”, afirmou, referindo-se a Carlos. Os primos já dividem o trabalho. A escolha de quem terá a palavra final continua com o controlador.

