Os supermercados também foram atingidos. Em algumas áreas do sul italiano, prateleiras ficaram vazias tanto pela falta de entregas quanto pela corrida dos consumidores para estocar alimentos após notícias sobre a escassez.
O impacto foi amplo porque quase 90% dos alimentos na Itália são transportados por rodovias, segundo a Bloomberg. Varejistas estimaram inicialmente prejuízos de dezenas de milhões de euros, enquanto parte dos produtos perecíveis retidos em depósitos precisou ser descartada.
Por que os caminhoneiros estão protestando?
Os caminhoneiros iniciaram as manifestações em meados de outubro, em reação à alta do diesel e ao aumento dos custos de operação. O combustível ficou cerca de um terço mais caro do que antes da guerra envolvendo Estados Unidos e Irã, segundo a Associated Press. A pressão aumentou após o fim, no início de outubro, de um desconto temporário nos impostos sobre o diesel.
Para as transportadoras, o problema não se limita ao preço nas bombas. O setor também cobra a liberação de compensações fiscais prometidas anteriormente e medidas que permitam repassar as variações do combustível aos clientes. Os custos de pedágios e do transporte de caminhões em balsas também pesam nas operações, especialmente nas rotas que ligam a Sicília e outras regiões do sul ao restante do país.
O Brasil enfrentou uma crise semelhante em maio de 2018, quando a insatisfação com os aumentos do diesel levou a uma greve nacional de caminhoneiros que durou dez dias. A paralisação provocou falta de combustíveis e alimentos e afetou a atividade econômica. Para encerrar o movimento, o governo anunciou uma redução de R$ 0,46 por litro do diesel e outras medidas para atender às reivindicações dos transportadores.
Diante da pressão, o ministro dos Transportes, Matteo Salvini, negociou com representantes das associações do setor. O governo se comprometeu a liberar créditos tributários para compensar parte dos gastos com diesel e recursos para a renovação da frota. Em 22 de outubro, o gabinete da primeira-ministra Giorgia Meloni aprovou novas medidas de auxílio para caminhoneiros, agricultores e pescadores.
A negociação, porém, não encerrou imediatamente a crise. Parte das associações nacionais considerou os compromissos suficientes para retomar o diálogo, enquanto grupos que organizavam os bloqueios no sul mantiveram os protestos. Houve relatos de pneus furados e ameaças contra motoristas que tentavam continuar trabalhando, segundo a imprensa italiana.
Na quinta-feira (22), as manifestações começaram a perder força e as entregas foram retomadas em algumas regiões. Ainda assim, o episódio já havia afetado a distribuição de alimentos e combustível, inclusive para aeroportos da Calábria.
Para Mario Piccialuti, da associação italiana da indústria de alimentos Unione Italiana Food, os efeitos da crise vão além das perdas financeiras. A falta de produtos cotidianos nos supermercados pode provocar ansiedade entre os consumidores e estimular compras por precaução, agravando a escassez.
*Com agências internacionais

