O teto busca manter o Ibovespa dentro das regras dos fundos de previdência. Eles não podem ter mais de 10% investidos em BDRs. Como as ações originais são cotadas em dólar, eles flutuam também de acordo com o câmbio; isso adiciona um risco maior – daí a restrição.
A B3 ainda vai detalhar nas próximas semanas como os BDRs serão incorporados à metodologia. Mas a negociação atual desses papéis já dá uma boa pista de quais nomes chegam melhor posicionados.
Segundo um levantamento da Eleven Financial, Nubank (ROXO34), JBS (JBSS32), Inter (INBR32) e XP (XPBR31) movimentaram mais de R$ 50 milhões por dia, em média, nos últimos três meses.
A liquidez importa porque o Ibovespa não seleciona suas empresas simplesmente pelo tamanho. Um dos principais critérios da metodologia atual é a negociabilidade do papel, que leva em conta o volume financeiro e a frequência das negociações.
E os BDRs de empresas brasileiras estão entre os mais líquidos do mercado. ROXO34 girou R$ 83 milhões por dia; JBSS32, R$ 75 milhões; INBR32, R$ 61 milhões; e XPBR31, R$ 52 milhões.
No ranking geral, estão próximos de gigantes globais da tecnologia, como Nvidia (NVDC34), Tesla (TSLA34), Amazon (AMZO34) e Microsoft (MSFT34). Os BDRs de companhias estrangeiras, porém, continuarão fora do Ibovespa.
Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial, ressalta que as primeiras posições do ranking podem mudar bastante conforme o momento do mercado. Empresas em períodos de maior volatilidade, valorização ou forte fluxo de notícias tendem a ganhar negociação, casos recentes de Micron (MUTC34) e Nvidia.
Ainda assim, os BDRs de empresas brasileiras apareceram com frequência entre os mais movimentados. Para Siqueira, a familiaridade ajuda a explicar o resultado, dado que o investidor local tende a negociar mais companhias que conhece e acompanha de perto.
Os volumes de negociação, de qualquer forma, ficam bem atrás das maiores empresas listadas na B3. Petrobras e Vale, por exemplo, movimentam, cada uma, mais de R$ 2 bilhões por dia. Isso significa que o peso das BDRs no índice deve ser baixo – seria fácil ficar aquém do teto de 10%.
A mudança feita pela B3 também acompanha uma transformação no próprio mercado de capitais brasileiro. Nos últimos anos, empresas relevantes do país passaram a buscar o mercado americano para listar suas ações – a seca de IPOs na B3 durou de setembro de 2021 a maio de 2026, quebrada apenas pela abertura de capital da Compass, a distribuidora de gás da Cosan.
XP e Nubank fizeram seus IPOs nos Estados Unidos. O Inter transferiu sua estrutura acionária para a Nasdaq. E a JBS passou, no ano passado, a operar na chamada dupla listagem – na prática, porém, ela só negocia BDRs por aqui.
Na avaliação de Siqueira, a abertura do Ibovespa reflete tanto o crescimento da negociação de BDRs quanto esse movimento de empresas brasileiras que encontraram no exterior uma alternativa para acessar o mercado de capitais.
Mas a nova metodologia ainda precisa de definições, como apontar qual vínculo com o Brasil será exigido para que uma companhia seja elegível.
O caso mais relevante é o Mercado Livre (MELI34). Seu BDR movimentou R$ 41 milhões por dia no levantamento da Eleven, volume de sobra para brigar por vaga.
Embora a empresa seja argentina, ela tem um precedente que joga a seu favor. O papel já integra o Ibovespa B3 BR+, índice que reúne ações do Ibovespa e BDRs de companhias com forte vínculo com o país. Nesse caso, a B3 considera fatores que vão além do endereço da origem: 53% do faturamento do Mercado Livre vem do Brasil.
A entrada dos BDRs no índice vai aumentar a liquidez desses papéis, ou seja, o número de negociações, já que a miríade fundos que seguem o Ibovespa terá de comprar esses papéis.
Mesmo assim, o volume de negociação não chegaria ao das blue chips, uma ordem de grandeza maior. Logo, a hierarquia dos pesos do Ibovespa, com Petrobras e Vale respondendo por mais de 20% do índice, não deve mudar.
Para Siqueira, o impacto tende a aparecer mais na outra ponta da carteira, a das empresas menores. Se a B3 mantiver, em linhas gerais, a metodologia atual e apenas passar a admitir os BDRs, papéis com menor peso e negociabilidade devem perder espaço para acomodar os novos integrantes.
