O anúncio foi feito para um grupo de cerca de 200 pessoas, entre elas 60 jornalistas dos EUA e da América Latina reunidos pelo Nubank em Miami, e transmitido ao vivo para clientes e colaboradores. “Após provar essa hipótese com mais de 140 milhões de clientes, estamos entusiasmados para começar a executar nossa tese além da nossa região de origem”, disse Vélez, que é também CEO Global do Nu. “Este é o primeiro marco de uma jornada de várias décadas para posicionar o Nu como o principal banco digital do mundo.”
Além do Brasil, o Nubank já opera há seis anos no México e na Colômbia. E começou a dar sinais mais claros de sua ambição para além da América Latina de um ano para cá. A cofundadora Cristina Junqueira se mudou para os EUA com a família e a instituição anunciou patrocínios de destaque no mercado internacional: o Nu Stadium é a casa do Inter de Miami, de Lionel Messi, e o Nu também passou a patrocinar a equipe da Mercedes na Fórmula 1.
Nu USA: sem tarifas, cashback e o diferencial das remessas
No competitivo mercado dos Estados Unidos, em que o setor de bancos de varejo movimenta cerca de US$ 1,2 trilhão por ano, o Nu adotou uma estratégia de entrada diferente da aplicada a Brasil, México e Colômbia. Em vez de começar com força total em um único produto, a instituição lançou um pacote de serviços, com conta, cartão, pagamento de contas e transferências locais e internacionais de dinheiro. Tudo será oferecido de forma gratuita, sem cobrança de tarifas.
O dinheiro que ficar parado na conta corrente será remunerado em 3,5% ao ano, podendo chegar a 4,5% se o cliente estiver disposto a guardar até US$ 10 mil. O cartão de crédito, da bandeira Mastercard, dará cashback de 1,5% sobre todas as compras.
Mas o serviço que deverá mais chamar a atenção nesta largada são as remessas internacionais gratuitas e em poucos minutos. No início, essas transferências estarão restritas a Brasil, México e Colômbia, os três países em que já atua, mas o Nu já avisou que pretende ampliar esse cardápio em breve. O México, segundo dados do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), é o maior recebedor de transferências da América Latina e o segundo maior do mundo, atrás apenas da Índia.
As remessas devem atrair as comunidades brasileira e latina, embora o Nu já tenha deixado claro que seu objetivo é conquistar também os americanos. “Capturar mesmo que uma pequena fatia do mercado americano será transformador para o nosso negócio”, disse Cris Junqueira, CEO do Nu US, no evento em Miami.
Nos EUA, além da concorrência com os chamados incumbentes (bancos tradicionais), o Nu terá pela frente o desafio de se destacar em meio a uma disputa já acirrada entre fintechs e bancos digitais. Sem um sistema como o Pix, os americanos já se acostumaram hoje a utilizar serviços como Venmo, Zelle e PayPal para transferências, por exemplo. E entre os digitais destacam-se o Ally, Chime, SoFi e Revolut.
Nesse início de operações nos Estados Unidos, o Nu vai utilizar a infraestrutura do banco americano Lead Bank, um dos mais relevantes provedores de Banking as a Service (Baas) do país, com clientes como Stripe, Revolut e a carteira digital do Walmart (One Pay). Embora já tenha a aprovação de um dos reguladores, o OCC, para seu pedido de licença bancária nacional, o Nu ainda aguarda as aprovações de outros dois reguladores, o Fed (banco central americano) e o FDIC.
Nu Global: transferências com uso de moedas digitais
Simultaneamente ao início das operações nos EUA, o Nubank está lançando sua conta global multimoeda, o Nu Global, ancorado em moedas digitais.
“A entrada nos Estados Unidos é um passo estratégico para o Nu. Mas construir uma plataforma global também significa olhar para problemas que são universais”, afirmou Vélez. Um desses problemas, segundo o Nu, é a movimentação de dinheiro entre fronteiras.
Segundo dados da instituição, mais de 300 milhões de pessoas anualmente vivem e trabalham cruzando fronteiras, movimentando cerca de US$ 800 bilhões (dados do Banco Mundial de 2025) e pagando 6% desse total em taxas e spreads (margens cobradas sobre o câmbio).
O Nu Global é um serviço de contas multimoedas digitais – em USDC (stablecoin atrelada ao dólar, ou dólar digital) e em EURC (euro digital), que permite a transferência de recursos entre 35 países da Europa e da América Latina. As operações, que levam minutos, segundo o Nu, são realizadas a partir de infraestrutura instalada na Suíça. Os clientes terão também um cartão virtual Mastercard para compras.
Os recursos mantidos em USDC na conta terão rentabilidade de 3,5% ao ano e em EURC, de 2,2% ao ano. Assim como as remessas da operação nos EUA, o Nu Global não cobrará tarifa nas transferências. Será possível enviar dinheiro da França para a Argentina, por exemplo, gratuitamente. Por enquanto, Brasil, Colômbia e México ficam de fora do serviço.
Desafios
Vélez reconhece que a expansão global é um desafio e tanto. Nos EUA, o mercado bancário de varejo é muito menos concentrado do que em países como Brasil, México e Colômbia. Tem mais concorrentes e concorrentes mais competitivos, com custos de marketing de valores muito mais altos.
A Revolut, hoje o banco digital mais valioso do mundo, tenta ganhar tração desde 2020, a Chime levou mais de uma década para chegar onde está, e a britânica Monzo desistiu recentemente do mercado americano.
O Nu confia que seus baixos custos (85% menores que os dos bancos incumbentes nos mercados em que atua), seu foco no cliente e na experiência do usuário farão a diferença no mercado americano e são uma vantagem competitiva relevante.
Analistas de instituições como JP Morgan e Citi colocam como ponto de atenção também a dispersão que novos mercados podem causar, com perda de foco, em um momento em que as operações no Brasil, no México e na Colômbia seguem em processo de crescimento, com novas ofertas de produtos e o desafio de ampliação da receita por usuário. Vélez, em entrevistas, diz que a instituição tem uma cultura forte de priorização – e de dizer não para aquilo que não é foco.
Há ainda o desafio regulatório. Nos EUA, a instituição aguarda as aprovações para se tornar banco. No México, onde já é o maior banco digital, com 16 milhões de clientes, passou a operar como banco no mês passado. No Brasil, comprou em julho o banco Porto Real de Investimentos, o que dá à instituição a licença bancária necessária para que possa usar o Bank no nome – a operação ainda precisa ser aprovada pelo Banco Central. E na Colômbia ainda opera como uma companhia de financiamento.
Lucro recorde
O Nu anunciou recentemente seus resultados do segundo trimestre com lucro recorde de US$ 1,06 bilhão, 49% acima do mesmo período do ano anterior. O retorno sobre o patrimônio (ROE, na sigla em inglês) foi de 33%, à frente de BTG Pactual (26,7%), Itaú Unibanco (24,3%), Bradesco (16,2%), Santander Brasil (12,5%) e Banco do Brasil (8,3%).
A jornalista viajou para Miami a convite do Nubank.
