“A grande maioria dos grãos acaba desenvolvendo problemas de qualidade, resultando em um café com maior grau de fermentação, o que afeta significativamente a bebida”, disse Simão de Lima, diretor-presidente da cooperativa Expocacer, que representa mais de 800 produtores na região do Cerrado Mineiro, no Sudeste do Brasil. “O impacto foi significativo.”
Os contratempos no Brasil são especialmente relevantes para o mercado de café arábica porque o país sul-americano produz cerca de 45% dessa variedade. A produção foi afetada nas últimas safras, ajudando a levar os preços a um recorde no ano passado. E, embora o Brasil caminhe para uma safra abundante desta vez, o desafio da qualidade obscurece as perspectivas de oferta.
Cerejas de café em uma plantação em Jacutinga, Minas Gerais, Brasil, julho de 2025.
No Cerrado Mineiro, cerca de 600 quilômetros ao norte de São Paulo, os agricultores mal haviam começado a colheita quando as chuvas de junho derrubaram cerejas maduras no cinturão do arábica, com parte dos frutos caídos ficando encharcada por dias.
Lima estima que, em média, 20% das cerejas da safra tenham sido derrubadas dos pés pelas chuvas tropicais, ante cerca de 5% a 7% em um ano típico.
Depois, quando os grãos finalmente foram recolhidos, uma segunda onda de chuvas, em julho, caiu sobre o café que estava disposto para secar, obrigando alguns produtores a reiniciar o processo de secagem e comprometendo ainda mais a qualidade.
Alcançar um equilíbrio delicado entre a lavagem e a secagem dos grãos colhidos é fundamental para controlar a umidade e atingir os níveis adequados de acidez, além de preservar os compostos voláteis que dão ao arábica suas notas características.
“Você tem café que já está secando no terreiro, então chove de novo sobre esse café e é preciso recomeçar toda a secagem”, disse Lima.
As chuvas alcançaram de 250% a 500% dos níveis normais em partes do cinturão cafeeiro do Brasil em junho e julho, com algumas áreas recebendo até oito vezes o volume habitual, segundo a empresa de previsão meteorológica Vaisala.
Café mais caro
O impacto das chuvas já afetou os preços. Os futuros de café arábica subiram cerca de 35% desde junho, revertendo grande parte das quedas deste ano. No mercado físico, cafés finos brasileiros estão sendo negociados com prêmios de até 15 centavos de dólar por libra acima dos futuros de Nova York, segundo quatro corretores com conhecimento direto do assunto.
O problema de qualidade também significa que haverá menos café para recompor os estoques em armazéns certificados da Intercontinental Exchange Inc. nos Estados Unidos e na Europa, que dão suporte aos contratos de referência e estão próximos do menor nível deste século.
A ICE tem padrões que “classificadores” profissionais avaliam ao provar amostras de lotes de café e examinar o aspecto físico dos grãos. Segundo suas diretrizes, o café deve estar “em boas condições, livre de sabores de café não lavado e envelhecido na xícara, ter boa qualidade de torra e tamanho e cor dos grãos de acordo com os critérios estabelecidos pela Bolsa”.
Normalmente, os grãos que atendem aos critérios da ICE representam de 30% a 35% da produção, disse Lima. Após a queda incomum dos frutos neste ano, o percentual pode ficar mais próximo de uma estimativa entre 10% e 15%, acrescentou.
A região de Lima produz alguns dos melhores cafés do Brasil, frequentemente chamados de semilavados em razão do processo usado para remover a polpa que envolve os grãos de café.
O enorme peso da produção brasileira significa que até compradores que normalmente obtêm seu arábica de outras origens podem enfrentar uma concorrência mais acirrada pelos melhores grãos, enquanto o mercado tenta preencher qualquer lacuna deixada pelos produtores brasileiros.
No fim, há uma questão maior para os consumidores que apreciam uma boa xícara de arábica do que para as grandes torrefadoras. As maiores empresas de café têm opções como repassar custos mais altos aos preços de varejo, especialmente em seus produtos premium, e também têm margem de manobra ao misturar suprimentos de diferentes regiões e qualidades.
Embora as chuvas tenham reduzido a parcela de cafés semilavados em algumas áreas, os prêmios em alta foram parcialmente impulsionados por agricultores com forte capacidade financeira que retêm as vendas, segundo Cristina Scocchia, diretora-presidente da Illycaffe.
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“Qualquer aumento moderado dos prêmios é impulsionado mais pela dinâmica do mercado e pelo comportamento de produtores bem capitalizados do que por problemas específicos de qualidade”, afirmou ela.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta que a oferta de café superará o consumo em 10 milhões de sacas na temporada que começa em outubro, o maior excedente em seis anos. Isso será impulsionado, em grande parte, por uma colheita recorde no Brasil.
Mas, se Lima estiver certo, o excedente global deste ano não incluirá muito arábica premium de sua região do mundo.
“Não haverá o mesmo volume de café de alta qualidade”, disse ele.

