O movimento acompanha a queda do juro real exigida pelo mercado para emprestar dinheiro ao governo no longo prazo. E ele faz isso principalmente via títulos do Tesouro IPCA+, e uma parte via prefixados.
O “juro longo” reflete a expectativa para o futuro da Selic. Quando o mercado passa a apostar que ela vai cair, isso se materializa na queda dos juros longos. E essa queda eleva o saldo de quem tem títulos IPCA+ e prefixados nas mãos.
No fim de julho, o Tesouro IPCA+ 2040 pagava inflação mais 7,78%. Nesta segunda, era negociado a IPCA mais 7,29%, uma queda de 0,49 ponto percentual.
Parece pouco, mas faz uma diferença grande no preço de um título que só vence em 2040. No IPCA+ 2040, nas condições atuais, cada queda de 0,1 ponto percentual na taxa representa 1,3% de valorização no preço do papel. É esse efeito que potencializou o ganho das últimas semanas.
Sempre vale lembrar: a valorização de 7,16% que mencionamos é na chamada “marcação a mercado”. Só é retorno efetivo para quem comprou o título em julho e vendeu neste momento. Quem carrega o IPCA+ até o vencimento, em 2040, recebe a inflação mais a taxa real contratada no momento da compra (que era de 7,78% ao ano no dia 31 de julho), independentemente das oscilações de preço no caminho.
O mesmo movimento favorece o Tesouro Prefixado 2032, embora em intensidade menor – já que títulos de vencimento mais curto respondem com menos intensidade às oscilações dos juros longos.
No fim de julho, o papel pagava 14,63% ao ano. Em 8 de setembro, atingiu 14,04%, no menor patamar desde maio, e fechou nesta segunda a 14,24%.
Com a queda das taxas, a valorização no preço até hoje foi de 3,48%, ou cerca de 2,2 vezes o CDI no período, o que transformaria um investimento inicial de R$ 10 mil em R$ 10,3 mil em cerca de seis semanas.
Ou seja, o Tesouro Prefixado 2032 também bateu o CDI, mas ficou com o ganho aquém do papel mais longo. Nas condições atuais, uma queda de 0,1 ponto percentual nos juros desses papéis representa algo próximo de 0,46% de valorização do título, bem menos de cerca de 1,3% do IPCA+ 2040.
O que está por trás do movimento
O gatilho para a melhora do mercado é o mesmo que levou o Ibovespa a subir 11,5% desde a mínima de 18 de agosto: as pesquisas eleitorais e as expectativas para os juros.
As pesquisas presidenciais divulgadas nas últimas semanas mexem com a percepção de risco fiscal para os próximos anos e provocam movimentos relevantes na curva de juros.
“Os resultados aumentaram a percepção de uma eleição aberta e levaram os investidores a revisarem as probabilidades atribuídas aos diferentes cenários econômicos para 2027”, afirmou Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.
Foi um dos fatores que ajudaram a derrubar as taxas nas últimas semanas, mas também mostra como esse ganho pode mudar rapidamente.
Além disso, o pano de fundo macro no país também contribuiu com a melhora do ânimo dos investidores. O IPCA de agosto veio em -0,32%, na maior deflação em quatro anos, e derrubou o índice acumulado em 12 meses para 4,22%, no terceiro recuo seguido. Na bolsa, as opções de Copom da B3 passaram a apontar 94% de chance de o Banco Central cortar a Selic mais uma vez, de 14% para 13,75% desta quarta.
Ainda assim, o exterior segue trazendo preocupações, servindo como contraponto ao otimismo do mercado e um limitador para possíveis ganhos futuros.
Teremos esta semana a “super quarta”, com decisões sobre juros no Brasil e Estados Unidos. Enquanto por aqui é esperado um corte, nos EUA, a ferramenta CME FedWatch, que segue o posicionamento dos investidores sobre os rumos futuros da política monetária americana, mostra uma probabilidade de 87% de que o Fed suba os juros em 0,25 ponto.
Um ciclo de alta de juros nos Estados Unidos que possa avançar até início de 2027 pode fortalecer o dólar, aumentar a pressão sobre os preços no Brasil e reduzir o espaço para novos cortes da Selic.
Nesse cenário, a perspectiva de juros altos por mais tempo elevaria a volatilidade dos títulos IPCA+ e prefixados – trazendo eventuais perdas para quem entrar agora: títulos que sobe muito num cenário cai com a mesma intensidade quando a chave vira.
Para quem quer travar as taxas atuais sem passar por tanta montanha-russa, gestores têm indicado o meio-termo. Vencimentos próximos a cinco anos ainda são negociados a um juro elevado até o resgate e ainda podem capturar parte da valorização caso o cenário fiscal melhore, sem tanta sensibilidade quanto um papel que vence em 2040.
Já para quem não tolera ver o saldo oscilar e precisa do recurso em prazos menores, as alternativas são o Tesouro Selic e fundos DI, que ainda rendem perto de 14% ao ano – o equivalente a um gordo IPCA+9% hoje.
