Economia

Como a disputa pelo diesel russo foi parar nos tribunais brasileiros

Em uma rara disputa judicial, um ex-integrante do setor de energia russo processou operadores de petróleo sancionados que, segundo autoridades ocidentais, se tornaram os mais importantes intermediários para permitir que Moscou venda seu petróleo e financie a guerra na Ucrânia. Igor Soglayev afirma que se associou, no início de 2024, a operadores de Moscou conhecidos...

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Em uma rara disputa judicial, um ex-integrante do setor de energia russo processou operadores de petróleo sancionados que, segundo autoridades ocidentais, se tornaram os mais importantes intermediários para permitir que Moscou venda seu petróleo e financie a guerra na Ucrânia.

Igor Soglayev afirma que se associou, no início de 2024, a operadores de Moscou conhecidos como rede Coral. A relação azedou depois que um navio-tanque que transportava dezenas de milhões de dólares em diesel não conseguiu entregar a carga no Brasil.

As duas partes agora travam uma disputa nos tribunais do Brasil e dos Emirados Árabes Unidos, segundo documentos judiciais analisados pelo The Wall Street Journal. O tribunal dos Emirados que conduz o principal processo não tornou públicos os detalhes do caso.

Soglayev, ex-executivo do Deutsche Bank, obteve uma vitória judicial, apesar de ter recebido o que interpretou como ameaças de morte em decorrência de negócios de energia que deram errado.

Um juiz dos Emirados Árabes Unidos determinou o bloqueio de mais de US$ 700 milhões em recursos provenientes da venda de energia russa por seus adversários.

“Percebi que tinham passado a perna em mim”, disse Soglayev em entrevista. “Fui realmente enganado.”

Em busca do ouro líquido

O valor do bloqueio judicial evidencia as quantias em jogo no mercado de petróleo russo sujeito a sanções e até onde executivos com ligações com o setor energético russo estão dispostos a ir para conseguir uma fatia desse mercado.

A Rússia continua sendo um dos principais exportadores de energia do mundo, ao lado dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, vendendo mais de US$ 150 bilhões em petróleo bruto e combustíveis por ano.

Para escapar das sanções ocidentais, as exportações russas de petróleo passaram, em sua maior parte, ao controle de um pequeno grupo de intermediários do Azerbaijão e da Rússia.

No setor e entre autoridades ocidentais, eles são conhecidos como rede Coral, nome inspirado em uma empresa comercial que deixou de existir e onde muitos deles trabalharam anteriormente.

Liderada pelos pouco conhecidos operadores Etibar Eyyub e Tahir Garayev, a Coral fechou um acordo secreto com a estatal russa Rosneft para exportar grande parte do petróleo da Rússia nos primeiros meses caóticos da guerra na Ucrânia, segundo noticiou o The Wall Street Journal.

Desde então, a rede consolidou seu controle sobre o mercado e movimenta dezenas de bilhões de dólares em petróleo por ano, utilizando uma frota de navios-tanque que compõe a maior parte da chamada frota paralela russa.

O Reino Unido e a União Europeia impuseram sanções a Eyyub, Garayev e vários de seus associados, além de dezenas de empresas comerciais e de transporte marítimo que eles utilizavam para desviar a atenção de suas atividades.

No ano passado, Eyyub afirmou considerar as sanções infundadas e disse não ter feito nada ilegal. Um advogado de Garayev declarou que o empresário azerbaijano não está envolvido em operações com petróleo desde 2022.

A rede Coral vende petróleo bruto que antes tinha como destino a Europa, a Índia e a China. Enquanto isso, o diesel russo era enviado ao Brasil, onde o combustível abastece caminhões de carga.

O país consome grandes volumes do produto para movimentar esses veículos. Soglayev tentou conquistar uma fatia desse mercado.

Usando conexões com o Estado

A trajetória profissional de Soglayev acompanha as transformações econômicas recentes da Rússia. Ele comandou uma unidade de inteligência militar antes de deixar o Exército, após o colapso da União Soviética. Com a expansão da iniciativa privada nos anos 1990, associou-se a um empresário holandês para importar produtos eletrônicos.

Depois de trabalhar em Wall Street, nos Estados Unidos, voltou à Rússia e se aproximou do setor petroquímico durante sua passagem pelo Deutsche Bank. Essa experiência o levou ao cargo de presidente-executivo da fabricante de produtos químicos Sanors.

A Rosneft comprou a Sanors em 2015. Soglayev tornou-se o principal executivo da estatal na área de produtos químicos e assessor de Igor Sechin, chefe da Rosneft – que hoje é o principal patrocinador dos operadores da rede Coral. Soglayev deixou a empresa dois anos depois e passou a se envolver em diferentes negócios no setor de energia.

Quando a estrutura de exportação russa entrou em colapso após a invasão da Ucrânia pelo presidente Vladimir Putin, Sechin recorreu a Eyyub e Garayev para substituir os operadores suíços e britânicos que antes cuidavam do petróleo da Rosneft, segundo o Journal.

O advogado de Garayev afirmou não ter conhecimento de nenhum processo judicial envolvendo seu cliente e Soglayev. Eyyub não foi localizado para comentar.

Segundo documentos judiciais, Soglayev criou em Dubai uma empresa chamada DIA33 para comprar petróleo russo e revendê-lo a compradores estrangeiros. Ele concentrou seus esforços no Brasil, onde o diesel russo vinha substituindo combustíveis americanos mais caros.

Seu objetivo era tornar o combustível russo aceitável para importadores preocupados com a possibilidade de que compras diretamente de Moscou complicassem suas relações com bancos receosos de violar as sanções.

Ele reservou espaço para armazenamento em portos brasileiros e planejava comprar diesel de exportadores russos para revendê-lo a distribuidoras de combustíveis com uma margem de lucro.

Uma rede de transações

Os acordos comerciais firmados por Soglayev mostram os mecanismos complexos que mantiveram o petróleo russo circulando fora do alcance das autoridades ocidentais. Soglayev afirma ter comprado diesel russo de uma pequena empresa de Dubai chamada Serene Resources no fim de 2023.

Segundo ele, o presidente-executivo da empresa, Andrey Romanovskiy, mudou-se posteriormente para outra companhia controlada por Eyyub e Garayev.

Soglayev afirma que Romanovskiy lhe disse que a rede Coral operava por meio de diferentes empresas de fachada para evitar chamar a atenção internacional.

Os dois também teriam discutido a possibilidade de a DIA se fundir futuramente com a Coral e se tornar o braço comercial da rede no Brasil.

Um advogado de Romanovskiy não respondeu às perguntas. Em uma declaração juramentada analisada pelo Journal, porém, Romanovskiy afirmou a um tribunal de Dubai que sua empresa era independente, negou que ela fosse controlada pela Coral e contestou outros detalhes apresentados por Soglayev no processo.

A situação se deteriorou depois que operadores de um terminal portuário brasileiro rejeitaram um navio-tanque antigo carregado de diesel russo que Soglayev deveria vender, segundo documentos apresentados por ele e por alguns de seus adversários.

De acordo com os documentos, a embarcação permaneceu semanas sem avançar, acumulando despesas, até que outro porto permitiu sua entrada.

Os supostos operadores da Coral que venderam o diesel, frustrados por não terem recebido o pagamento de Soglayev, recorreram a um tribunal arbitral em Dubai.

Eles o acusaram de ter exagerado sua capacidade comercial e, na prática, se apropriado do combustível. No início deste ano, o tribunal determinou que Soglayev pagasse US$ 42 milhões a uma das empresas envolvidas na operação.

Soglayev respondeu com ações judiciais próprias em Dubai e no Brasil. Ele afirma que a Coral destruiu seus negócios ao abordar seus clientes e vender combustível a preços mais baixos.

Segundo ele, a parceria era uma manobra para que a Coral tivesse acesso a informações internas da DIA. Soglayev alega ter direito a mais de US$ 500 milhões em indenização por negócios perdidos.

Soglayev afirma ter recebido o que interpretou como ameaças de morte, incluindo uma ligação de Eyyub na qual ele teria dito que discutira a disputa com um senhor da guerra checheno.

Em junho, um juiz de Dubai proibiu Eyyub, Garayev e outras 13 empresas e pessoas de se desfazerem de ativos avaliados em até US$ 704 milhões enquanto o processo avançava. Posteriormente, porém, o magistrado declarou que seu tribunal não tinha competência para julgar o caso, levantando a possibilidade de que a ação fosse rejeitada.

Soglayev recorreu para tentar manter o processo no Centro Financeiro Internacional de Dubai (DIFC, na sigla em inglês), afirmou seu advogado nos Emirados Árabes Unidos, David McCoy, do escritório ADG Legal.

A ordem de bloqueio dos ativos continua em vigor até que seja tomada uma decisão sobre o recurso. Uma ação judicial relacionada ao caso no Brasil segue em andamento.

Entre em contato com Joe Wallace pelo e-mail joe.wallace@wsj.com e com Samantha Pearson pelo e-mail samantha.pearson@wsj.com.

Traduzido do inglês por InvestNews



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