Um mercado de trabalho mais forte se traduz em demanda aquecida, o que pressiona os índices de inflação – e isso pressiona o banco central a subir os juros. E isso tem efeitos sobre os juros de longo prazo no Brasil (veja mais abaixo).
No mercado americano, os rendimentos dos títulos do Tesouro de dois anos, mais sensíveis à política monetária, subiram até 8 pontos-base e fecharam em 4,37%, como reflexo das expectativas. Os papéis de cinco anos chegaram ao maior nível desde janeiro de 2025.
Após o relatório de emprego, as apostas nos Estados Unidos para a reunião de setembro do Fed passaram a indicar uma probabilidade maior de elevação de 0,25 ponto percentual: cerca de 60%, versus perto de 50% antes da divulgação dos dados.
Até o fim do ano, as cotações embutem um aumento acumulado de 0,38 ponto – o equivalente a uma alta de 0,25 ponto e cerca de 50% de chance de um segundo ajuste.
A mudança nas expectativas encerra uma semana volátil para os títulos do Tesouro americano e também tem reflexos no Brasil.
Quanto maior a remuneração paga pelos papéis dos Estados Unidos, maior tende a ser a pressão para que os títulos brasileiros ofereçam taxas mais elevadas e continuem atraentes. Os contratos de juros (DI) com vencimento em 2027 operavam com alta perto das 14h, embora os demais com vencimentos a partir de 2028 tivessem queda nas taxas.
O dólar subia 0,57%, para R$ 5,12, no mesmo horário no Brasil.
Os efeitos sobre os juros e os ativos no Brasil
Uma análise de economistas do BTG Pactual indica que fatores externos, principalmente os juros americanos, explicam cerca de 40% da pressão sobre as taxas de longo prazo no Brasil.
Para o investidor, isso pode provocar perdas no curto prazo com títulos prefixados e atrelados à inflação, cujos preços caem quando as taxas sobem.
Um aperto monetário nos Estados Unidos também pode fortalecer o dólar, aumentar a pressão sobre os preços no Brasil e limitar o espaço para novos cortes da Selic. Entenda como os juros altos no exterior afetam os investimentos no Brasil.
Apesar da força do mercado de trabalho, a decisão do Fed ainda dependerá dos dados de inflação da próxima semana. Os preços sobem acima da meta de 2% há cinco anos e são apontados pelo presidente da instituição, Kevin Warsh, como a principal preocupação neste momento.
“O relatório mostrou que o mercado de trabalho não representa nenhum obstáculo para uma alta dos juros”, afirmou Kevin Flanagan, chefe de estratégia de investimentos da WisdomTree. Agora, segundo ele, a inflação “assume o centro do palco e determinará se o Fed elevará os juros ou não”.
A Bloomberg Economics espera que o índice de preços ao consumidor dos EUA, o CPI, mostre a inflação cheia em 3,4% em 12 meses, enquanto o núcleo deve desacelerar para 2,4%. Nesse cenário, o banco central manteria as taxas inalteradas em setembro.
A possibilidade de alta “depende totalmente desse relatório e da trajetória futura dos preços da energia”, afirmou Jeffrey Rosenberg, gestor de portfólio da BlackRock, à Bloomberg Television.
“Se a inflação continuar mostrando progresso, o Fed manterá os juros”, disse.
Antes da divulgação dos dados de inflação, o mercado também terá de absorver uma enxurrada de emissões de títulos corporativos e uma série de leilões da dívida pública americana após o feriado do Dia do Trabalho na próxima segunda-feira (7). Esses eventos podem pressionar os rendimentos para cima.
Os investidores acompanham ainda uma esperada onda de recompra de títulos. No mês passado, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, surpreendeu o mercado ao anunciar planos para ampliar essas operações com papéis de vencimento mais longo.
“A intervenção nos mercados dificulta a vida do investidor” e representa um desafio para estratégias baseadas nos fundamentos de crescimento, inflação e emprego, afirmou Tim Musial, chefe de renda fixa da CIBC Private Wealth.
“É um desafio que não pode ser realmente previsto. Talvez seja necessário assumir um pouco menos de risco nesse ambiente”, disse.
No início desta semana, o rendimento do título do Tesouro americano de dez anos, referência do mercado, atingiu o maior nível em três anos. A disparada dos preços da energia se somou às declarações mais duras de Warsh no simpósio anual do Fed em Jackson Hole.
Depois, os títulos se valorizaram e os rendimentos recuaram após o diretor do Fed Christopher Waller afirmar, na quinta-feira (3), que a inflação pode estar desacelerando.
