Na taxa em 12 meses, aquela que o BC olha para levar para à meta de 3% ao ano, estamos em 4,22%. É o terceiro mês seguido de queda – desde maio, quando o IPCA em 12 meses estava em 4,72%.
Essa leitura mais favorável da inflação traz a expectativa de que o BC vá cortar os juros novamente, para 13,75% ao ano, dos 14% atuais.
No Tesouro Direto, as taxas IPCA+ e prefixadas responderam à deflação de agosto com quedas relevantes. O Tesouro Prefixado 2032 recuou de 14,18% ao ano do fechamento na quinta-feira (10) para 14,08%.
Como na renda fixa quando as taxas caem os preços dos papéis sobem, o recuo do prefixado de 2032 trouxe um ganho de 0,40% em reais para o detentor do título.
O Tesouro IPCA+ 2040 saiu de 7,30% ontem para 7,22% nesta sexta-feira. A queda das taxas trouxe um aumento de 1% no saldo em reais de quem tem esse papel.
Lá fora
Nos EUA, o CPI (“IPCA” deles) subiu 0,4%, em linha com as projeções. O ponto de atenção ficou para o comportamento do chamado núcleo do índice, ou seja, a medida de inflação ao consumidor americano sem considerar categorias ” voláteis”, como energia e alimentos.
O núcleo nos EUA veio em 0,3% – 0,1 ponto percentual acima das expectativas.
No caso do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), a visão que fica mais consolidada é a de uma alta potencial de 0,25 ponto percentual para as taxas de curto prazo que subiriam para a faixa entre 3,75% a 4% ao ano.
A ferramenta CME FedWatch, que segue o posicionamento dos investidores sobre os rumos futuros da política monetária americana, mostra uma probabilidade de 87% de que o Fed suba os juros em 0,25 ponto.
Antes do CPI de agosto, os investidores enxergavam 70% de chances de elevação.
Já as opções de Copom da B3, de função semelhante ao FedWatch, mas voltada ao Brasil, apontam para 94% de possibilidade de o BC cortar a Selic mais uma vez. O consenso do mercado é de queda de 0,25 ponto.
Após os resultados, às 10h35, o Ibovespa apresentava queda de 0,79% aos 186.790 pontos – uma resposta mais ao dado americano que ao brasileiro, como vamos ver mais adiante. O dólar operava estável, em -0,07%, a R$ 5,09.
Efeitos das próximas decisões de juros
O investidor local tem de ficar atento aos efeitos da superquarta. Uma alta lá fora combinada com queda de juros aqui pode provocar um fortalecimento do dólar.
Além disso, uma potencial saída de recursos estrangeiros da bolsa pode levar a uma queda do Ibovespa, uma vez que os investidores internacionais representam cerca de 60% do volume negociado na B3.
Por outro lado, uma queda de taxas no Brasil ajuda algumas ações. É o caso dos bancos, que se beneficiam de um custo menor de capital, e das companhias de infraestrutura, como energia e saneamento, um grupo com receitas previsíveis que, com a redução dos juros, veem o valor estimado pelo mercado do fluxo de caixa futuro subir.
Na renda fixa, o cenário fica um pouco mais confuso. Enquanto a queda da Selic tende a distencionar a pressão sobre as taxas de mercado, o conjunto de forças que têm influenciado o mercado de juros pode manter as taxas de longo prazo em alta.
A forma como esses movimentos ocorrem pode parecer contraintuitivo, porque com Selic e CDI menores o esperado é uma menor propensão de investidores de aplicar nos produtos atrelados às taxas pós-fixadas.
Porém, uma sinalização de início de um ciclo de alta de juros nos Estados Unidos que possa avançar até início de 2027 pode fortalecer o dólar, aumentar a pressão sobre os preços no Brasil e limitar o espaço para novos cortes da Selic. Entenda como os juros altos no exterior afetam os investimentos no Brasil.
Nesse caso, a perspectiva de juros altos por mais tempo elevaria a volatilidade dos títulos IPCA+ e prefixados.
O Brasil ainda vive um aquecimento do momento eleitoral altamente polarizado. A divulgação de pesquisas e o noticiário político têm influenciado tanto a bolsa quanto os juros de longo prazo, que balizam os títulos IPCA+ e prefixados.
O chamado “trade” eleitoral pode, inclusive, se sobrepor às pressões vindas de fora, como ocorreu na quinta-feira (10), em que o Ibovespa subiu 1,42% reagindo a pesquisas que mostravam um enfraquecimento da candidatura de Lula – um movimento na contramão dos mercados globais, que viveram um dia mais negativo com a forte alta dos preços do petróleo.
