Com a perspectiva de continuidade do recuo dos juros ao longo de 2027 – caso o cenário de votação do primeiro turno e das pesquisas seja confirmado, bem como um plano mais crível de melhora fiscal no próximo governo –, os títulos com vencimentos mais longos, como o Tesouro IPCA+ 2050, tendem a se manter na dianteira dos ganhos nesse movimento.
Os títulos que têm mais tempo pela frente até o vencimento apresentam uma volatilidade maior comparados aos de prazos mais curtos.
Na prática, o papel mais longo rende mais em reais quando a taxa sobe, como agora, e também perde mais quando o retorno recua.
Na renda fixa, quando a taxa cai, o preço do papel sobe. Foi o que aconteceu com todos os títulos do Tesouro Direto após 2 de outubro.
Os ativos com vencimentos mais distantes, no entanto, ganharam mais. Essa diferença acontece porque esses produtos têm mais tempo de juros compostos pela frente. Por isso, o preço sobe ou desce com mais intensidade.
Para efeito de comparação, entre os dias 5 e 14 de outubro, o IPCA+ 2050 rendeu 11,1%, enquanto o IPCA+ 2040 teve alta de 9,2%.
Já o título mais curto atrelado à inflação disponível no Tesouro Direto, com vencimento em 2032, apresentou avanço de 5,8%, ou seja, menos da metade do irmão mais longevo.
O títulos mais longo da plataforma, o Renda+ 2065, apresentou um ganho de 15,3%.
Veja os ganhos dos títulos na tabela a seguir:
Analistas observam que o momento está favorável a aumentar o risco na carteira. No caso da renda fixa, isso equivale a ampliar a fatia aplicada em títulos de vencimentos mais longos.
É importante, porém, salientar que os risco são elevados. Como ninguém tem bola de cristal, os investidores precisam considerar várias questões.
A principal seria uma eventual frustração com a mudança de governo – e, caso isso aconteça, com planos concretos de reequilíbrio fiscal. Todo o ganho recente aconteceu diante de mudanças de expectativas.
O que moveu os preços foi, basicamente, a visão que passou a imperar no mercado de que a perspectiva de um ajuste fiscal no futuro governo ficou mais forte.
Nada mudou, na verdade, desde o dia 4 de outubro, data da primeira fase da votação.
Enquanto a eleição ainda estiver em aberto, as taxas vão ficar muito sensíveis. O otimismo tem um componente, portanto, frágil.
Bastaria, por exemplo, uma pesquisa eleitoral mostrar um quadro de disputa mais apertada e imprevisível no segundo turno, diferente daquele que motivou o rali, para o humor dos investidores azedar.
Há também o risco de as esperanças no ajuste fiscal não se concretizarem após o segundo turno e uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
Se esse cenário ocorrer, o mais provável é que as taxas voltem para o nível do período pré-eleitoral, com juros prefixados acima de 14% ao ano e as taxas acima da inflação acima de 7% – e, nos vértices mais curtos, perto de 8% ao ano.
Tudo isso posto, quem investir no Tesouro IPCA+ 2050 vai ter de aguentar no curto prazo uma volatilidade mais intensa do que em períodos “normais”. O prêmio por essa resiliência é aproveitar um eventual cenário de mais queda de juros pela frente.
Olhar de longo prazo. E riscos
Os investidores devem ficar atentos a alguns pontos nessa estratégia.
Toda aplicação em títulos IPCA+ de qualquer vencimento tem de ter um olhar de longo prazo. Significa que o aplicador não deve mexer – nem precisar fazê-lo – nesses recursos por alguns anos.
Para o curto prazo e para situações inesperadas, esse investidor precisa montar uma reserva de emergência, com perfil justamente de resgate imediato, com liquidez diária.
O investidor pessoa física deve lembrar também que um título com vencimento em 2050 tem ainda 24 anos pela frente. Espera-se que, ao longo desse caminho, ocorra uma janela para o aplicador resgatar os recursos em condições favoráveis. Mas nada é líquido e certo.
Por exemplo, quem aplicou em Tesouro IPCA+ 2040 em dezembro de 2025, pegou uma taxa de inflação mais 6,82% ao ano. De lá para cá, só teve ganho em reais depois do primeiro turno neste ano. Esperou 1 ano e 10 meses com um saldo menor do que quando comprou o título.
Idade faz diferença
Se a intenção é “travar” o rendimento por mais de duas décadas, o momento é oportuno. Afinal, se você levar esse ativo até o vencimento, vai receber exatamente o que contratou em um momento no qual as taxas ainda estão em patamares historicamente elevados.
No momento atual, com o Tesouro IPCA+ 2050 pagando 6,62% acima da inflação, um investimento de R$ 10 mil vai se tornar, no fim do prazo, R$ 46,6 mil em “dinheiro de hoje”, ou seja, sem considerar a inflação.
Por outro lado, para segurar até o vencimento, o investidor tem de lembrar que a idade também entra na lista de riscos. Quem tem perto de 50 anos precisa considerar que só vai sacar os recursos com 74 anos.
Se a pessoa precisar vender o título no meio do caminho vai ter de negociá-lo ao preço do dia. E esse valor muda às vezes mais de uma vez a cada sessão.
Essa variação se chama marcação a mercado. É, basicamente, o preço que os investidores pagam naquele momento pelo papel já emitido. E esse valor vai variar conforme muitos fatores, como ciclo dos juros, inflação, política fiscal, geopolítica e até pesquisas eleitorais, como ocorre no ambiente atual.
Quem colocou R$ 10 mil no Tesouro IPCA+ 2050 na sexta-feira (2), no último dia de negociação antes do primeiro turno, viu esse dinheiro subir para R$ 11,5 mil no fim do dia na segunda-feira (5). Houve uma valorização em reais, de uma sessão para outra, de 11,5%.
Perspectivas
Os juros dos títulos mais longos ainda podem cair mais após o segundo turno das eleições, que ocorre no próximo dia 25.
A melhora pode ser sustentada por uma sinalização do governo eleito de que pretende realizar um ajuste fiscal crível e buscar aprovar reformas para que os gastos públicos voltem a ficar sob controle.
Há espaço para isso em termos históricos.
O nível atual de juros após o rali do primeiro turno ainda está acima da média em 16 anos para títulos IPCA+, que é de 5,6% ao ano. Esse espaço para uma queda adicional de 1 ponto percentual equivaleria a um ganho de quase 25% para o IPCA+ 2050.
Há ainda um fator que já vem sendo considerado pelo mercado desde antes das eleições: a possibilidade de o ciclo de queda da Selic se estender ao longo de 2027. O boletim Focus, do Banco Central, que reúne projeções de instituições financeiras, coloca a taxa básica em 12% ao ano no fim de 2027.
Como a Selic atual está em 13,75% ao ano, se o BC mantiver o ritmo de corte de 0,25 ponto percentual por reunião, o patamar previsto no levantamento seria alcançado após sete reduções.
Nesse cenário, por outro lado, o risco é o Banco Central não ter espaço para cortar tanto quanto o mercado espera. Por exemplo, se houver uma intensificação do choque inflacionário global ou novos fatores geopolíticos.
