Cook pressionou a Apple a dar mais atenção ao projeto. As equipes de engenharia da companhia, porém, já estudavam celulares dobráveis, telas flexíveis e outros componentes havia anos.
O trabalho começou antes mesmo de a Samsung popularizar a categoria com o primeiro Galaxy Fold, em 2019, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
De iPad dobrável a iPhone
Um dos primeiros conceitos avaliados pela Apple era semelhante a um iPad mini que pudesse ser aberto para virar um tablet maior. A empresa, no entanto, mudou de direção e passou a concentrar os esforços em um iPhone dobrável.
“Tim foi o primeiro e maior defensor disso”, disse uma das fontes ouvidas pela Bloomberg. “Ele via esses aparelhos por toda parte na Ásia e dizia que a Apple precisava entrar nesse mercado.”
A participação de Cook foi incomum. Durante seus anos como CEO, ele ficou mais conhecido pelo foco nas finanças e na cadeia de fornecedores da Apple. Embora participasse de demonstrações e decisões importantes, normalmente não se envolvia diretamente na concepção de novos produtos.
A insistência em um iPhone dobrável ajudou a impulsionar um dos projetos de hardware mais complexos da história da Apple.
O mercado de celulares dobráveis ainda representa uma pequena parcela das vendas globais de smartphones, mas cresce mais rapidamente que o restante da indústria. Segundo a consultoria IDC, o segmento deve crescer 13% neste ano, para 22,9 milhões de aparelhos. O mercado total de smartphones supera 1 bilhão de unidades.
Quanto vai custar o iPhone dobrável?
Dentro da Apple, o aparelho recebeu o codinome V68. Durante o desenvolvimento, alguns funcionários também o chamavam de iPhone Ultra, já que o modelo ficará acima dos demais aparelhos da linha.
O preço é um dos principais pontos de discussão. No início do projeto, a Apple trabalhava com um valor de US$ 1.999, tentando ficar abaixo da marca de US$ 2 mil. A estratégia lembra a adotada com o iPhone X, lançado em 2017 por US$ 999.
Mais recentemente, a empresa discutiu preços de até US$ 2.199, segundo uma das fontes. Algumas versões com mais armazenamento podem chegar perto de US$ 3 mil. A escassez de chips de memória também fez a Apple rever para cima suas estimativas de custo.
Para comparação, o iPhone convencional atualmente parte de US$ 799, enquanto o iPhone 17 Pro começa em US$ 1.099.
O preço elevado pode afastar parte dos consumidores, mas os modelos mais sofisticados do iPhone Pro já chegam perto de US$ 2 mil nas versões com maior armazenamento. O desempenho desses aparelhos ajudou a Apple a concluir que havia espaço para um dobrável ainda mais caro.
Os concorrentes também cobram caro. Os modelos dobráveis mais recentes da Samsung e do Google começam em cerca de US$ 1.899.
Como será o iPhone dobrável
O aparelho terá uma tela interna de aproximadamente 7,8 polegadas, mais larga que a de muitos celulares dobráveis com Android. A proposta é facilitar atividades como assistir a vídeos e usar vários aplicativos ao mesmo tempo.
Na parte externa, haverá uma tela de 5,5 polegadas, relativamente curta, para facilitar o manuseio e permitir que o aparelho caiba melhor no bolso.
Fechado, o celular terá aproximadamente o tamanho de um passaporte. Aberto, suas proporções serão semelhantes às de um Magic Trackpad, o dispositivo de toque da Apple para Macs.
O aparelho, porém, terá algumas desvantagens em relação aos iPhones tradicionais. Para aproveitar a tela maior, será necessário abri-lo. Além disso, ele pode ser menos resistente, ter um sistema de câmeras inferior e oferecer menor duração de bateria.
Mesmo assim, funcionários da Apple acreditam que a empresa venderá todos os aparelhos que conseguir produzir. Estimativas de Wall Street apontam para vendas de 7 milhões a 10 milhões de unidades neste ano.
iPhone dobrável será teste para John Ternus
O lançamento também terá um significado especial para John Ternus, que assumiu o comando da Apple em 1º de setembro. Ele será o responsável por apresentar o novo aparelho, enquanto Cook, agora presidente do conselho, acompanhará o evento da plateia.
A complexidade do iPhone dobrável faz do produto uma vitrine para Ternus, que passou anos à frente da área de engenharia de hardware da Apple.
A empresa o apresenta como um executivo capaz de liderar uma nova geração de produtos, apoiada em sua experiência em engenharia e no desenvolvimento dos principais dispositivos da companhia.
O dobrável também será o primeiro de uma série de novos produtos que a Apple pretende lançar nos próximos anos. A lista inclui um MacBook com tela sensível ao toque, um robô de mesa, óculos inteligentes, AirPods com câmeras e um novo sistema de segurança residencial.
Os desafios da Apple
O desenvolvimento do aparelho envolveu quatro grandes desafios: reduzir a marca de dobra na tela, melhorar a durabilidade da dobradiça, criar um vidro flexível capaz de proteger a tela e desenvolver câmeras que ocupassem menos espaço atrás do display.
A Apple chegou a um sistema de dobradiça feito de titânio e alumínio, combinado com um vidro desenvolvido em parceria com a Corning. O resultado é uma marca de dobra menos visível do que a encontrada em muitos modelos dobráveis disponíveis atualmente.
A empresa também acredita ter uma vantagem no software. A Apple adaptou aplicativos para aproveitar melhor a tela mais larga e fez ajustes no iOS para que os programas funcionem em diferentes tamanhos de tela.
Por volta de 2023, os designers da companhia chegaram ao formato mais curto e mais largo, acreditando que ele seria uma diferença importante em relação aos concorrentes e ajudaria a compensar algumas das limitações inerentes a um celular dobrável.
Depois de anos de desenvolvimento, a Apple concluiu que a tecnologia havia chegado ao ponto necessário para transformar o projeto em produto. Agora, a empresa terá de convencer consumidores além de sua base mais fiel a pagar um preço recorde por um iPhone.
